Refém de Assunção Cristas?


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Ainda falta um ano para as eleições nos 308 municípios portugueses, mas a contagem de espingardas já começou. Por muito que os líderes partidários teimem em afirmar que não fazem leituras nacionais dos resultados das eleições Autárquicas, a verdade é que essa leitura é feita e não raras são as vezes em que os resultados têm reflexo directo nas lideranças dos dois maiores partidos.

Em 2001, o PSD esmagou o PS nas urnas, levando António Guterres a demitir-se do cargo de primeiro-ministro e a abandonar a liderança do PS, e Durão Barroso ganhou as Legislativas do ano seguinte. Em 2013, poucos meses após a irrevogável crise governamental causada por Paulo Portas, e com os níveis de popularidade da coligação em queda livre, o PS passava a controlar praticamente metade do mapa autárquico, incluindo três dos quatro maiores municípios portugueses, com António Costa a assegurar maioria absoluta em Lisboa – tornando-se líder do partido um ano depois – enquanto Basílio Horta e Eduardo Vítor Rodrigues afastavam o PSD da governação de Sintra e Gaia. Em 2017, diga o que disser Pedro Passos Coelho, uma derrota autárquica será o fim da linha para o líder do PSD.

Claro que, independentemente de se afundar, sondagem após sondagem, ainda é muito cedo para afirmar que o PSD obterá um mau resultado autárquico. Mas importa recordar que, actualmente, o PSD controla “apenas” 86 autarquias, a que se juntam outras 16 onde está coligado com o CDS-PP e quatro outras onde integra coligações alargadas com partidos como o PPM e o MPT. No total são 106, contra 149 do PS, a que se junta a câmara do Funchal, onde os socialistas integraram uma coligação com BE, PND, MPT, PTP e PAN. Em 2009 eram 139. Passos Coelho precisa de um grande resultado, caso contrário restam-lhe duas alternativas: sair pelo seu próprio pé ou esperar que o partido o despache pela porta dos fundos.

Mas mais do que conseguir um bom resultado, Passos Coelho precisa igualmente de vitórias nos grandes centros urbanos. E se no Porto a liderança de Rui Moreira, apoiada pelo PS e pelo CDS-PP, parece de pedra e cal, sem que se perfile ainda qualquer candidato dos social-democratas, Lisboa é, neste momento, um grande quebra-cabeças para o PSD. Com Santana Lopes fora da corrida, e sem nenhum nome de peso em cima da mesa, Passos parece estar refém de Assunção Cristas, a única candidata oficial para o embate com Fernando Medina. Em entrevista ao Público, o líder do PSD elogia a líder do CDS-PP, com quem reafirma uma relação de grande proximidade, e, em resposta à pergunta “E na Câmara de Lisboa, espera que ela tenha grande sucesso?“, Passos Coelho tem uma resposta curiosa e algo contraditória:

Eu espero que o PSD possa ganhar a Câmara de Lisboa, evidentemente. Não quero com isto dizer que deseje a derrota dela. Eu tenho admiração pela decisão que ela tomou de se candidatar à Câmara de Lisboa.

Portanto espera ganhar a eleição mas não deseja a derrota de Assunção Cristas. Mas…como é possível querer ganhar a eleição sem desejar que uma adversária directa saia derrotada? Só se essa candidata for a sua candidata. De outra forma, esta resposta é um absurdo e não faz qualquer sentido. Estará Passos Coelho refém de Assunção Cristas? Se não está, parece. E seria um interessantíssimo volte-face, ver a ressuscitada PàF, liderada pelo CDS-PP, a disputar a luta pela capital. Para quem tanto afirma que o PS está refém do Bloco e do PCP, teria a sua piada.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    É bom recordar que para os barões do PSD a hipótese de Assunção Cristas ser a candidata de uma coligação de ambos os partidos da direita por Lisboa é um atestado de incapacidade ao atual líder Pedro Passos Coelho.
    Primeiro demonstra que ele não tem ninguém com estatuto político no partido para discutir a Câmara com o atual presidente, que ainda à bem poucos anos era o número dois da autarquia.
    Segundo demonstra que uma boa parte do PSD se está a afastar em definitivo desta amostra neo liberal construída por uma boa parte do partido ligado à CIP.
    O resultado das eleições Açoreanas são um mau presságio para o PSD. Se a geringonça se aguentar até ao final do verão, vai ser o cabo dos trabalhos para a rapaziada da S. Caetano.

Trackbacks

  1. […] de obter o apoio de Passos Coelho, que sem um candidato de peso para apresentar à capital, parece agora refém da líder do CDS-PP. E, com o apoio do PSD, não será muito difícil conseguir um resultado melhor que a humilhação […]

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