Um abraço, camarada

Por Francisco Louçã na sua página do FB

O meu mais querido professor de Coimbra

Paulo Marques

O João José Cardoso foi o meu mais querido professor de Coimbra.
Morreu sem avisar, e isso não é de mestre.
Foi ele que me ensinou a esquerda.
Foi ele que me espicaçou o jeito para reportar.
Foi ele que me fez céptico militante e admirador incondicional de algumas subversões – como a Diva, ou melhor, como o trailer da Diva, de Beineix, que aqui posto, in memoriam.

Conheci o João José quando o Grupo Ecológico da Associação Académica já não era o GAME mas ainda acentuava todo o anti-militarismo que lhe haveria de conhecer toda a vida. Eu frequentava engenharia e queria fazer jornalismo. Ele vinha da ressaca dos anos quentes e já fazia da aspereza e do tiro ao chefe uma arma de mestre – na altura, o alvo eram as sobras do seu MRPP que desesperavam por se manter à tona a fingir que controlavam.
Conheci-o, creio que no início de 1982. Foi na sala do ex-GAME, numa reunião improvisada de secções culturais da AAC. Ao jeito dele, tinha andado a bater às portas para levar a malta a participar num projecto noticioso para o Centro Experimental de Rádio. Só fui eu. Lá estavam o João, o Karpov e uma rapariga de que não retive o nome.
Depois, em dois pequenos anos, fizemos tantas e tão extraordinárias coisas que me fizeram redesenhar o mundo e quase me desamigaram de uma intensa e paralela paixão.
Foi por essa altura que o João me passou o meu primeiro charro.
Por causa dele conheci o Américo, o João Correia, o João Pedro, o Mário, o To-Zé, a Tona, a Rita…
Com ele vivi tempos de conhecimento infindo.
Emprestou-me o Céline e o Musil, a Pravda –revista de malasartes, o Alberto Pimenta e uns quantos cultores da contracultura, o Herberto e também o O’Neill, enquanto desdenhava da minha imberbe afeição por leituras presunçosas de Tzara, de Trakl, envergonhadas, de tardias, de um tal Saramago, e sobretudo engajadas de nomes que hoje omito por decência intelectual. Levou-me a ver o Wim Wenders, o Kusturica e essa alegoria azul e negra chamada Diva. Com ele passei ao largo dum arremedo de teatro que se experimentava no meio estudantil. Dele fugia a sete pés quando eu abria a boca para cantar nos ensaios e nos concertos do CELUC… [Read more…]

Até sempre João José

Por Américo Sarmento Mascarenhas no Tornado

João José Cardoso na Rádio Universidade de Coimbra

Aos outros do João

abraco

Tentei ficar-me por uma canção, propositadamente pequena, para não destoar do que sempre produz em mim a morte: a certeza da minha própria pequenez. Fiquei ali escondida atrás da pequena canção, a ver passar pelo Aventar os textos de quem procura entender o desmedido mistério que é testemunhar o desaparecimento de alguém de quem se gosta. Pois morrer, ao contrário do que disse Pessoa, não é só não ser visto – sendo certo que a única coisa que cada um sabe sobre morrer aprende-a com a morte dos outros. Não ser visto tem que se lhe diga – para os outros, quero dizer, claro. [Read more…]

Perda

Por Anabela Magalhães

JJC na Rádio: A Madona e o Menino

Não têm sido poucos aqueles que têm destacado a Rádio como uma das facetas do João. Daí que, neste momento, me pareça adequado relembrar um dos seus programas na RUC, de resto já publicado pelo próprio João no Aventar. O texto que se segue é dele.

No Dia Mundial da Rádio do ano das nossas desgraças de 2015, inaugura-se aqui a Rádio Aventar, para começar em modo museu. Abre com uma peça de teatro radiofónico, produzida (em directo) para a Rádio Universidade de Coimbra, programa Com Licença, por Manuel Portela (que a escreveu), João José Cardoso, João Pedro Figueiredo e Margarida Mendes Silva. Em que ano, é complicado, mas já lá vão uns tantos, ainda as televisões não tinham chegado às salas de partos.

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O caminho que temos

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No dia que alguém acima do que compreendemos decidiu que não continuarias mais connosco na forma visível, fiz esta fotografia do vale do Mondego e do seu caminho de ferro. Sendo certo que só ele (Deus e o caminho de ferro) sabe de onde vem e para onde vai (e nós nada sabemos), tem sido para mim o símbolo da maior certeza humana – a incerteza.
Quando te vi há algumas semanas, estava longe de querer pensar que o bicho mau te haveria de prostrar, a ti, homem de lutas. Não fazia sentido isso acontecer.
Nós, os desta casa onde – quis Deus! – nos houvéramos de cruzar faz tempo, ficámos mais pobres sem ti (temos nas pessoas dos nossos maiores tesouros). Talvez quando eu regressar a Portugal me aperceba o que realmente aconteceu, e realmente aconteceu. O João José Cardoso, o Cardoso de Coimbra, o gajo da luta, o Cardoso morreu. Vais-me desculpar, gajo, mas não vou apagar o teu número da minha agenda: temos muita conversa para pôr em dia. Por acaso, agora está a chover.

João José Cardoso

Por António Agostinho no Outra Margem

João

Estava a tomar um café e uma água das pedras com o João, no Santa, há uns anos, quando apareceu o Luís Fernandes, o homem que conta as pequenas e grandes histórias da vida em Coimbra. Sentou-se à mesa connosco e o João começou a contar-lhe que tinha andado no Google Earth a investigar uns telhados e assim tinha chegado à conclusão de que havia um edifício que tinha uma parte oculta, que não se via da rua mas que se percebia, claramente, vista do céu. O Luís duvidava e o João insistia, explicava, detalhava. Tinha estado horas a seguir o rasto de um telhado, de um espaço que não batia bem com o que ele conhecia de calcorrear as ruas. Embrenharam-se os dois numa discussão que se foi tornando mais minuciosa. Era o telhado, era a fachada, era a esquina da rua, era uma pedra cuja história estava mal contada. E o João insistia: “Vai lá ver, vai lá, verás como é assim”. Eu, de outras paragens, não percebi nada a não ser o que tinha de perceber, que os amantes da sua cidade são assim, apaixonados e meticulosos, e o João era um estudioso daquelas paredes, das ruas, das casas, da gente, do que já não se via, do que tinha de ser resgatado para que a sua história não ficasse esquecida. O João amava tanto a cidade e amava tanto o rio. E devia ter tido tempo de escrever aquele livro sobre Coimbra, aquele.

Quem o conhece destas páginas e guarda a imagem de um homem tumultuoso e de língua afiada, não saberá do homem doce e generoso, do homem que cuidava os amigos e os sabia o seu grande legado. Não saberá do homem que amava as pessoas, as coisas e os bichos, os gatos, os peixes, as pedras, os livros, os filmes, o assobio da Lauren, que ia todos os anos fotografar os jacarandás em flor, que chamava às máquinas fotográficas “a minha namorada”, que cultivava jardins aquáticos, espaços de silêncio e liberdade, porque “quando o que anda no líquido nada, flutua e toma ar, ainda mais gosto”. [Read more…]

Como é que foi possível teres ido assim?

JJCPor Marisa Matias*

Por seres assim tão teimoso, por seres assim tão mau feitio, por teres sempre alguma coisa para mandar à cara, por nunca sabermos o que seria essa coisa, por estares sempre, por nos fazeres engolir em seco, por seres tão obstinado, por teres esse sorriso inconfundível e nos arrancares os nossos só quando te apetecia, por usares mais onomatopeias que qualquer pessoa pode admitir numa conversa normal, por teres feito birra a desoras, por teres feito pontes dos estilhaços, por teres feito a prova de que tudo isso era compatível com um coração gigante, uma amizade sentida, uns braços abertos, um mundo por fazer.
Como é que foi possível teres ido assim sem um manifesto, um berro, uma afronta? Não te deixamos ir assim, João José. Não te deixamos ir sem fazer muito barulho, sem amuar, sem embirrar. Por seres assim tão tudo isso, fazes tanta falta a tudo isto. Ia-mo-nos ver agora porra! Há desencontros que se pagam caro. Os últimos dos nossos talvez um dia eu me perdoe. Agora preciso de assumir que foste assim tão discretamente. Sabes bem que isto não tem graça nenhuma. Sabes tão bem. Sabe-nos tão mal não poder estar mais contigo.

* Na sua página do FB

Que nunca descanses em paz, João José Cardoso

Por Rui Rocha no Delito de Opinião.

Morrer bem, morrer mal

“….Morrer bem ou mal não tem grande interesse. O que importa é viver bem. É uma boa imagem da vida que gostaria de deixar, e não uma boa imagem de agonizante. Ser nobremente uma coerência existencial, e não uma existência apostada em segregar uma frase para lançar com o último suspiro.”

Miguel Torga, Diário XII, 26 de Janeiro de 1975

E é isto JJC! Abraço forte!

A um deus desconhecido

Por José Manuel Diogo.

Vida

Isto não está fácil. Nada fácil. Pensei que era um problema daqueles minutos. Depois pensei que se ia resolver, quem sabe, no dia seguinte ou no outro, que agora começa, mas o problema está na mesma. Sem solução.

Tenho que escrever, mas não sei o quê. Quer dizer, até sei, mas os dedos não pressionam as teclas que eu quero, insistem, teimosas, em amarfanhar outros pedaços de plástico que, para o caso em apreço, não eram para aqui chamadas. Falei contigo no dia dos meus anos sobre os concursos dos profs, coisas banais e até falamos do que seria a tua vida profissional para este ano lectivo. Pensei mesmo que a “constipação” estava arrumada. Não estava. Foi uma surpresa quando vi o post no face da Graça.

Foi no Aventar que dei nota pública da partida de dois dos homens mais brilhantes que alguma vez conheci: Adriano Teixeira de Sousa e José Paulo Serralheiro. Ao ler, hoje, o que escrevi sobre eles, não tenho dúvidas – estás junto deles, junto dos homens singulares, aqueles que estão sempre presentes, ainda que alguns insistam em dar nota da tua partida.

E, ontem, mais uma vez, uma lição daquelas. Rumei à Figueira no Aventarmobile que o Fernando fretou. Fomos, como sempre fazemos, em amena cavaqueira (cruzes canhoto) politica, com histórias deliciosas, com bocas, com ironias e até com umas anedotas. Tivemos até tempo de falar da morte e dos rituais e como tu serias menino para aparecer ali e rir do logótipo à entrada daquela coisa. Mas, tu, até na hora do até já, consegues marcar. Não houve rituais, não houve palavras, nem sei sequer se houve gestos. Mas, para azar teu, rezei. Não sei porquê, nem para quê, mas senti essa necessidade que nem sequer é muito minha.

Pedi que ficasses junto dos maiores e que continuasses com o teu mau feitio a chatear esta malta. A dizer que falta a barra a dividir o texto ou que era preciso malhar naqueles filhos da…!

Eu sei que este poderá ser o parágrafo dos lugares comuns, mas vou correr o risco de te chatear mais uma vez: ainda que queiras, não consegues morrer. Porque vais continuar aqui, sempre presente, em cada linha que se escrever, em cada boca que conseguir mandar aos gajos da direita. Em cada linha a malhar no teu clube que (calma!) eu não vou escrever para respeitar o Aventar, esta casa comum, tão grande, mas onde não cabe  o futebol. E, enquanto eu me conseguir lembrar de ti, enquanto o Aventar se lembrar de ti, tu não morres. Estás lixado (aqui era para escrever outra coisa). Vais ter que nos aturar, ainda que não queiras.

Estou cá desde o primeiro dia – soube ontem que somos apenas três. E isso, ainda que não queira, deixa-me alguma responsabilidade acrescida. Este é mesmo o meu maior problema: como é que a gente se vai aguentar sem este chato que insistia em unir tudo e todos no Aventar?

Podias não concordar e até achar que um dos nossos meteu água, mas se é AVENTADOR é para defender até à morte. Quem se meter com um dos nossos leva, ainda que o nosso não tivesse razão nenhuma.

Pois, é isto. Termino sem dizer nada, mas foi só isto.

Meu caro, até já.

Morte

Por Paulo Guinote.

Um líder de megafone na mão

JJC VF

Pela primeira vez em muito tempo estou com uma dificuldade tremenda para escrever. Não que o faça com particular brilhantismo como tu o fazias, mas tal como tu tenho ganas de o fazer e não perdia – nem perco – uma oportunidade de deitar cá para fora aquilo que tenho para dizer desde o dia em que me abriram a porta desta casa. Mas hoje não está a ser nada fácil. A dor de te ver partir tirou-me o pio. E logo eu que sou um fala barato com o coração na boca. Vem-me à memória uma vez em que achei que estava a escrever “postos” a mais. Perguntei-te: “Achas que estou a exagerar cota?”. Respondeste-me: “Deixa-te de merdas e vai escrever puto. Um dia ainda fazemos o blogue do Joões.”. Como eu te admirava e que tónico foram essas palavras! [Read more…]

Um destes dias

“Um destes dias”, foi a data marcada para voltarmos a tomar café.

Assim nos despedimos em Coimbra, à mesa do “Santa Cruz”.

Mas, não aconteceu.

São as acções que não tomamos, que deixam os maiores vazios.

O preço de se tomar as pessoas, as coisas, o tempo, como garantidos.

Restam os dias que ficaram, entre os dias que passaram, registados na memória onde se arquiva e se consulta as boas partilhas.

De tudo quanto poderia escrever, hoje só sou capaz disto.

O resto é memória e vazio, que prefiro guardar para mim.

Um abraço, JJC.

adeus, João. dorme, meu menino.

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o ‘nosso’ Tózé, levou duas flores, João​. a branca era dele, a amarela era minha. não havia girassóis, mas esta gerbera amarela que o António​ levou por mim, porque eras ‘nosso’ é muito melhor que todos os campos de girassóis do mundo. não digo mais nada. obrigada só. e a certeza destas redes de ternura.

(a foto é do Paulo Abrantes​. as mãos do ‘nosso Tózé’. o amor, de todos)

deixa-me ser lamechas mais um bocadinho…. tem paciência…. a luz apagou-se nas janelas e eu ‘meto-me para dentro e fecho-as e dou-te as boas noites. para sempre. dorme, meu menino.

Só o esquecimento mata

E por isso o João José continuará a viver de formas diversas entre nós. Não deixa, porém, de ser duro saber que aquela ausência que foi crescendo se tornou definitiva. Com quem vou agora embirrar e concordar? Conspirar e gargalhar? Planear e aviar uns tintos? Com todos, menos contigo, João. E assim fiquei mais pobre.

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Uma inquietude permanente

Breve biografia do João José Cardoso no Esquerda.net

À tua, JJC!

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JJC, o magnânimo

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Com a partida do JJC, há algo que vos garanto: sempre que escrever no Aventar sobre o Acordo Ortográfico de 1990, não esquecerei o “o povo não come ortografia” com que ele me brindou há dois anos e tal, num daqueles acessos de fúria que só lhe acentuavam o charme — e ao qual retorqui da forma que ele merecia: com carinho e elevação (“O teu mau feitio, JJC, é proverbial. Ainda bem: para todos nós”). No dia em que o Manzarek morreu, o magnânimo JJC decidiu que umas linhas dele tinham sido feitas comigo a 4 mãos. Quando o conheci pessoalmente, em Dezembro do ano passado, durante um dos encontros mais divertidos de que me lembro, gostei tanto dele que prometi uma passagem por Coimbra, durante este ano, para repetir a almoçarada. Lá estaremos, JJC. Lá estaremos.

“Correndo atrás da utopia”

Luís Fernandes, autor do blogue de Coimbra “Questões Nacionais”, despede-se do João José Cardoso.

Até à eternidade

Apesar das muitas diferenças, sempre chocámos, defendendo os nossos pontos de vista com agressividade, entusiasmo, jamais com falta de respeito ou consideração pelo outro. Desde que te ausentaste que sentíamos a tua falta. Vais continuar ausente, mas nunca partirás por completo, a tua memória há-de permanecer no Aventar enquanto aqui escreverem todos os que contigo partilharam este espaço…

A UM AUSENTE

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

Carlos Drummond de Andrade

Devia morrer-se de outra maneira

jjc

(foto do FB do próprio datada de 2 de Outubro de 1978)

Para o José João Cardoso, um poema do José Gomes Ferreira.

Devia morrer-se de outra maneira 

“Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.

Quando nos sentíssemos cansados,
fartos do mesmo sol, a fingir de novo todas as manhãs,
convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer:
“Fulano de tal comunica a V. Exa. que vai transformar-se
em nuvem hoje às 9horas. Traje de passeio”.

E então, solenemente, com passos de reter tempo,
fatos escuros, olhos de lua de cerimónia,
viríamos todos assistir à despedida.
Apertos de mãos quentes.
Ternura de calafrio.

“Adeus! Adeus!”

E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes…
primeiro, os olhos… em seguida, os lábios…
depois os cabelos… a carne, em vez de apodrecer,
começaria a transfigurar-se em fumo…
tão leve… tão subtil… tão pólen…
como aquela nuvem além vêem?

Nesta tarde de Outono ainda tocada por um vento de lábios azuis…”

 

Que merda, João

Esta merda não se faz, João. Um gajo chega aqui e leva com uma notícia destas. A notícia. Esta. O João é um gajo terrível. Com um feitiozinho de mula, teimoso como eu e mais alguns poucos, e acho que foi por isso que nos demos bem. Eu, pelo menos, gostava dele bem antes de conhecê-lo. Lia o Aventar regularmente, comentava furiosamente muitos posts, muitos dele, e ele respondia, normalmente bruto, deliciosamente bruto, com quem dava prazer discordar.

E as vezes que discordámos. Um dia, juntamente com o Nabais, convidou-me para escrever lá. A mim, que escrevia num bloguezinho de segunda liga com umas 50 visitas por dia. Do que ele se foi lembrar. E disse-lhe, clara e abertamente, como disse ao Nabais, que não sabia se era capaz de escrever num dos blogues mais lidos. Um projecto enorme, com uns bastidores de trabalho que vão muito além do que é publicado. O que é que ele me respondeu? Vai-te foder e escreve.

E eu escrevi. E o João farta-se de reclamar, e eu com ele, seu esquerdista ranhoso, com esse braço de aço, incapaz de torcer, com a mania da perseguição estalinista. Portista, ainda por cima. Que merda, João.

Depois saí mas continuei a reclamar com o João e ele comigo. Continuámos a falar, sempre furiosamente, menos pessoalmente. Mas eu acho que é quando escrevemos que somos mais sinceros. E ele e eu somos uns furiosos por natureza. Era a beleza do João. Fodia tudo directamente, insultava como deve ser. Umas vezes subtilmente e as pessoas não percebiam, depois, outras, directamente. “Filho de 50 putas”. É o preço que paga por ser um gajo inteligente.

O João deu-me a Carla, a Noémia, o Dario, o João e soubesse ele o quanto me deu mais.

Eu acho que nunca lhe disse, mas eu adoro o João. E hei-de lê-lo no Aventar sempre que me apetecer rir e pensar e ficar chateado e discordar furiosamente dele. Deve ser por isso que este texto está escrito meio no passado e meio no presente.

Ele há-de estar a rir-se e a insultar-me também nalgum lugar. De uma forma tão pura como fazemos aqui no norte. E não vieste a Leça, pá. Que merda, João.

uma vez escreveste-me um poema e o que é um deserto?

uma vez escreveste-me um poema. não foi só uma vez. mas dessa vez. escreveste-me um poema. éramos, dizias, entre outras coisas, um desencontro de horários. o que era, ainda é, hoje mais que nunca, absolutamente verdade. mas nesse desencontro de horários que nós fomos, encontrámos sempre o tempo para nos encontrarmos. naquilo que importa. entendeste-me como, acho, até hoje e depois de uma certa morte, mais do que qualquer outra pessoa. sabias quem eu era. sabias. e eu sabia quem tu eras. nunca andámos longe, apesar dos horários. estive muitas vezes contigo, ao longo desta década e meia, desde que nos encontrámos, num horário coincidente, às vezes acontecia, tinha acabado de me acontecer uma coisa que só voltou a acontecer-me agora, contigo. ainda guardo o papelinho onde desenhaste o desencontro, num livrinho que anda sempre comigo. entre outros papeis e desenhos e pétalas e um monte de coisas, joão, com que me fui sempre agarrando à vida. andávamos sempre a dever jantares um ao outro. que pagámos sempre. acho que era a tua vez agora. disseste-me isso, a última vez que falámos ao telefone. mas eu deixo que não me pagues esse jantar. contrariada. mas deixo. será apenas mais um desencontro de horários. a última vez que estivemos juntos, fisicamente, foi dentro de um comboio. menos de uma hora, eu saí em aveiro e tu continuaste até coimbra. menos de uma hora e tu contaste-me coisas que me contavas só a mim e que eu, hoje e antes, guardei sempre. às vezes zangavas-te comigo, porque eu dizia coisas sem pensar. há uns tempos escreveste a ralhar-me. mas eu não me importei. importei e andei a chatear-te para que me desculpasses. sei que tinhas razão. e sei que foi um segundo até dizeres que sou tua amiga. um segundo a sério até dizeres que sou a tua amiga. a quem contavas as coisas. leio por aí que tinhas mau feitio. sei que é verdade. embora comigo, mesmo quando nos zangávamos, tenhas sido sempre ternura. uma vez escreveste-me um poema. não foi só dessa vez. mas dessa vez escreveste-me um poema. éramos, dizias, um desencontro de horários. mas as horas foram sempre certas, menos esta. os copos, os risos, as conversas, os jantares que nos devíamos sempre mutuamente, os ralhetes, as escadas da tua casa, as escadas do quebra costas, a minha varanda, os abraços, as confidências, o sermos – e sabermos isso um do outro – profundamente parvos. as horas foram sempre certas. somos um desencontro de horários. e desta vez é a sério. merda. e não há poesia bastante que apague este desencontro. nem a que (me) escrevias. nem aquele poema que não escreveste para mim, mas que eu adorava. o que é um deserto?

‘O mar ainda acredita nas ondas as areias
desdenham-nas. Amo-te: não diz o homem à
mulher. Acredito, não responde a mulher ao
homem. O mar fica rodeado de maçãs e pergunta:
o que é um deserto?

(João José Cardoso, ‘o que é um deserto?’)

A palavra morte, João, é só uma palavra…

…e foste tu que me disseste há um tempo largo. e havia música. e a palavra morte, João, nunca existiu. é só ir embora por um bocado maior do que o costume.

Recebi a mensagem

Era de manhã e eu ainda não sabia. Dei de caras com aquela parede, nem era suposto eu passar ali. Raios me partam se não é tão teu deixar um recado escrito numa parede.