Um provinciano

Quando o meu filho foi estudar para Milão e depois para Haia, basicamente disse-lhe que ele iria encontrar gente da mesma idade com comportamentos, hábitos e valores diferentes, o que não queria dizer que estavam errados. Cada um de nós resulta das circunstâncias que umas vezes encontramos, outras vezes são as circunstâncias que nos encontram a nós, do ambiente familiar, da educação…

Logo, seria natural que, uma vez ambientado, conhecesse amigos e amigas que o convidariam para sair, jantar e tudo o que um jovem deve fazer. E ele, ou se encolhia na sua concha com medo da vida ou sairia a gozá-la, o que em nada contrariava os valores e a educação que tinha recebido. Deixei tudo muito claro. Perante um hábito sexual, ou de consumo de drogas ou de álcool, a questão resumia-se a explicar que respeitava muito as opções de cada um, mas que aquelas não eram as dele. Sem juízos de valor.

Isso não impediu que eu na minha primeira visita a Milão, depois de ele lá estar, não estivesse próximo de um ataque cardíaco quando percebi que uma amiga dormia no quarto dele em cima de um colchão. Faziam intercâmbio, os de Milão iam passar fins de semana a Roma e Veneza e vice-versa.

Quando eu vim para Lisboa (reparem para Lisboa) o meu pobre pai não foi capaz de me dizer nada, a não ser que sendo eu jovem, havia o perigo de uns gajos mais velhos… enquanto um soluço abafava o que ele não era capa de encarar de frente. Que esses perigos existem e é preciso enfrentá-los.

E lá vim eu de “mala de cartão” na mão e aterrei em Santa Apolónia, onde sou de imediato assediado por um gajo que me diz “é pá, tu não és o Couto?” e eu que sim, e quando dou comigo estava dentro de um mini vermelho, conduzido por um gajo que nunca tinha visto na vida, a atravessar Lisboa, até a um bairro ( que mais tarde soube ser Alcântara) onde me esperavam os amigos de Castelo Branco.

Claro, andei a ser gozado meses seguidos…

Comments

  1. Nuno Castelo-Branco says:

    ehehehehe, calcula-se!

  2. maria monteiro says:

    na Páscoa o meu filho vai de viagem de finalistas para Barcelona… bom, eu já comecei a fazer a lista dos aconselhamentos

  3. Carlos Loures says:

    Tenho a experiência inversa – lisboeta, tive de, por duas vezes. instalar-me em cidades pequenas e de enfrentar os preconceitos dos indígenas contra os alfacinhas. Nada que não tenha resolvido, quer num caso quer noutro, em menos de uma semana. Vê lá tu que, em Trás-os-Montes um grupo de malandrecos de quem fui amigo (e sou, dos que ainda vivem),tentou embebedar-me. E não é que conseguiram? Só que ficaram como eu e alguns bastante pior. O gelo quebrou-se e as piadas contra os «metecos» (era gente erudita) foram desaparecendo.


  4. bem, quando eu vim de Ponte de lima para Coimbra, o meu pai só me disse: “atenção que tudo o que fizeres enquanto lá estás sozinha vai reflectir-se de alguma maneira no teu futuro. seja o que for”. E não é que ele tinha razão??? seria exactamente o conselho que daria a um filho a sair de casa neste momento.
    bem hajam

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