A memória na política


Muitos políticos comportam-se como se os eleitores não tivessem memória – e por vezes esse parece ser o caso.

A Persistência da Memória - Salvador Dalí

A Persistência da Memória – Salvador Dalí


 
No tempo do online, repleto de registos de áudio e vídeo e de artigos publicados e republicados, é trivial confrontar as posições do presente com as de há pouco tempo, por vezes com meses apenas, constatando-se que umas e outras estão nos antípodas. Mesmo assim, a facilidade com que se demonstra a posse de um carácter tão sólido quanto o de um junco mole não impede a reviravolta de posição desses políticos, capazes de serem, simultaneamente, um Dr. Jekyll e um Mr. Hyde, sem, no entanto, manifestarem conflito algum.


Com estas ferramentas digitais e dado o reduzido intervalo temporal existente entre as tomadas de posição antagónicas, poderíamos esperar que o público estivesse consciente quanto ao nível de falsidade no discurso político. Tal não acontece com a maioria das pessoas que conheço. Verifico que o soundbite do momento é mais forte do que a memória. A comunicação social deveria ser o repositório capaz de preencher esta nossa limitação de acompanharmos o frenético mundo em que vivemos, analisando, comparando e deixando ao leitor a possibilidade de concluir por si mesmo sobre os diversos assuntos. Mas, como bem referiu o Hélder, a nossa imprensa é uma vergonha. Não faz o que deve, antes optando pelo papel de fazedor de opinião.

É neste contexto que assistimos aos políticos que fizeram Portugal ocupar “os primeiros lugares da tabela (é o quarto) entre países que mais aumentaram o peso dos impostos no Produto Interno Bruto (PIB) entre 2010 e 2014” agora fazerem um grande escândalo sobre a possibilidade de haver um aumento de impostos para aqueles que mais foram poupados, precisamente, por esses mesmos governantes.

Num país onde a comunicação social fosse, de facto, o quarto poder, o momento em que um desses políticos praticasse  um tal pinote, seria também quando o jornalista o confrontaria com os actos e palavras passados. Em vez disso, temos tripés de microfone e verbalizadores de guiões em teleponto.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Excelente artigo. Análise fria e simples de como vivemos num mundo cada vez mais comandado pelo vil metal, e menos pela racionalidade.

  2. Acácio Bernardo says:

    A grande diferença é que o anterior governo aumentou os impostos assumindo que era uma medida negativa, e injusta, mas que por causa do aumento brutal da despesa pública e da dívida, não havia forma de evitar essa medida. Este chama a esse aumento, uma medida positiva de confisco porque torna o país mais justo. O anterior governo sempre falou em diminuição gradual assim que possível, mas para isso era necessário cortar com a despesa pública. Como isso não foi conseguido (tribunais const. , Hobbies do estado), aqui estamos à seguir o mesmo caminho que seguimos desde 2004 a 2008.

    • Fernando says:

      Resumindo: o Passos e a PàF eram bonzinhos porque aumentavam impostos como se não houvesse amanhã mas contrariados (esquece-se do ir além da tróica). Já a geringonça é péssima porque fala em aumentar um imposto àqueles que mais podem pagar e, na sua interpretação, fá-lo com maldade e dolo. Sabe o que lhe digo? Se a subjectividade pagasse imposto, bastava taxar uns quantos pafiosos, como o Acácio, e o défice português desaparecia.

    • Fernando Antunes says:

      Não diga, Acácio, que os 4 anos de governação do PáF foram sem querer? Que tudo o que fizeram, fizeram porque não tinham alternativa e com dor na alma? Que cortaram 25% dos rendimentos à classe mais pobre, o dobro dos cortes de qualquer outro grupo socio-económico, e que isso foi uma decisão acidental e não ideológica?
      Lembra-se da frase “a vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor”? Eu também me lembro. Essa frase representa toda a ideologia e programa de governo Pafistas.
      E quando quiseram ser mais papistas que o Papa e falaram em ir “para além da troika”, foi também involuntário? E quando vestiram com tanto gosto a pele do “bom aluno” da troika? E todas as vezes que eles e os comentadores reiteraram que o país só tinha que estar grato ao programa imposto pela troika?
      Sobretudo a tal classe que perdeu um quarto do seu já muito escasso rendimento, a qual evidentemente não é a “classe média” poupada da Cristas, com mínimo de 50.000€ de depósito (3,5% dos depósitos bancários em Portugal, registe-se), nem a classe média do JGF, a tal classe que “facilmente” (segundo palavras do próprio) tem 500.000€ de património imobiliário; sem contar com os que perderam a totalidade do seu rendimento, mais as 600.000 pessoas elogiadas por Passos Coelho por saírem da “zona de conforto” (e sobretudo das estatísticas de desempregados).

      A verdade é que cortar rendimentos à classe que não sabe poupar (porque está no fundo da escala social, o que dá um novo conceito à expressão “viver acima das suas possibilidades” — ao sobreviverem com pensões e ordenados mínimos, já estão a viver acima das suas possibilidades, e a Direita tem que cortar nessas “gorduras”, leia-se pessoas que respiram e tal) não é de modo nenhum um saque ou um roubo, para a propaganda neoliberal. É até um favor. Taxar os 1% mais ricos já é um saque. A decisão sobre que sectores da sociedade se taxa mais ou menos é sempre ideológica. Mostra para quem se está a governar.

  3. Rui Silva says:

    A solução comunista/socialista: matar o mensageiro…

    Rui Silva

    • O Rui não percebeu o artigo, mas estamos cá para ajudar. Este texto é sobre os políticos que são uma coisa enquanto governo e outra quando oposição. É mesmo sobre os hipócritas.

  4. fleitao says:

    É perturbador que, 42 anos depois de ter caído o fascismo e acabado a censura, depois de tantas universidades terem aberto cursos de jornalismo, estejamos perante uma imprensa digna do Burkina Fasso. O poder do dinheiro e a falta de trabalho, fizeram de cada jornalista um triste pendura que sobrevive através de fretes. Perdeu-se a coluna vertebral e a vergonha na cara. As excepções a esta miséria são poucas. Fosse a comunicação social sã e escorreita que as coisas não tinham chegado ao que chegaram.

    • Tempos difíceis, Fernanda. Todos precisamos de ganhar a vida e os políticos, com o açaime da economia*, conseguiram dominar-nos a todos.

      *Na verdade não se trata de economia, mas sim de chantagem financeira.

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