Estratégias de médio prazo


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Em entrevista ao jornal Público, Luís Montenegro argumenta que tanto o presidente da República como a União Europeia têm sido “colaborantes” com o actual governo. Parece-me uma evolução digna de registo, quando comparamos a actual situação à anterior em que Belém era habitado por um elemento decorativo e enfadonho e a relação com a União Europeia era de absoluta submissão.

Claro que, convenhamos, a relação do executivo Costa com a presidência e com a União não garante, ao contrário daquilo que afirma Montenegro, “todas as condições para trabalhar”, principalmente perante o actual cenário de instabilidade e imprevisibilidade no campo económico. A banca portuguesa anda pela hora da morte, a União ainda mais fragilizada com o Brexit e com a ascensão da extrema-direita, os mercados sempre à espreita para o próximo golpe e uma oposição, sem utilidade, transformada numa seita de profetas da desgraça, incapaz de acrescentar valor ao debate público.

Contudo, não deixa de ser surpreendente que, apesar dos condicionalismos, no seio de uma União Europeia controlada por burocratas e pelo PPE, um autêntico albergue espanhol onde convivem, lado a lado, conservadores, fascistas, neoliberais e outros fanáticos, o actual executivo tenha conseguido escapar às sanções exigidas pela casa-mãe do PSD e do CDS-PP (exigência que teve a bênção de Passos Coelho, apesar da tentativa infrutífera de Luis Montenegro de branquear este facto), aprovado o Orçamento de Estado para 2016 e reduzido o défice para um valor inferior a 3%, algo que o anterior executivo foi pura e simplesmente incapaz de fazer.

Porém, importa estar atento. Luis Montenegro sabe que se antevêem tempos difíceis, decorrentes, sobretudo, de um sistema bancário em frangalhos, situação para a qual o seu partido deu um importantíssimo contributo, e que a actual situação, sempre frágil, poderá ser drasticamente invertida nos próximos tempos. Criar uma narrativa em torno de uma suposta protecção, que mais não é do que a constatação de uma aparente coabitação saudável entre a presidência e o governo, algo que devia ser a regra e não a excepção, e da ausência de argumentos sólidos para que Bruxelas boicote a acção do executivo Costa, mais não é do que o reflexo de uma estratégia de médio prazo do PSD para que, caso a situação actual se inverta, possam imediatamente afirmar aos portugueses que nos avisaram, com o tom moralista a preto e branco que lhes conhecemos, reforçando o argumento com um “nem com a colaboração do presidente e da União Europeia”. Porque, no fundo, foi nisto que se transformou a oposição feita pelo PSD: um decepcionante vazio onde as ideias foram substituídas pela tarologia catastrofista. António Costa agradece.

Foto: André Kosters/Lusa

Comments

  1. fleitao says:

    Bela fotografia dos dois emplastros

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