Políticas de esquerda, salários de direita


meme

Se o critério que norteia o enquadramento dos salários dos gestores da CGD não permite reduzir a factura – ou pelo menos não a aumentar – do custo que o seu conselho de administração tem para o erário público, existe, a meu ver, uma solução: alterar o critério. Existem, inclusive, propostas do PCP e do BE para limitar os salários dos gestores públicos ao salário do primeiro-ministro ou do presidente da República. Se existem, aqui vai uma lapalissada: é porque pode ser mudado.

Se é bom ou mau mudar, remeto para os economistas que percebem da coisa. Eu sou apenas um esquerdalho e os esquerdalhos, é sabido, não percebem nada de economia. Ou de gestão de bancos. Aquilo que eu vejo é meio plantel do BPI a chegar à Caixa no mercado de Outono, um espanhol – ai que xenófobo – que vem do Santander, aquele banco que comprou um banco português em saldo ao anterior governo, pouco depois de um canal televisivo propriedade de uma empresa da qual é um importante accionista ter lançado o pânico, com base em nada, sobre esse mesmo banco, e um alemão, que também tem um bom currículo e que tem a vantagem de ser alemão, logo um belo exemplo de gestão bancária para todos nós. Basta olhar para o Deutsche Bank para perceber que eles percebem da coisa como ninguém. Até em Portugal já há lesados.

Vejo isso, que não é necessariamente mau – e aproveito o momento para desejar os maiores sucessos à nova administração, que façam bons negócios e tragam, finalmente, prosperidade para este que de resto é apenas um dos vários bancos que nós, portugueses, possuímos – mas continuo sem perceber porque não se decide, de uma vez por todas, limitar os salários dos gestores públicos. Não nos andam a dizer, há vários anos, para vivermos dentro das nossas possibilidades? Então siga, vamos lá viver dentro das nossas possibilidades! Salário de PM ou de PR é um excelente salário! Ou vamos agora deixar que nos guiemos por um sector em que as suas referências se despenham, umas atrás das outras, sem que ninguém assuma qualquer responsabilidade para além dos otários do costume, que dedicam parte das suas vidas – e dos seus rendimentos – a resgatar bancos da sua própria incompetência ou gestão corrupta?

Custa-me, esta sensação de aparentemente estar no mesmo barco de gente que fez igual e pior, ainda que estas virgens ofendidas da oposição à direita tenham pouquíssimo moral para falar de salários de gestores públicos, ou de qualquer esquema público, diga-se, mas andar a abanar a bandeira da esquerda para depois pagar à moda da direita parece-me um péssimo princípio. A Geringonça até funciona bem, pelo menos bem melhor de que sucessivas profecias apocalípticas anunciavam, e a oportunidade para fazer outro tipo de ajustamentos, nunca dantes navegados, é, a meu ver, única. O sector privado que faça o que quiser da sua vida e que pague os salários que bem entender. Mas se vier pedir assistência financeira, que seja ajustado também. Já no sector publico, geringonçemos no sentido de vivermos dentro das nossas parcas possibilidades, pagando aquilo que podemos, ao que mais apto estiver disponível para cada função. 30 mil euros por mês é muito dinheiro. Acho que até a malta mais estusiasta do ajustamento concordará comigo e, estou certo, andará por aí alguém que fará o mesmo por um valor inferior. Até o anterior cobrava menos. E se apresentarem bons resultados, a malta até lhes pode dar um aumento. Não nos venham é com TINAs absolutas.

Meme@Raywenderlich.com

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Caro João Mendes

    Eu subscrevo o seu comentário. Contudo há algumas coisas que eu ressalvaria.
    Vou começar por lembrar os tempos de Manuela Ferreira Leite como Ministra das Finanças. Convida Paulo Macedo para diretor da DGCI. O senhor trabalhava no BCP ao que penso, e se a memória não me atraiçoa era o gestor para a área da Saúde, vulgo a “MÉDIS”.
    Se a tutela da administração fiscal e tributária o queria, e era o caso, não o iriam obrigar a servir a instituição DGCI pagando-lhe um ordenado inferior.
    Podemos questionar a escolha? Claro que podemos.
    Podemos perguntar se não havia gente qualificada para o lugar dentro da própria adminidtração pública? É óbvio que podemos.
    De facto o desempenho de Paulo Macedo foi bom. Justificou o ordenado na medida em que até ultrapassou as melhores expectativas na receita fiscal.
    Mas será Paulo Macedo muito mais competente do que outros?
    Para mim não. Ele sendo alguém com créditos firmados na gestão da coisa pública beneficiou sim de uma agenda política favorável. Criaram-lhe as condições políticas, ao darem à instituição DGCI condições técnicas e materiais com a modernização dos sistemas informáticos, eliminado burocracias, alterando legislação que fazia emperrar parte do contencioso em tribunais…
    Paulo Macedo saiu já no primeiro governo de Sócrates. Quem veio a seguir já não necessitou de ganhar mais do que aquilo que era o razoável para a função. Depois dele lá ter passado, a máquina fiscal foi sempre a acelerar na ida aos bolsos do contribuinte, no combate à evasão fiscal, no combate à corrupção. Mas se não fossem os meios técnicos, e a alteração da legislação fiscal, e dos métodos de trabalho, Estávamos como dantes.
    A CGD é um banco de capitais públicos com algumas prerrogativas que os concorrentes comerciais ainda não teem, mesmo na banca de retalho. Durante décadas foi o único banco a conceder crédito à habitação. Mas, desde algum tempo a esta parte começou a conceder crédito de risco, não estando minimamente vocacionada e preparada para o fazer.
    Estavam à espera de quê?
    Agora, escolher os gestores para a CGD na banca privada, onde aquela “tropa de elite” ganha para cima de 20 mil “aerius”, só para não se constiparem, só poderia ter este desfecho.
    Eles vão fazer melhor que os outros? Talvez, se a supervisão não andar distraída e fizer o seu trabalho. Caso contrário corremos o risco de termos mais do mesmo.
    Metam mas é alguns na cadeia a cumprir penas efectivas de vários anos, que eles aprendem logo a portarem-se bem.

  2. Ana A. says:

    Subscrevo na íntegra o post!
    Gostava que não nos ficássemos pelos “esquerdalhos” e “direitolas”. Afinal antes de simpatias ou cartões partidários somos gente. E a gente decente deve querer que o ser humano seja o valor central. Ou seja, que a economia e a finança sirva o Humano e não o contrário. Há quem lhe chame Humanismo! E é aí que eu gosto de “beber” a minha ideologia. A decência tem que imperar! Os socialistas que me perdoem, mas estas tomadas de posição só reforçam a minha teoria de que o PS não deve governar sozinho (muito menos com a Direita, como é óbvio). O PS não deve esquecer, que tem em si centradas todas as atenções dos “sem voz”, que esperam muito dele, enquanto poder. Mas quer-me parecer que nas próximas eleições ele vai ombrear em votos com o BE e a CDU. Mas isto sou eu a falar que não percebo nada de política.

  3. Parece que o 1º Ministro justificou estes salários com o facto de ter que haver uma “gestão profissional”. Deduzimos portanto que somos todos uns tristes incompetentes e que não gerimos nem trabalhamos “profissionalmente” pois ganhamos uma merda de salários! Portanto “gestão profissional” é a destes fulanos com salários milionários como os Zeinais da vida…

  4. anónima says:

    O que este caso veio tornar claro é que para o PS nem sempre é escandalosa a diferença entre os salários de topo e os salários de base (30x? 20x?). Ou seja, que (na opinião do PS) afinal se pode justificar essa diferença. O que significa que a grande desigualdade de rendimentos (em geral) afinal também pode ter justificação: há uns que trabalham muito e bem e por isso merecem ganhar muito; há outros que que merecem o pouco salário que têm. Depois não venham gritar que há grandes desigualdades de rendimentos, que 10% ganham 90%, … Afinal, segundo o PS, isso é normal.

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  1. […] Semedo, trata-se de uma aldrabice muito simples. O Bloco apresentou um projecto de lei para impedir os salários à moda da direita na CGD, que foi chumbado, pelo que não tem nem a faca, nem o queijo não mão. Já David Dinis, com a […]

  2. […] que todo o cuidado é pouco. Porém, a confirmar-se, este dado leva toda a situação em torno da polémica contratação de António Domingues para outro nível. Como pode um gestor de um banco privado encomendar um estudo através de um […]

  3. […] Considerando aquilo que temos exigido a António Domingues, é bom que Sérgio Monteiro faça um grande negócio. Afinal de contas, o ex-secretário de Estado de Passos Coelho sempre foi um tipo empenhado na venda de património do Estado. O BPN foi por 40 milhões, o Banif 150, pelo que o Novo Banco deve render, contas à analfabeto matemático, uns 600 milhõezitos. E quanto é que já torramos ali? 3,9 mil milhões e uns trocos. Ficamos todos a arder, nós e os bancos, mas como os bancos não ardem, a menos que alguém provoque um incêndio no interior de um deles, ardemos só nós. O costume. […]

  4. […] é um belo dia para quem, como eu, não está interessado em pagar salários obscenos a gestores públicos que não querem cumprir com as suas obrigações legais. É também um belo dia, talvez mais belo […]

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