Um líder de megafone na mão

JJC VF

Pela primeira vez em muito tempo estou com uma dificuldade tremenda para escrever. Não que o faça com particular brilhantismo como tu o fazias, mas tal como tu tenho ganas de o fazer e não perdia – nem perco – uma oportunidade de deitar cá para fora aquilo que tenho para dizer desde o dia em que me abriram a porta desta casa. Mas hoje não está a ser nada fácil. A dor de te ver partir tirou-me o pio. E logo eu que sou um fala barato com o coração na boca. Vem-me à memória uma vez em que achei que estava a escrever “postos” a mais. Perguntei-te: “Achas que estou a exagerar cota?”. Respondeste-me: “Deixa-te de merdas e vai escrever puto. Um dia ainda fazemos o blogue do Joões.”. Como eu te admirava e que tónico foram essas palavras!

Já cá andavas quase desde o início, desde 2009. Como leitor do Aventar que sou, mais coisa menos coisa, desde meados de 2010, sempre segui atentamente aquilo que escrevias. Fascinava-me a forma como estruturavas os teus argumentos, acutilantes, e como gritavas violentamente o teu inconformismo. As tuas palavras arrebatavam-me. Foste para mim, muito antes de sequer sonhar que algum dia faria parte desta família, uma referência, um espírito livre cuja combatividade e coerência eram e continuarão a ser inspiradoras. Um homem de convicções à prova de bala. Um farol.

Quando cá cheguei em 2013, verde, cheio de perguntas e com uma notável habilidade para meter os pés pelas mãos com a mais básica regra de formatação de texto no wordpress, era o “cota” quem por norma aparecia para dar a mão ao “puto”. Resmungavas imediatamente, davas-me um sermão telegráfico, mas lá encontravas a paciência para explicar a mesma coisa pela décima vez. “Outra vez puto?” dizias-me. “Desculpa cota, mas tu que és professor tens que ter paciência com os mais novos. Não me faças ter pena dos teus alunos!” respondi-te eu uma vez.

Nunca foste meu professor. Não no sentido convencional. Poderias tê-lo sido, considerando os largos anos que nos separam, mas não tive essa sorte. Tão pouco tive a sorte de te conhecer tão bem como gostaria. Não obstante, a marca que me deixaste é profunda. Sinto-me um privilegiado por ter tido a oportunidade de privar contigo e por ter aprendido aquilo que contigo aprendi a cada texto teu que lia, a cada troca de emails, em cada conversa que íamos tendo através do Facebook. E não foi pouco. Pouco foi o tempo em que te tive na minha vida mas o exemplo e o estímulo para lutar por aquilo em que acredito ficaram cá dentro. Que falta me vais fazer.

Dizem que enquanto somos novos acreditamos que podemos mudar o mundo, e que a “utopia” vai esmorecendo à medida que os anos vão passando. Tu foste a excepção que contraria essa regra e eu acredito em homens excepcionais, homens que se agigantam e que se riem dos obstáculos que aparecem no caminho. Homens que longe de procurarem ser consensuais, são aquilo que querem ser. Homens livres, irredutíveis. Tu foste um desses homens, um homem da linha da frente. Um líder de megafone na mão. Cá estarei para cumprir o nosso acordo cota. Tu terás descanso. Eles não.