Lettres de Paris #6


‘How would you like to die and in what form would you chosen to come back?’

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é a questão final do chamado Proust Questionnaire que hoje me entretive a ler e a fazer na Shakespeare an Company, no café, não na livraria, quando fui lá almoçar um sumo de laranja e um bagel de salmão. A resposta a esta pergunta é simples, gostava de morrer de repente, sem sentir, nem sofrer senão o minuto antes da hora da morte e gostava de regressar como Parisiense. Humana e parisiense. E, mesmo sendo pormenores, com melhores pernas e bastante mais dinheiro.
 
Bem sei que ainda há menos de dois meses declarei que queria ser nova iorquina, mais exatamente west villager, e ter uma pequena livraria. Mas acontece que me adapto facilmente aos lugares (bastante mais que às pessoas e que às situações inesperadas), sobretudo quando os lugares são assim. Cinematográficos, e também por isso familiares. Portanto, como já disse tantas vezes e em tantos contextos, eu poderia ser bem de qualquer parte, ou de quase toda a parte. Basta um pouco de reconhecimento, familiariedade e cinema. Voilá.
 

Hoje acordei cedo e trabalhei a partir de casa numa reunião por Skype com colegas ingleses. Devo dizer que reuni em pijama com uma camisola por cima para não se notar muito que estava em pijama. Ninguém notou, posso assegurar. Devo dizer que considero que deveríamos todos andar pela vida de pijama, suave e confortávelmente. Sinto-me um pouco em pijama em Paris, na verdade.
 
Depois da reunião em pijama com os ingleses, tomei banho e vesti-me com as roupas normais e saí para o sol de Paris. Estava um frio levezinho e um céu azul memorável. Resolvi tomar um caminho diferente para ir ao Ladyss, almoçando antes em qualquer parte. Assim na Place Saint-André des Arts meti pela rua Saint-Séverin e depois virei na Rue de la Harpe até encontrar a Rue de la Huchette, passando na Rue du Chat qui Pêche, que adoro, porque é a rua mais estreita de Paris e porque há décadas, era bastante jovem, li um romance com este nome, da autoria de Jólan Földes, húngara, que viveu nesta pequena ruela nos anos 30. No fim da Rue de La Huchette entrei na Rue de la Bûcherie e, claro, passei em frente da belíssima Shakespeare and Company onde hordas de japoneses tiravam fotografias sentados no banco, à porta. Fiz de japonesa e pedi a um deles que me tirasse um retrato. Não fiquei mal. Há dois anos, quando estive em Paris pela última vez, não havia creio eu o café com o mesmo nome da livraria e mesmo ao lado desta. É um café tão simpático como a livraria, cheio de livros também e coisas para comer com imenso bom aspeto.
 
Resolvi, assim, almoçar no Shakespeare and Company. Estava sol, como já disse, as cores das árvores estavam bonitas e a Notre-Dame estava imponente mesmo ali à minha frente. Bebi um café expresso imensamente decente. Apesar do preço, fiquei cliente. A seguir ao almoço fui pela Rue Saint-Julian Le Pauvre até encontrar a Rue Saint-Jacques e a confluência com o Boulevard Saint-Germain. Ignorei o Boulevard e continuei pela Rue Saint-Jacques, passando a Rue du Sommerard, onde virei para voltar logo a seguir para a Rue Jean de Beauvais onde encontrei a belíssima Igreja Ortodoxa Romena, com as suas belas placas de homenagem a Brancusi, escultor. Logo ali um largo cheio de folhas de todas as cores do outono, espalhadas pelo chão, com as respetivas árvores. Subi umas escadinhas e encontrei uma bonita estátua de homenagem à poetisa romena Mihai Eminescu. Deixei-a no seu lugar, de costas voltadas para o pequeno largo, ao fundo das escadas, e entrei na Rue des Écoles, que percorri até à Rue des Carmes e à Rue Vallete. Disse ‘Bonjour’ ao porteiro desanimado e fui à minha vida. Havia um pouco mais de gente hoje no Ladyss, mas assim mesmo continuou a ser um sítio muito sossegado.
 
Quando saí do Ladyss, algumas horas e algum trabalho depois, fiz o caminho de regresso costumeiro: Rue Lanneau, Rue Jean de Beauvais, Rue des Écoles. Ao fim desta, mesmo antes de encontrar o Boulevard Saint-Michel parei no Le Champo, um dos muitos cinemas do Quartier Latin e comprei um cartão para dez sessões. cada uma custar-me-à, assim, 5 euros em vez dos 9 normais. Gastei a primeira logo ali, com Mouchette*, um filme de Robert Bresson, lançado três meses depois da minha data de nascimento. Apesar disso, ou talvez por isso, a sala estava (uma vez mais, como no M2K no Domingo) cheia de gente. Gosto tanto dos parisienses. O filme é muito belo e duro, com uma belíssima fotografia a preto e branco.
 
Quando saí do cinema estava mesmo frio, mas a voz dos meus pais em Lisboa, onde aparentemente está muito calor, aqueceu-me. Contei à minha mãe que num raio de poucos metros do sítio onde vivo há uns 10 cinemas, cada um com várias salas. Respondeu-me, contente, como quem me conhece bem: ‘ah então estás nas tuas sete quintas!’. Estou sim, mãe. E hoje até encontrei Monsieur Tati, Jacques… muito luminoso, com o seu guarda-chuva debaixo do braço a fumar cachimbo dentro do cinema, com um ar de quem deveria andar de pijama pelo mundo, no tempo dele.

Comments

  1. Nascimento says:

    Tati?Tudo dele.Para mim um dos maiores do cinema.Quanto aos seus “rabiscos” só posso agradecer! Adorei a parte do “pijama”….e Tati sempre andou de “pijama”!Disfarçava era com o chapéu! Quem quiser que o entenda na sua imaginação cinematográfica.! O pessoal do tasco só pode agradecer as imagens diversas que transmite de Paris.Faz falta alguém que exponha, expondo-se. É que estou farto da merda da CGD” !!!Irra que já dura há duas semanas! Não “há cu que aguente ” tanta Assunção e Coelha hipócrita!

  2. 🙂 ainda bem que gosta. e Tati, claro. De pijama🙂

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