A parábola da Força

Bruno Santos
Ancião

© Bruno Santos

“Se dois fizerem as pazes entre si,
nesta mesma casa,
dirão à montanha:
afasta-te;
e ela afastar-se-á.”
O Evangelho segundo Tomé

As montanhas da Senhora das Três Graças, quando estão juntas, têm mais de trezentos quilómetros de periferia e dois mil metros de altitude. Diz-se, mas só o Grande Arquitecto o sabe com firmeza justa, que são como três grandes galos na cabeça da Terra, e que hão-de cantar por sete dias assim que o Filho do Homem regressar a casa, pela Aurora. Diz-se também, mas disto há muitos mortais que duvidam, que esses galos cresceram depois de o Altíssimo, sagrado seja o seu Nome, ter atirado dos céus três grandes pedregulhos de granito, quando ainda nos tempos da Lemúria andava à caça do Gambozino Montanhês.

A norte dessas grandes montanhas viveu em tempos um ancião de noventa anos, Assano Sabato de sua graça, a quem chamavam o Velho da Montanha. Era um homem muito pequeno, mas muito forte e determinado, que granjeara pelas serras fama de teimoso e pertinaz que fizera grandes amizades entre as plantas e os animais bravos. Como habitava uma velha casa sobranceira aos três montes, de cada vez que precisava de se deslocar a qualquer lado tinha que os contornar e dar uma imensa volta, o que deixava exaustas as suas duas pernas já muito antigas.

O tempo, imparável que se tornou já desde que inventado pelos homens, foi passando pelo velho e pelas montanhas, aparentemente mais por ele do que por elas, e o sacrifício de as contornar foi sendo cada vez mais pesado e mais penosa a deslocação a qualquer lugar. Eram quilómetros infindáveis por um carreiro estreito e pedregoso, riscado no chão do monte pelos passos do homem, que semana após semana, mês após mês, ano após ano, traçava a mesma linha de ida e volta e escavava na terra dura uma longuíssima sepultura de cansaço.

Um dia, decidido a mudar o que parecia um destino traçado pelas estrelas, lugar onde, dizem, vive ainda o Altíssimo, santo seja o seu Nome, o velho reuniu a sua família para que, em conjunto, reflectissem sobre tão grave assunto:

  • E se, todos juntos, removêssemos as montanhas? – sugeriu o ancião. – Podíamos depois abrir um caminho para sul, até à margem do Rio de Ouro, onde nos banharíamos no tempo quente e faríamos grandes merendas ao som da concertina.

Toda a família, que era muito unida e respeitava a voz do seu elemento mais antigo, concordou logo com a ideia. Bom, quase toda a família. A sua mulher, como é comum nas rezingonas que estão sempre a duvidar da força do pensamento, achava errada e inútil a decisão.

  • Mas vocês – dizia ela enquanto descascava uma enorme bacia de batatas e coçava a sua imperial verruga – nem sequer têm força de braços para deitar abaixo um penedo, quanto mais remover as três montanhas! E mesmo que o conseguissem por milagre do Altíssimo, que tem o mais belo e santo dos Nomes, onde iam pôr toda terra e todos os pedregulhos? Ergueriam três montanhas ao lado destas?
  • Atiramos tudo ao mar! – respondeu em coro o resto da famí

A mulher rezingou mais um pouco enquanto descascou as batatas e coçou a verruga. Depois calou-se, concentrando-se nas batatas, como quase sempre acabam por fazer as mulheres rezingonas.

Assim decidido, o ancião abalou com os seus filhos e netos transportando grandes varapaus. A pouco e pouco, grão a grão, escavaram a terra e os pedregulhos, levando-os de seguida para o Mar. Uma viúva vizinha da família, que tinha um filho de 7 anos e mais, a quem o mesmo problema consumia, deixou que o rapaz se juntasse à família do ancião para ajudar. Mesmo assim cada carga de terra e calhaus levou-lhes vários meses a carregar.

Havia um outro homem que vivia com um cão numa gruta junto ao riacho que corria pela Senhora das Três Graças e que era conhecido por Mariba, o velhaco. Sempre que os via trabalhar, acartando terra e pedras para o Mar distante, Mariba ria-se e esfregava a barriga, zombando do seu utópico esforço e tentando desiludi-los da empresa.

  • Já chega de ser estúpido, ó Ancião! – gritou Mariba, certo dia, ao Velho da Montanha. – Mas que tolice impingiste tu aos teus? Velho e gasto como estás, não vais conseguir mover nem uma migalha dessas montanhas. Como julgas tu que podes mover tanta terra e tantos pedregulhos se tens ambos os pés para a cova e poucos dias te sobram neste triste mundo?

O Velho da Montanha pousou por instantes a sua pesada carga, respirou fundo e disse:

  • Mas que velhaco e infeliz tu és, Mariba Velhaco! Não tens sequer a intuição do pobre filho da viúva. Sei bem que estou velho e que em breve passarei ao Eterno Leste, mas os meus filhos e os meus netos sobreviverão à minha passagem e depois deles o seus filhos e os seus netos, de geração em geração. Este que aqui vês e ouves a falar contigo não é o Velho da Montanha. É o elo de uma corrente infinita, irmã da que faz o rio que fica do outro lado dos montes, onde um dia me banharei pelo verão. Venho do fim do tempo e vou para o fim do tempo, Mariba Velhaco, e à minha carne e aos meus ossos sobreviverá a minha Força. Ela é o testemunho do Espírito que me encarna e é por ela que sou sangue dos meus filhos e dos filhos dos meus filhos. E sobreviverei neles, e nos filhos deles, até à última geração que será de Luz, pela vontade do Espírito e pela do Altíssimo, santo seja o Seu Nome impronunciável! E lembra-te que estas montanhas também são velhas e já não crescem mais. Então, por que razão não acabaremos um dia por conseguir movê-las e banhar-nos no belo Rio de Ouro, comendo romãs ao som da concertina?

Mariba calou-se e regressou mais o seu cão, envergonhado, ao interior da gruta.

Comments

  1. Maria Vieira says:

    linda a parábola.

  2. Rui Silva says:

    Muitos anos depois já com as Montanhas foram finalmente removidas.
    Depois todos tiveram que mudar de ares. A nova situação provocou uma alteração climática que tornou o lugar improprio para ser habitado…
    Mas o velho ancião já cá não estava para ver com os seus próprios olhos…

    Rui SIlva

    • Ana Moreno says:

      A mudança climática atual é provocada por quem não pensa nas gerações vindouras. Acho que é mesmo sobre isso, a lição da parábola. Não é o caso concreto, mas a visão.

      • Rui Silva says:

        Cara Ana Moreno,

        Deduzo que, você como pensa as gerações vindouras, não provoca alterações climáticas….
        Parabéns, por conseguir esse objectivo “utópico” diria eu, se não soubesse do seu caso.

        cps

        Rui Silva

        • Ana Moreno says:

          Caro Rui Silva, provoco sim, entre outros, porque não abdico de voar para Portugal logo que tenho oportunidade. Mas desloco-me de bicicleta na cidade onde vivo, para provocar um bocadinho menos. Agora, as grandes decisões para evitar que continuemos a dirigir-nos a velocidade acelerada para o abismo, essas têm que ser tomadas a outro nível, e não o são, apesar de há décadas serem conhecidas as consequências desta rota desasada em que nos encontramos. Podemos e devemos fazer a nossa parte como o beija-flor do João Paulo, mas são os leões que estabelecem o enquadramento das nossas possibilidades.

          • Rui Silva says:

            Cara Ana Moreno, essa de andar de bicicleta quando se desloca dentro da cidade, tem quanto a mim apenas um efeito tranquilizador.
            Mas não se preocupe, pois provavelmente no seu dia a dia ao executar a sua profissão com zelo e afinco contribuirá muito mais para a solução destes e doutros problemas. Uma vez que será a sua ajuda para o progresso da Humanidade, e isso sim nos trará formas formas de resolver a questão. Já pensou por exemplo qual o efeito da simples proibição de uso de combustíveis fosseis, caso isso fosse possível de implementar ?
            Acha que isso resolvia o problema? Certo resolvia esse problema e criava outros muito piores.
            A propósito de bicicletas , também sou fã.

            cump.

            Rui Silva


  3. Um dia escrevi sobre o beija-flor. Sinto-me feliz porque hoje temos um no governo: https://aventar.eu/2012/03/20/chegou-a-primavera/

  4. Ana Moreno says:

    Caro Rui Silva, aqui nesta cidade, quase toda a gente anda de bicicleta, esteja a nevar ou faça sol, seja indo de fato para o escritório e pasta no cesto da bicicleta, ou para a escola – é normal. E não é porque as pessoas não pudessem ir de carro se quisessem. Pode crer, é um contributozinho;
    Não poderá ser de hoje para amanhã, mas deveria ter começado muito mais cedo e ocorrer com muito maior celeridade, essa passagem para as energias renováveis. É inevitável. Mas é preciso haver vontade política para atacar as causas e, em vez disso, andou-se e anda-se a fingir que o problema não existe. Saudações e bons passeios de bicicleta – embora seja difícil, com a falta de infra-estruturas próprias para isso nas cidades.

    • Rui Silva says:

      Obrigado, aqui na minha zona também estou bastante bem servido de infra-estruturas para usar a bicicleta.

      cps

      Rui Silva