‘Xutos’ no poder e ‘Pontapés’ no vazio

Os ‘Xutos e Pontapés’ são, há anos, um ícone de salutar irreverência. A designada música de intervenção sempre integrou a expressão viva, e naturalmente cantada, da contestação, cujo símbolo maior e mais autêntico é, não foi, é Zeca Afonso.
Os percursos históricos e políticos em Portugal, como sucede em outros países, contêm registos de figuras e obras intemporais. O Zeca e as suas canções, assim como Eça de Queiroz e os ‘Maias’, são exemplos de fortes expressões dessa intemporalidade. Nesse cenário imaginário do tempo infinito, além de outros, gravei a escopo e martelo o nome e canções dos ‘Xutos e Pontapés’. Tratou-se possivelmente de uma atitude interesseira e egocêntrica: eu, como eles, sentimo-nos sempre jovens, independentemente do BI (não confundir com Banco Insular).
Tudo isto se coloca a propósito da letra da canção “Sem eira nem beira”, que é um verdadeiro ‘xuto’ no poder. No actual, e naqueles que têm exercido funções centrais e locais desde há 30 anos. É mesmo uma canelada a valer que magoa, e deveria despertar, qualquer atleta, mesmo do género daquele que, por moda e/ou populismo, se junta ao povo na meia, nos três quartos ou na inteira maratona.
Segundo alguns críticos, trata-se de “um grito de revolta de cidadãos desamparados”. Excluídos oportunismos quanto ao uso da letra e música, eu comungo dessa opinião. E até acrescento: “o que faz falta é agitar a malta”, plagiando, embora, o Zeca.
Por tudo isto, foi decepcionante deparar-me com o acto de contrição do Zé Pedro. Surpreendentemente demarcou-se da leitura política de “Sem eira nem beira” cujo texto, recorde-se, contém um apelo claro ao ‘Senhor engenheiro’ para nos dar um pouco de atenção e pôr fim à roubalheira.
Ao “xuto” no poder, Zé Pedro juntou um “pontapé” no vazio. Este último doeu-me imenso e não há pomada, de marca ou genérica, que me valha.

Comments


  1. Não quero parecer precipitado mas este caso não deve ficar por aqui. Não me admirava que viesse ai mais umas declarações.

  2. Gustavo Carvalho says:

    Amigos, não posso ficar alheio a tal agitação de opniões, que é algo que logo à partida me agrada bastante… Se por acaso isto for mais longe, contem comigo! Para xutos e pontapés, inclusive!Um simples comentário: qualquer expressão artitstica desprovida de verdade, é por si só gratuita, populista e de qualidade menor…seja lá produzida por quem for!PS. Nunca ninguém foi tão verdadeiro como o Zeca Afonso, por isso a sua musica nos toca tanto, por isso a sua qualidade enquanto musico e artista é indiscutível e pouco comparável.

  3. Luis Moreira says:

    O que se faz com a canção já nada tem a ver com o Zé Pedro .É um bocado como aquelas cartas que a malta na escola escreve à miúda e contra todas as expectativas ela aceita.