A Single Postcard from Amsterdam


No bikes for tourists

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Hoje dormi mais um bocadinho. Levantei-me às 9h20, tomei o pequeno almoço no hotel no meio do bosque e depois, com o Luis e outra pessoa que não conhecíamos que também esperava um táxi, fui para a estação de Ede-Wageningen, tão familiar já, por tanta espera de comboios. Quando vivi 3 meses em Wageningen, em 2009, já o disse de outras vezes, apanhava aqui frequentemente o comboio para outras paragens, aos fins de semana, que Wageningen é uma terra pacata e de vez em quando sempre é necessária alguma agitação.
Hoje, na estação, despedi-me do Luís que tomava um comboio diferente para o aeroporto de Schiphol e ali fiquei a ver os comboios que chegavam e partiam, antes do meu. Um rapaz ajudou-me a por a mala grande dentro do comboio e um senhor ajudou-me a tirá-la de lá, certificando-se que eu conseguia levar as duas malas sozinha em Amsterdam Centraal. Consegui, claro, têm rodas e se o caminho for a direito não há problema. Saí da estação e Amsterdão acertou-me em cheio na memória. Não vinha a Amsterdão há 6 anos mas bom, é como se tivesse saído daqui ontem.

Sabia que elétrico teria de tomar, se não fosse o trambolho da mala grande. Assim, abandonei a ideia do elétrico e meti-me num táxi até ao hotel, no Amstel, a dois passos literalmente da Magere Brug. O hotel não tem elevador e tem um monte de escadas. Ajudam-me com a mala e perguntam-me se eu sabia que o hotel não tinha elevador. Digo que não fazia a mínima ideia e que amanhã voltarei a precisar de ajuda. Digo isto enquanto subo a escada com a mala pequena. Chegamos todos ao quarto. Só eu entro, obviamente. A vista da janela é muito bonita, diretamente para o canal. Compensa o tamanho reduzido do quarto e da cama e uma certa antipatia (apesar da ajuda com a mala) das pessoas da recepção. Tudo, menos a vista, contrasta com o maravilhoso hotel no meio do bosque de onde vim e sinto-me ligeiramente irritada. Não muito, porque do outro lado da janela o sol brinca com as folhas das árvores e com as pequenas ondulações da água.
Deixo as malas no quarto e saio para o dia maravilhoso lá fora. Ando até à Magere Brug. Atravesso-a. Percorro o Amstel do lado de lá da ponte até à Blauwburg, que atravesso e volto para trás, do outro lado. Páro num cafezinho simpático e como qualquer coisa. A mesma sensação de antipatia dos empregados. Não é uma coisa explícita… é uma sensação apenas. Saio do café e viro para a Nieuw Prinsengracht que percorro até ao fim a admirar as casas-barco, as cores das árvores e os edifícios. Amsterdão é tão bonito e está tão sossegado, nesta zona.
Começa a chover subitamente. Uma chuva miudinha e chata que não impede ninguém, nem sequer eu, de continuar a caminhar. As bicicletas passam a uma velocidade estonteante. A cidade é delas. E isto é também ligeiramente irritante, quando se é, como eu, peão. As bicicletas invadem tudo, amontoam-se nos passeios, nas pontes, deixando pouco espaço a quem anda a pé. Não sei bem o que pensar disto, Não é sequer a primeira vez que o penso. Lembro-me de ter pensado o mesmo de todas as vezes que aqui estive. Nesta espécie de endeusamento da bicicleta que tem preferência sobre tudo, até os peões. Acho ligeiramente desagradável, muito embora, pelas bicicletas, a cidade seja também silenciosa. No fim da rua viro à esquerda para a Weesperstraat e continuo a andar. A chuva para ao mesmo tempo que chego em frente ao Museu da História dos Judeus, que visitei noutra altura. Logo ali a dois passos, atravessando a estrada, fica também a sinagoga portuguesa que está a fechar quando lá chego. É sexta-feira.
Chego à Waterlooplein e continuo a andar. Atravesso a praça, viro na Jodenbreestraat, passo pela casa de Rembrandt, que visitei igualmente antes, e continuo pela Sint Antoniesbreestraat e chego ao Nieuwmarkt. Uma praça bem bonita, rodeada de edifícios simpáticos. reparo que alguns estão completamente tortos e inclinados e esta imperfeição parece-me bem. Amsterdão é, de facto, uma cidade bem bonita. Continuo a andar, não me doem os pés, pela Geldersekade e chego à Prins Hendrikkade, com a estação central de Amsterdão, linda de morrer, ali praticamente em frente. Vou outra vez à estação, para a fotografar. Bebo um café no centro de apoio ao visitante, onde pago 1 euro para usar a casa de banho. Está imaculada, na verdade, e não dou o euro por mal empregado.
Já que não me doem os pés – e sem dar conta já andei 2 km e meio, mais coisa menos coisa – resolvo seguir pela Damrak. Lembrei-me de ir à praça Dam. Mal começo a percorrer a Damrak arrependo-me. As pessoas formam uma massa compacta e é difícil caminhar no meio delas. Lá vou indo até avistar uma roda gigante. Penso que estranho. Uma roda gigante mesmo no meio da cidade. Quando chego à Dam fico atónita. Está uma feira popular instalada. Começo a pensar se será permanente e resolvo perguntar isso mesmo a um condutor de riquexó – simpático, por sinal – que me sossega. A feira está instalada só até domingo.
A seguir a este desassossego todo a multidão diminuiu. E começam a doer-me os pés mais ou menos quando chego ao Spui. Afinal já devo ter andado 4 km e meio desde que saí do hotel… Resolvo apanhar o elétrico. Apanho o 9 e saio duas ou três paragens adiante, de novo na Waterlooplein. Passo em frente ao moderno edifício da ópera e ballet e quando avisto a Bluwbrug, logo ali, viro para o Amstel, que percorro de novo, deste lado, até ao hotel. Fico um bocado no hotel, já anoiteceu e todas as pontes de Amsterdão se iluminarão. Quando saio para comer, mais tarde, confirmo a antipatia da recepcionista. Deduzo que esteja farta de turistas. Eu se vivesse em Amsterdão, também estaria. Pela cidade há vários grafitti que dizem ‘no bikes for tourist’. Não percebo bem se será porque os turistas não sabem andar de bicicleta do mesmo modo que os holandeses ou se será porque há demasiados turistas. Em qualquer caso, é verdade que esta cidade – tão bonita, neste dia de outono, com o sol de vez em quando a mudar as variadas cores das árvores – mudou desde há 6 anos. Parece-se mais – sem contar com a roda gigante, sequer – com um enorme parque de diversões. Cheia de anúncios coloridos e luminosos a isto e àquilo. É impossível não ver o excesso de turistificação de tudo. Pelo menos na Damrak e na Dam.
Penso que bom que não sei andar de bicicleta. E que bom que amanhã já estarei noutro sítio, também ele turistificado até ao impossível, onde espero ter uma vida quotidiana normal, por algum tempo, sem me sentir turista, nem estranha. Apenas dali. No meu caso, creio que não será difícil. Podia ser de qualquer parte, já o disse tantas vezes. Tanto me faz de onde sou. Não interessa onde estamos. Somos (quase) sempre os mesmos e somos o único lugar a que pertencemos. Mesmo que os caminhos não sejam sempre a direito e não tenhamos rodas, como as minhas malas ou as bicicletas de Amsterdão.

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