Indignação contagiosa

São hoje muitos os países, em todos os continentes, em que imensas massas populares  inundam ruas e praças para exercerem o direito  à indignação. O fenómeno faz lembrar a revolta dos escravos e a queda do Império Romano: contagioso, imparável na sua confrontação com uma globalização perversa, de finanças sujas que pisam a pés os mais elementares direitos humanos e pretendem impor ditaduras que nada ficarão a dever à crueldade de outras que, na primeira metade do século passado, queriam obrigar ao pensamento único, ao racismo criminoso e outras lástimas de minorias acusadas, com razão, de explorarem o povo em seu proveito. [Read more…]

Eterno aprendiz de si mesmo

José Luis Sampedro – republicano, antifranquista, humanista, economista, escritor, romancista, referência do movimento “15-M” – viveu tão extraordinariamente os seus 96 anos que dele apenas se poderia esperar que revelasse a mesma arte no momento da despedida. Nos últimos anos de vida, dizia esperar morrer docemente, “como morre um rio no mar”, mas nunca aceitou reformar-se nem deixar de sentir como seus o mundo e o futuro a que já não assistiria.

Soube-se hoje que partiu na madrugada de segunda-feira, na sua casa de Madrid. [Read more…]

Como vai ser

Esperamos ter muita gente na concentração que convocámos para o dia 2 de Outubro.

Mas vai ser mais do que uma concentração.

Vai ser uma vigília. Uma vigília a sério. [Read more…]

Acampados: de Tianmen aos actuais indignados

Ao jeito de campanha suja e desonesta da sua prelidecção, esse ex-maoísta militante, chamado José Manuel Fernandes, com a ligeireza de um cérebro desprovido de massa encefálica,  enfunado de desonestidade intelectual ou das duas coisas, escreveu um ‘post’ abjecto. Da matemática cerebral que lhe escasseia, descobriu a seguinte lei algébrico-social: “Unidos contra a democracia”.

Confesso que estranhei o facto da ensaísta, de voz sensual e afectada, não se ter também indignado, como é habitual, contra os “Indignados”, no mesmo blogue. Ficámos, pois, reduzidos ao dislate de Fernandes que faz equivaler o comportamento censurável de cerca de uma dezena de nazis à atitude de mais de um milhar de cidadãos cívica e politicamente correctos que, com legitimidade e em obediência às leis, protestavam contra as medidas governamentais e em reacção às penosas condições de vida a que estão submetidos.

De todos estes juízos sumários,  de gente cujo desplante e a falta de verticalidade os levam a fácil ascensão social e profissional,  há histórias a lembrar. Uma delas é recordar que a Praça de Tianmen e a carnificina sobre acampados de que foi cenário em 1989 ficaram, definitivamente, gravadas na ‘História Política do Mundo’, no capítulo dos horrores contra a humanidade.

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Palavras que desarmam.

Durante os últimos 30 anos temos assistido, complacentes, ao crescimento descontrolado do consumo. Desde casas, a carros, a aparelhos electrónicos. A noção de desenvolvimento interior tem vindo a ser substituída por uma estranha noção de relacionamento social baseada em demonstrações de conhecimento rápido e luxo fácil. Tudo aceitámos enquanto nos tocasse parte deste excesso desenfreado. Enquanto houve dinheiro (dos pais), emprego, gadgets, nada dissemos, nem fizemos. Em Portugal o país foi investindo dinheiro de todos em estradas e estradinhas, fontanários e chafaricas de rotunda. A corrupção (a cunha) tem estado por todo o lado e só é nociva quando não nos toca uma parte desse bolo que os medíocres têm comido, transformando o país numa papa regurgitada, entre pais, filhos, tios enteados e primos.

A única manifestação em que estive, recentemente, foi na linha do Tua. Apareceram poucos porque o Tua, além de não dar palha nem grão, é longe do Porto e de Lisboa e lá não há rede de telemóvel. Por tudo isto, aos indignados ou à geração (à) rasca que contribuiu para criar o país que temos hoje não tenho muito a dizer. Quem faz a cama, deita-se nela. Mas há palavras que desarmam qualquer um. E ainda bem que não sou eu quem as escreve. Provavelmente não me levariam a sério:

Em vez de sair à rua para o inútil folclore do protesto, ou ficar em casa a remoer a sua impotência, melhor seria que cada um deitasse contas àquilo que como cidadão aceita ou definitivamente recusa. § Essa, sim, essa é a escolha difícil, fundamental. Improvável, também, no Portugal que os portugueses ao longo das últimas décadas transformaram num teatro de irrealidade e fantochada. Escolha que se faz no íntimo, não na praça pública.

Rentes de Carvalho, em Tempo Contado: a “Manif”.

Europa, levanta-te e anda

bandeira europeia

Assim foi em 1789. As cabeças rolaram por causa da guilhotina. Foi a sangue e fogo, com crueldade e manifestos. E a França levantou-se, ajudou outros Estados a andar sem a opressão dos ricos, a ter o seu livre pensamento. O primeiro foi Mozart ao escrever e exibir em Viena, Maio, 1º, 1786, a sua revolucionária ópera Le Nozze di Fígaro. A acção desenrola-se no Castelo do

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As razões para a indignação são tantas que o difícil é saber por onde começar

O mundo anda indignado e faz bem. Ainda que não se saiba como vai ser, começa a perceber-se como não pode ser. Andaram anos a fazer-nos crer que o que é de todos não é de ninguém e foi assim que o comum passou a ser só de alguns, poucos, em todas as áreas e lugares. A começar nas nossas cidades, por exemplo, porque os privados, dizem eles, gerem melhor. Com cancelas, seguranças, aproveitamentos indevidos e aprovações tácitas. E com lacaios, claro, colocados nos lugares chave.

Gerem melhor o seu lucro graças ao nosso prejuízo, e riem-se, por enquanto.

Eu, lisboeta, indignado em Março, Outubro e sempre

indignados S.Bento

Em diálogo com Trasímaco, o autor do conceito de que “a justiça consiste no interesse do mais forte”, Sócrates, o autêntico, afirmou-lhe:

Sim, meu caro, não é porque o homem injusto exista e possa fazer mal, às ocultas ou às claras, que eu me convenço de que a injustiça é mais vantajosa do que a justiça. E não sou talvez o único, aqui, a pensar deste modo…

A meu ver, a citação tem sentido à luz das motivações dos indignados que, ontem, se manifestaram em quase 1.000 cidades de 82 países.

Percorri mais de 300 km, de ida e volta ao Alto Alentejo, para comparecer na marcha dos indignados em Lisboa. Hoje, soube em primeira-mão pelo ‘Público’, está reunida nova Assembleia Popular, frente à AR.

Estive na manifestação de Março, voltei em Outubro e estarei sempre presente para, em conjunto com muitos milhares por esse mundo fora, lutar contra a injustiça de um vil e arrastado crime servir de álibi aos governos para massacrar e destruir a vida de milhões de famílias; defendem, contraditoriamente, aqueles que o perpetraram, ao abrigo de um sistema financeiro em roda livre e sem supervisão.

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A indignação saiu à rua

 https://i2.wp.com/aeiou.expresso.pt/imv/0/572/628/milhares-em-frente-a-assembleia-da-repub-a6c4.jpg?w=640
Devo confessar que a foto e o título deste ensaio foram retirados do Jornal Expresso.
Bem sabemos que em todos os países da Europa há indignação: Irar-se, revoltar-se, dedignar-se.

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O Verão Quente de 2012 Está a Começar

O verão de 2012 em Braga começou a15 de Outubro de 2011 .

O 15 de Outubro traduzido para políticos

Sabe-se que o politiquês impede a compreensão da política, que o economês esconde a economia, que o parlamentês ignora a realidade e suas consequências, que o democratês oculta a falta de democracia.

É, portanto, conveniente traduzir para políticos, sequazes e afins o que as pessoas querem verdadeiramente que eles ouçam. E é simples:

Somos o povo do mundo. O mundo é o nosso lugar. O mundo somos nós. Quem governa, governa em nosso nome. Quem governa, governa com o nosso consentimento. Tudo o que é público é nosso e só pode ser alienado com o nosso acordo. Tudo o que é nosso por nascimento, o ar, a água, a chuva, o sol, a nossa inteligência, tal como tudo o que é nosso por justiça e por conquista, os nossos direitos fundamentais, a nossa dignidade, a nossa liberdade, são nossos e vão continuar a sê-lo. A acumulação ilimitada é roubo e não a toleramos. Os recursos são finitos e queremos uma vida sustentável para os nossos descendentes. Nós somos o povo do mundo. Se vocês não falam a nossa voz, não vos queremos. Se não ouvem a nossa voz, não nos representam. Se continuarem a proceder contra nós, vamos destruir-vos.

Americanos ocupam Wall Street (em actualização)

A acampada dos indignados de Nova York

Serão milhares? Pelas imagens, não sendo enganam muito bem.  Da parte da comunicação social o boicote é internacional (nem uma só referência no online português, até ver).

Para todos os efeitos nem que fossem só 100 manifestantes tentando acampar nas imediações de Wall Street seria notícia, mas já sabemos o que a casa gasta.

De notar que a polícia montou barreiras, “and only those could prove they lived or worked on Wall Street were allowed to enter. “

Neste artigo em actualização ao longo do dia pode ver um directo, imagens e vídeos. Faça as suas contas, e siga através do twitter, ou acompanhe por exemplo através desta página.

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Em Israel também se acampa

Que os israelitas não são todos iguais, ou seja, sionistas, já sabíamos. Que eram capazes de vir para as ruas e acampar em defesa dos seus direitos sociais, é novidade. Aliás uma novidade que escapa à comunicação social portuguesa. Sabia que em Telaviv ainda ontem eram 100 000 nas ruas? E que escolheram a Avenida Rothschild para o fazerem?

Há coisas fantásticas não há?

A direita tem medo da rua, nem percebe que por vezes lhe dá jeito

Como era óbvio, a primeira vítima dos Indignados das Praças do Sol foi o PSOE.

A nossa direita radical andou por aí a queixar-se que era tudo uma manobra orquestrada contra o PP. Choram muito antes de tempo, tipo Sócrates, tremem de medo quando as ruas são ocupadas, e ainda bem. Por cá chegarão a este ponto: uma TV assumidamente liberal aldraba completamente um directo, com um betinho a fingir que está lá:

E quando lá chegarmos, a esse ponto, tudo estará bem no resto da península.

Nota de rodapé: 25% dos eleitores do País Basco iam ficando sem partido onde votar. Os resultados demonstram que a democracia no estado espanhol não é nada real.

Maio de 2011

Indignados!

Pontos acordados do manifesto plural redigido durante a madrugada de 18 de Maio, na Puerta del Sol.

Os manifestantes, reunidos na Puerta del Sol, conscientes de que esta é uma acção em movimento e de resistência, acordaram declarar o seguinte:

  1. Depois de muitos anos de apatia, um grupo de cidadãos, de diferentes idades e extractos sociais (estudantes, professores, bibliotecários, desempregados, trabalhadores…), irritados com a falta de representação e com as traições levadas a cabo em nome da democracia, reuniram-se na Puerta del Sol em torno da ideia de Democracia Real.
  2. A Democracia Real opõe-se ao paulatino descrédito de instituições que dizem representar os cidadãos e foram convertidas em meros agentes de administração e gestão, ao serviço das forças do poder financeiro internacional.
  3. A democracia promovida a partir dos aparelhos burocráticos corruptos é, simplesmente, um conjunto de práticas eleitorais inócuas, em que os cidadãos têm uma participação nula. [Read more…]

Cravos nas ruas de Madrid

Primeira manifestação de bom gosto: a geração à rasca no resto da península chama-se Indignados. E a poesia já está na rua:

Además, muchos llevan ramos de claveles recordando a la revolución portuguesa. Argumentan que si la policía carga se defenderán con flores.

Ana Marcos

Puerta del Sol, texto lido a 18 de Maio

Pedem-nos propostas, os que nunca tiveram propostas.
Pedem-nos programas políticos os que guinam sistematicamente os seus programas políticos.
Pede-nos transparência quem nunca nos contou nada. Quem nunca nos perguntou nada.
Pedem-nos propostas, os que têm milhões e milhões aos que têm barracas e insegurança, papelão e desemprego, dívidas e mais dívidas.
Pedem-nos propostas porque o poder já não são eles, o poder somos nós todos.
Pedem-nos propostas porque têm pressa, têm pressa porque têm medo.
Mas nós não temos pressa, porque o tempo agora já não é o alheio. O tempo é nosso.
Temos paciência porque sabemos que isto vai crescer.
Temos paciência porque não temos medo.

Roubado no 5Dias

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