Soeiro Pereira Gomes nasceu há 100 anos (II)


(parte anterior aqui)
Joaquim Soeiro Pereira Gomes é uma das figuras maiores de Vila Franca de Xira. Mesmo não tendo nascido no concelho, a população, sobretudo a de Alhandra, vê-o como um dos seus.
Soeiro Pereira Gomes nasceu em Gestaçô, Baião, em 1909, no seio de uma família de pequenos agricultores. Fez os primeiros estudos na terra-natal e seguiu para Coimbra, onde tirou o curso de Regente Agrícola.
Em 1930 e 1931, trabalhou em Angola ao serviço da Companhia de Catumbela, mas regressou devido às más condições de trabalho e ao clima demasiado rigoroso. Apesar de curta, esta experiência em África deu-lhe uma consciência diferente dos valores do humanismo e da liberdade, devido à opressão colonial que ali sentiu bem de perto.
Instalou-se então em Alhandra e começou a trabalhar como chefe de escritório na fábrica «Cimento Tejo», que pertencia ao Grupo Sommer Champalimaud.
A sua intervenção política iniciou-se nos finais dos anos 30, no momento em que aderiu ao Partido Comunista. Pouco tempo depois, integrava já o Comité Central de Alhandra e participava activamente na acção cultural e política que o Partido desenvolvia em todo o Baixo Ribatejo.
Algumas das iniciativas que protagonizou foram extremamente importantes para o desenvolvimento da freguesia de Alhandra. Organizou cursos de ginástica para os operários da fábrica onde trabalhava, ajudou a criar bibliotecas populares nas sociedades recreativas e impulsionou a construção de uma piscina, a «charca», que servisse toda a população.
Era uma altura em que, em Alhandra, os assalariados da indústria e da agricultura lutavam, em conjunto, por melhores condições de vida.
Ao mesmo tempo, começa a dedicar-se à literatura e ao movimento neo-realista, que então dava os primeiros passos. Escreve para o «Sol Nascente» e para «O Diabo» e recebe em sua casa figuras como Sidónio Muralha, Alexandre Cabral e Alves Redol. Com este último e ainda com Dias Lourenço, promoveu e animou inúmeras excursões de fragata no rio Tejo, os tais «passeios culturais» a que anteriormente aludimos. Mais do que a confraternização, o objectivo era o trabalho político e a conspiração contra o regime.

Os célebres «Passeios Culturais no Tejo».  Na imagem da direita, Álvaro Cunhal.

Entre 1940 e 1942, Soeiro Pereira Gomes participou na reorganização interna do Partido Comunista e ingressou no Comité Central do Ribatejo. No seguimento da acção cívica que desde cedo empreendera, empenhou-se activamente no resgate de muitas famílias afectadas pelo grande ciclone de 1941. Tripulando uma frágil barca no Tejo, com três outros trabalhadores de Alhandra, salvou mais de vinte assalariados que se refugiavam da intempérie numa pequena ilhota em frente à cimenteira, o Mouchão de Alhandra.
Foi nesse mesmo ano que publicou «Esteiros», uma obra editada pela Sirius e ilustrada por Álvaro Cunhal. Dedicou-a aos adultos que nunca foram meninos. Crianças que foram obrigadas a trabalhar quando deviam estar a estudar, crianças tão aventureiras quanto miseráveis. Não escondendo demasiadamente os seus sentimentos, o autor indigna-se pela exploração infantil de que são vítimas essas crianças e transmite a sua ternura por elas.
Soeiro Pereira Gomes conhecia bem a realidade de que falava em «Esteiros». Personagens como as do João Gaitinhas, do Maquineta, do Malesso, do Cocas, do Sagui ou do Gineto eram, afinal, bem reais. Representavam as vítimas das injustiças sociais, da exploração dos fracos pelos fortes, do monopólio crescente da grande fábrica perante as pequenas e médias empresas.

Comments


  1. […] anterior aqui) Em 1944, Soeiro Pereira Gomes começa a escrever «Engrenagem», mas não chega a concluir o […]

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.