O aceitável


Leio, na edição de hoje do “Público”, que pertencer à Frente Nacional (FN) de Marine Le Pen passou a ser “aceitável”. Quem o observa é Sylvain Crepon, um investigador da Universidade de Tours que estuda a extrema-direita francesa e que conta que, até há pouco, para irem colar cartazes os apoiantes de Le Pen faziam-se proteger com tacos de basebol e iam acompanhados por uns quantos skinheads.  “Agora podem fazer isso em plena luz do dia, o que mostra que as pessoas já estão mais habituadas à FN. Tornou-se mais aceitável.”

“Aceitável” graças sobretudo à sagacidade de Marine Le Pen, que soube empurrar para fora de cena um embaraçoso pai incapaz de conter o seu discurso de ódio. A hábil Le Pen faz-se agora chamar apenas de Marine nos cartazes, encheu os comícios de rosas azuis, afectos e sentimentalismo, fala da “França esquecida”, da “França sem voz mas não sem coragem” e reclama para o seu partido a personificação desses “valores franceses”, chavões de conteúdo vago, ideias míticas de uma “França perdida” que é preciso recuperar, um bastião a defender perante a invasão dos outros, dos estrangeiros, dos terroristas.

Tão aceitável que, entre os seus jovens apoiantes, há quem se ache distante da extrema-direita porque entendem que a FN passou a ser outra coisa, que já não é esquerda nem direita, mas “a voz dos que não têm voz”, a grande catalisadora do descontentamento dos que não sentem não ter futuro.

Num artigo recente, Pacheco Pereira contava-nos a reacção de um grupo de mulheres que trabalham na cozinha de um restaurante popular ao espreitarem a notícia da recepção aos refugiados chegados a Portugal e das casas que lhes seriam entregues. “Vão-lhes dar uma casa melhor do que minha.”, diziam. “Eu trabalho toda a vida e a mim ninguém me dá nada”. A consciência dessa injustiça, e concordo que se trata de uma injustiça – não porque os refugiados não devam ser recebidos com toda a dignidade, mas porque esse apoio deveria ser alargado a todos os que dele precisam – é o alimento de que se podem nutrir todos os populismos. Esse “grande abandono”, como lhe chamou Pacheco Pereira, dos pobres, dos que não estão em situação de miséria absoluta, mas que sobrevivem com baixos salários e a permanente ameaça da miséria, alimenta um profundo ressentimento. O cortejo de desfaçatez e hipocrisia de certa classe política, a percepção de que a justiça tarda ou nem chega e exclui quem não pode pagá-la, que o poder é forte com os fracos e fraco com os fortes – tudo lhe serve de combustível. E se ainda não há uma extrema-direita capaz de, em Portugal, prender fogo ao rastilho de ressentimento não significa que isto não possa mudar e que ele não possa incendiar-se a curto prazo.

Um sobrevivente da Guerra Civil de Espanha contou-me que, muitos anos depois de acabada a guerra, um homem bem conhecido em certa vila, um comerciante respeitado e já idoso, confessou, numa pouco habitual noite de farra na taberna local, que durante a guerra civil tinha matado à paulada um vizinho com vagas simpatias republicanas. Os mais jovens não quiseram acreditar no que ouviam, atribuíram-no ao álcool, aos primeiros desvarios da memória. Os mais velhos, embora não conhecessem a história, não tiveram dúvidas quanto à sua veracidade. Muitos dos actos mais atrozes haviam sido cometidos por cidadãos insuspeitos e nem sequer podiam ser atribuídos a questões políticas ou ideológicas, antes a quezílias, invejas, ódios antigos, rivalidades entre vizinhos, colegas, familiares.

O velho comerciante carregava há décadas o seu segredo tenebroso, o de ter matado um homem à paulada, um acto que exige uma tremenda reserva de ódio. Não seria nunca julgado por semelhante acto e talvez convivesse diariamente com a família da sua vítima. Não havia provas que o incriminassem e o passado, esse país distante, não voltaria para assombrá-lo. Apenas a consciência podia persegui-lo, mas talvez nem isso.

Fora, durante aquele breve período, aceitável matar um homem à paulada porque o odiávamos e porque podíamos matá-lo à paulada.

O “aceitável” muda muito e muito depressa.

Sobre Carla Romualdo

aviadorirlandes(at)gmail.com
aventar.eu / pestreita.wordpress.com

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Do melhor que tenho lido. Parabéns.
    Hoje, depois de ouvir o Professor Rentes de Carvalho, na Holanda, defender o partido do senhor Geert Wilders, o PVV, eurocético e islamofóbico, fiquei a perceber como funciona certos cérebros.

  2. b.s.t. says:

    Por aqui, a extrema-esquerda é muito aceitável e o PC – com dirigentes que duvidam que a Coreia do Norte não seja uma democracia. Aqui tudo é aceitável.

  3. Konigvs says:

    Há trinta anos não se ser de Esquerda era impensável. (até o PPD e a Zita Seabra eram de Esquerda!) Hoje ousar pensar e reivindicar o que está mal parece que é uma doença que se apega. Os mais jovens já pensam assim. Uma amiga diz-me que os colegas, quase todos, e todos do município mais pobre do grande Porto (não são betinhos ricos) se insurgem contra ela, quando ela se vai manifestar – seja contra o Glifosato contra a prospeção do petróleo, ou em favor dos direitos das mulheres – que os colegas lhe perguntam o porquê dela “fazer dessas coisas”.

    E depois temos a publicidade. Nunca como agora se falou todos os dias em extrema-direita, e como se sabe “não existe má publicidade; toda a publicidade é boa” além de que “quem não aparece, esquece”. Todos sabemos onde estão as referências da extrema-direita. E onde é que está uma referência que seja, de Esquerda?

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