Carta do Canadá – Um rapaz do meu tempo


Acabo de saber da morte do Mário Wilson e fico triste. Não que eu seja grande coisa em futebol. Na verdade, o pouco que sei aprendi-o na emigração. Saudade é assim. Sempre que há jogos internacionais, lá estou a ajeitar o horário para me pôr frente à TV, a sofrer e a rejubilar. Mas tenho memória e lembro bem os tempos gloriosos da bola, que arrastavam multidões aos estádios. E, naturalmente, houve nomes que fixei. Um deles foi o de Mário Wilson.

Mário Wilson

Mário Wilson (foto via Diário Digital)

Mas vivíamos em mundos diferentes e separados. Nunca me passou pela cabeça conhecer um jogador de futebol. E, no entanto, isso aconteceu. Em 1976, fui convidada a ir a São Miguel, nos Açores, assistir a um desafio amigável entre o Benfica e o Sporting que iria inaugurar um estádio local. O convite partiu de João Rocha, então presidente do Sporting e amigo de alguns jornalistas que, durante o PREC, defenderam a liberdade e a democracia contra a ditadura à sua maneira. O pretexto foi calcular que eu estaria a precisar duns dias de repouso e que apreciaria ter por companhia nos passeios sua mulher e filha.

Foi assim que me vi dentro dum avião com uma catrefa de rapazes bem dispostos, uns do Sporting, outros do Benfica, a honrar o amigável do rótulo posto ao jogo. A meu lado, na coxia, estava Mário Wilson. Era um rapagão, de ar bonacheirão e simpático. Gostei logo dele. Do outro lado estava um brasileiro pândego, o Manoel. A viagem foi divertida. Nas duas primeiras noites, ficámos no Hotel das Furnas, num cenário paradisíaco. Ao entrar no quarto, encontrei um belo ramo de flores com o livro (acabado de publicar) de Margarida Jácomme Corrêa, a irreverente amiga e companheira de Armando Cortes-Rodrigues e de Vitorino Nemésio, que eu havia conhecido em casa de amigos ao Bairro Alto. Ao lado, como é timbre do bem receber açoriano, uma cestinha com guloseimas e frutas. Apercebi-me, então, que os rapazes da bola tinham dieta. Depois passámos para um hotel em Ponta Delgada. E ali foi procurar-me um senhor gentilíssimo, que tinha lido não sei o quê meu e me trazia uma cesta com quatro lagostas. Pedi na portaria que a pusessem na câmara frigorífica. E fui-me aos passeios, desde o Convento de São Francisco ao banco onde se matou Antero de Quental, mais todas as redondezas lindas daquela bela terra. Na véspera de partirmos para Lisboa, fomos convidados para uma recepção no Palácio do Governo, onde então pontificava o General Altino de Magalhães, que eu haveria de encontrar muitas vezes em casa do tomarense General Silva Cardoso, da Força Aérea, que foi Alto Comissário em Angola durante o período da descolonização. A recepção, muito bem servida e cheia de alegria, serviu para uns pés de dança. Mário Wilson dançou comigo e era leve como bom africano que se preza. Dançava muito bem.

No entanto, eu estava reservada para outro baile. No final da recepção, o Manoel e outros convidaram-me para uma mariscada numa tasca dos arredores. Foi bem giro, com guitarradas, cantorias e bom marisco. Só uma nota triste: o jogador Laranjeira recebeu em campo, em pleno jogo, a notícia da morte da mãe. Ficámos desolados. Mas, naquela ceia, procurámos desanuviar.

Na manhã do embarque, já com a mala junto à saída do hotel, fui à portaria pedir que me trouxessem a cesta das lagostas. O funcionário, surpreendido, disse-me que já mas tinha entregado. Foi a vez de eu me surpreender: “a mim?”. E de ele ser mais claro: que não, tinha entregue ao Manoel por ele lhe dizer ser ordem minha. Tudo bem, tínhamos comido as minhas lagostas. Entrei no avião, sentei-me, sempre a assobiar para o lado, como se não fosse nada comigo e a perceber que estavam todos a olhar para mim. E eu, nada, na boa. Até que o Mário Wilson se pôs diante de mim, a fungar, perguntando se eu perdoava “àqueles malandros”. Rimos todos.

Boníssimo Mário Wilson. Já está ao pé do Eusébio, que conheci em Toronto, e do Mário Coluna. Grande safra foi aquela de Moçambique: homens inteiros que souberam honrar a camisola e a pátria portuguesa em todos os torneios internacionais.

Comments

  1. José Lima says:

    Belíssimo artigo! Gostei muito de lê-lo!

  2. Afonso Valverde says:

    Parabéns pelo testemunho de uma humanidade plena.

  3. Nightwish says:

    Devia haver um referendo para decidir se uma efemeridade das gaivotas devia ser feriado nacional ou uma oportunidade para cantar Another One Bites the Dust.

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