Vasco Lourenço – Do interior da Revolução (O primo António e a prima Aurora, ou os Açores na rota da conspiração)*

E como foi combinado o telegrama em código que vos avisaria do golpe?
Em determinada altura houve uma visita de estudo aos Açores, de um grupo de coronéis acompanhados por um capitão do Movimento, um capitão da Força Aérea, o Estevinho. Eles visitaram Ponta Delgada. Eu andei-lhes a servir, em certa medida, também, de cicerone, lá no Quartel-General e no contacto com o Estevinho pedi-lhe:
“Olha, faz-me um favor. Chegas lá, contactas o Otelo e dás-lhe este código.
E combinei, então, com o Otelo, precisamente, através desse capitão
Estevinho, que ele me enviaria um telegrama, para a direcção da sogra
do Melo Antunes…
Era o célebre “Tia Aurora segue Estados Unidos da América 25, 3 da manhã. Um abraço primo António.”
Exacto. Ele só teria que preencher o nome do país, o dia e a hora. E garantir que efectivamente havia esse voo. O que nos interessava era
a data e a hora, para sabermos quando é que se iniciava o golpe.
E, ao recebermos o telegrama, no dia 24 de Abril, soubemos que às 3 horas da manhã do dia seguinte, 25, tudo ia começar.
Preparámo-nos para intervir, em caso de necessidade. O Melo Antunes tinha-me dito que havia suspeita de que Marcelo Caetano mantivesse o plano de Salazar para, em caso de golpe militar em Portugal, retirar para Ponta Delgada e pedir o apoio dos Aliados.
Com a agravante de o fazer em território nacional. Por isso, tínhamos
que nos preparar para essa eventualidade.
Na altura, apenas disse ao Melo Antunes: “Só ponho uma condição, o comandante da força que vai receber o Marcelo ao aeroporto sou eu. Nada me dará mais prazer que telefonar ao Otelo e dizer-lhe que o Marcelo já está preso, já não constitui problema”. Infelizmente Marcelo
não fugiu para os Açores… mas ainda bem que tudo se resolveu aqui
e depressa…

O nosso plano passava por eu e o Melo Antunes prendermos o almirante
comandante militar, assumindo o comando do Quartel-General.
As duas unidades de São Miguel estariam do nosso lado, o Regimento através dos elementos do Movimento que lá se encontravam, prenderiam o comandante e o segundo comandante, hostis ao Movimento, a bateria de Artilharia, através do seu comandante, aceitaria cumprir as ordens que recebesse do Quartel-General, pelos canais normais, sem querer saber quem lhas dava.
Admitimos, então, três hipóteses: isto, aqui no Continente, não se resolvia logo, nós assumíamos o controlo de São Miguel, declarávamos
a nossa participação no golpe de Estado em marcha e, com isso, influenciávamos a decisão a favor do Movimento; isto corria mal, os militares do Movimento eram presos, nós faríamos uma acção tipo suicida, controlando São Miguel e exigindo a libertação deles. Pretendíamos com isso, acima de tudo, provocar um grande escândalo internacional, denunciando a situação de ditadura que se vivia em Portugal; o Marcelo conseguia fugir para Ponta Delgada e, aí, eu esperá-lo-ia, no aeroporto…
E não se passou também o mesmo na Guiné? O MFA, na Guiné, não tinha também decidido que se o golpe falhasse aqui no Continente,
lançaria, 24 horas depois uma ofensiva, no sentido de pressionar
o Governo para acabar a guerra?
Sim, sim. Sem coordenação prévia. É sinal que nos guiávamos mais
ou menos pela mesma cartilha. Mas, na Guiné, face às condições existentes, até admitiam fazer avançar uma força para aqui.
E em Angola e Moçambique não tomaram a mesma decisão?
Não, porque quer em Angola, quer em Moçambique, a dificuldade de intervenção era muito maior.
Voltando aos Açores…
Como estava previsto, o telegrama chegou. Cerca das 18 horas do dia
24 de Abril, o Melo Antunes regressa ao Quartel-General, manda-me chamar e entrega-me um papel. Estou a vê-lo… Mais tarde, vim a saber
que, ao chegar a casa, a Gabriela, sua mulher, lhe disse: “Oh Ernesto,
quem é o primo António? E quem é a tia Aurora? Recebi aqui um telegrama para a minha mãe, ela está nas Furnas, já lhe telefonei a lê-lo, não percebo nada!” “Então, eu não te disse que havia de chegar esse telegrama, que é para mim?!” “Oh, esqueci-me…”
Pois bem, olho para o papel e digo: “Mas é esta noite! Ainda bem que estou de oficial de dia…” De facto, estava de oficial de dia, por acaso em pagamento de uma troca com outro oficial, para me permitir ir jogar um torneio de bridge. Coincidências felizes…
De imediato, avancei com o planeado. Chamei o tenente do regimento,
que me apareceu em fato de treino, pois andava a fazer jogging, mandei-o avançar, e chamei o aspirante miliciano que me fazia a ligação com os milicianos do Quartel-General. Era o David Lopes Ramos, hoje jornalista, a quem, depois do jantar perguntei: “Oh Ramos,
você sabe rezar?” “Porquê? Porque me pergunta isso?”, diz-me com
ar surpreendido. “Porque, se soubesse, mandava-o rezar!” “Não me diga! Não me diga que é hoje!”, responde-me ele, a tremer. “Sim, sim,
é esta noite. Vamos embora preparar tudo…”
Imagino o nervosismo e a ansiedade dessas horas de espera…
Foram momentos de uma tensão muito grande… porque, entretanto, a vida corria normalmente. Fiz o recolher, fui a cada caserna ver, exactamente, onde é que estava cada homem a dormir. Nunca devo ter
feito um serviço tão rigoroso. Entretanto, dei a minha pistola de oficial
de dia ao Melo Antunes que não tinha arma, e fiquei a fazer o serviço
de pistola-metralhadora, que era uma coisa um pouco estranha, mas
eu achei que ele, Melo Antunes, não devia ir para casa sem ir armado.
Depois do recolher, fiquei no meu gabinete e comecei a pensar: “Como
é que eu faria, se estivesse lá a dirigir as operações, se estivesse no lugar do Otelo?” Bem: “A primeira das coisas a fazer era ocupar uma estação de rádio e, a partir daí, utilizar essa estação de rádio para enviar mensagens, quer para a população, quer mesmo para os militares envolvidos no golpe. Pode ser que o Otelo tenha a mesma ideia.” Para além de não saber se o Otelo teria, de facto, essa ideia, não sabia se, em caso afirmativo, qual a emissora que utilizaria. Pus-me, portanto, a correr os vários postos, à procura, sozinho, no gabinete do oficial de dia. Havia uma diferença horária, entre o Continente e São Miguel de duas horas.
Cerca das 2h35, “caio” num posto que, estando a transmitir música, se
ouvia muito bem, admito que seja um posto português, espero pelo fim
da música. Termina. Começa o locutor a falar, verifico que não é um posto português e vou correr, rapidamente, para outro que eu sabia que era português. E apanho o primeiro comunicado do MFA, quase no
fim. Aí a dois terços. Vejo logo que, efectivamente, as coisas já tinham
começado, mas fico na dúvida. Este comunicado de quem é?
O fim do comunicado não era muito explícito. Apelava às pessoas para
se manterem em casa. Apelava aos médicos para acorrerem aos hospitais, e eu fiquei sem a certeza de quem seria o comunicado. E devo confessar que no fim, aquela marcha militar (que, mais tarde, se veio a transformar na marcha do MFA) não me adiantou de muito. Passei ali dois ou três minutos que me pareceram uma eternidade, sozinho, a passear de um lado para o outro, tipo fera enjaulada. Absolutamente desvairado, sem saber o que é que se estava a passar, até que, a certa altura, pára a música e ouço: “Aqui, Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas.”
Dou por mim aos saltos, aos berros. “Já ganhámos, já ganhámos!”
A partir daí, tive a convicção absoluta de que tínhamos ganho. Se de
facto, já estávamos com uma estação de rádio nas mãos, era sinal de que isto estava a correr bem e não podia falhar. Pronto, foi uma convicção ínt
ima, absoluta e inabalável.
E como é que correu o resto da noite em Ponta Delgada?
Bem, a partir daí, chamei, imediatamente, o tal aspirante Ramos.
Ele foi às 3 ou 4 da manhã, para o quartel, ficou agarrado à rádio, a ouvir tudo o que era possível e a fazer-me relatórios da BBC, das rádios portuguesas, etc. Entretanto, eu tinha preparado o tal tenente (Melo Cabral) para ocupar a unidade. E também o comandante da Bataria de Artilharia.
Tinha-lhes dito que ia ser nessa noite. Depois, mandei chamar o Melo
Antunes que, tinha ido para casa dormir (o casarão da sogra) e não se
conseguiu acordar. Eu fartei-me de telefonar toda a noite, e nada. A certa altura, disse ao David Ramos: “Vá lá a ver se consegue acordar o Melo Antunes e se o traz.” Bem, atirou-lhe pedras contra a janela, acordou a vizinhança toda, mas o Melo Antunes só me apareceu pelas 7 ou 8 da manhã, finalmente acordado pelo telefone, que tocou toda a santa noite! Depois, foi continuar a controlar a situação.
Sem problemas de maior, presumo!
Sim, mas com pequenos incidentes. Por exemplo, quando, depois de “passar a pasta” ao oficial de dia que me rendeu, me dirijo para as minhas instalações, já com a pistola à cintura (o Melo Antunes já ma
devolvera), encontro um capitão espúrio, ex-miliciano portanto, que eu não conseguira envolver no Movimento. Era um tipo amorfo, que não constituía perigo, mas também nunca se envolveria.
Encontrámo-nos numa das ruas interiores do Quartel-General, e ele,
preocupado, pergunta-me: “O que é que se passa? O que é que se passa em Lisboa?” “O que é que se passa? Sei lá!”, respondo com ar sério.
“Tu sabes! Tu sabes e não me queres dizer. O que é que se passa?”
“O que é que queres que se passe?”, digo, já com outra voz. “Fomos nós, o Movimento, que tomámos conta da situação! Foi esta noite!”
Aí, vejo o homem respirar fundo e desabafar: “Ainda bem! Ainda
bem que eu lá não estava!…”
Bom, ia-me passando. Enquanto levava a mão à pistola, fazendo
o gesto de a sacar, dizia-lhe: “O quê?! Então eu dava, sei lá o quê, para lá estar e tu dizes-me isso?! Eu mato-te! Eu dou-te um tiro!”
Ainda hoje me rio, quando recordo o seu ar assustado, a gritar: “Não! Não!” e a fugir, sem ouvir as minhas gargalhadas.
Ainda no dia 25, quando chega um outro major, açoriano, que estava no Quartel-General, chamámo-lo para lhe dizer: “Temos tudo preparado. Se for necessário prendemos o almirante e eu e o Melo
Antunes comandamos, qual é a tua posição?” “Tudo bem! Obedecer-
-vos-ei, sem problemas!”
O pior foi quando, no dia 26, analisámos a constituição da Junta de Salvação Nacional. Ainda ouço os impropérios que lancei…
Tirando isso as notícias eram favoráveis, tudo estava controlado, a correr bem, o almirante fez uma reunião com os principais oficiais, incluindo os comandantes das unidades. E, aí, aparece o comandante
do Regimento, a convidar-me para, um dia destes, visitar a unidade.
Mandei-o a um sítio esquisito, não lhe dizendo que ainda não fora preso, porque não se tinha mostrado necessário. Nessa reunião, o almirante deu instruções para se estar atento ao evoluir da situação no Continente.
E foi já no dia 26 que, vendo que ele nada decidia, eu e o Melo Antunes lhe exigimos nova reunião, para definir a nossa posição. O almirante começa por afirmar que não pode tomar posição, pois não sabe o que se passa, não conhece o Programa do MFA. Foi aí que o surpreendi, ao exibir uns papéis: “Tem aqui o primeiro rascunho do Programa. O que foi anunciado não é muito diferente deste!” E, perante
as suas hesitações, continuo: “Oh, senhor almirante, vamos ver se compreende a situação. Tem à sua frente dois dos principais responsáveis do Movimento. Tome uma decisão!” “Bem, eu sabia que vocês eram importantes no Movimento, mas…” “Não éramos, somos! Tome uma posição e não nos obrigue a atitudes drásticas! O senhor ainda não foi preso, porque não foi necessário. Mas, por favor, decida-se!”
E, aí, o almirante afirma: “Eu obedeço a toda e qualquer ordem da Junta de Salvação Nacional.”
Olhei para o Melo Antunes, acenámos afirmativamente: “Muito bem! Serve perfeitamente!”
A partir daí, acatou a nova ordem sem qualquer resistência?
Sim. Depois daquela hesitação, aceitou. Ainda que me tivesse pedido que o pusesse em contacto com o Posto de Comando do MFA.
O que deu origem a nova situação cómica. Ligo para a central dos telefones – recorde-se que nem havia telemóveis, nem as chamadas
eram directas, tínhamos de pedir à operadora que fizesse a ligação – e peço para me ligarem ao Posto de Comando do MFA. Passado algum tempo, respondem-me da Cova da Moura, falo com o major Foitinho, e peço-lhe para chamar o Otelo, o Victor Alves ou alguém responsável. Diz-me que não está lá nenhum deles, pelo que lhe digo: “Muito bem, vou chamar o almirante comandante-chefe dos Açores e tu vais dizer-lhe que, a partir deste momento, ele passa a obedecer às ordens do capitão Vasco Lourenço e do major Melo Antunes.” “Quem, eu? Então, estás tu aí, dá-lhe tu as ordens! Eu é que lhe vou dar instruções, contigo aí?
Porque tu…” (Era-lhe difícil perceber porque, sendo eu da Direcção
do Movimento, era ele, um oficial das bases, como se diria hoje, a dar
uma ordem daquelas.) “Está bem, não faças perguntas, que eu mais
tarde explico-te. Agora, fazes o que te disse e pronto!” “OK, está bem!
Chama o almirante.”
Chamei o almirante e passei-lhe o telefone: “Senhor almirante, tem o Posto de Comando do Movimento em linha, faz favor.”
Ainda hoje recordo bem, a cena seguinte. Não ouvia o que diziam do outro lado, apenas via o almirante, agarrado ao telefone, a acenar
com a cabeça e a dizer: “Sim senhor, sim senhor! Muito obrigado! Muito
obrigado!”
Terminou o telefonema, agradeceu-me e, a partir daí, não fez nada sem obter o nosso acordo.
Confesso não me ter arrependido deste procedimento. Poderíamos ter actuado como o MFA fez na Guiné, termo-nos precipitado e prendido o almirante. Eu sei que as situações eram diferentes, eles estavam em guerra, tinham lá muitos oficiais do MFA e era impossível evitar a explosão que toda a tensão vivida provocou. Considero, no entanto,
que nós tivemos mais bom senso e evitámos transformar-nos em “heróis à força”. Eles prenderam o governador, o Bettencourt Rodrigues, talvez pudessem tê-lo evitado, mas não sou eu que me sinto em condições de atirar qualquer pedra.
Sim, sim. De qualquer modo, não me parecem comparáveis as situações. A Guiné era um teatro de guerra, e como tal, muitíssimo mais
delicado e perigoso, não é?
Sim, sim, era. A situação era bastante diferente, mas talvez mais fácil de controlar. Tenha-se presente que lá havia montes de oficiais do Movimento e tinham tropas muito mais operacionais. Mas, como costumo dizer, só vivendo a situação se pode ter opinião clara…
Por nós, quando me despedi do almirante, tive oportunidade de lhe responder, à sua afirmação de que eu tinha de me dominar mais (estava a lembrar-se da reunião em que eu o forçara a definir-se), que, um dia mais tarde, nos agradeceria o nosso bom senso e a nossa calma.
E o facto é que, três anos depois, num encontro que tivemos, recordei-lhe esta conversa e ele concordou e agradeceu-me. Bem, a partir dali, começámos a actuar. Desde logo, fomos tomar as instalações da PIDE/DGS e da Legião.
Com o tal coronel campeão de bridge…
À PIDE, telefonou-se e deu-se ordem aos agentes para se entregarem.
Foi perto do meio-dia de 26. O Melo Antunes disse-me: “Deixa-me esta para mim. Tenho sonhado imenso com ela!” “Sim, mas eu fico aqui no Quartel-General, com uma força pronta a avançar, ao menor sinal!”
E assim foi. O Melo Antunes foi com uma pequena forç
a e, passado
menos de uma hora, telefona-me: “Podes vir, está tudo calmo.”
A sede da PIDE ficava perto, no largo das Portas da Cidade, cheguei
e encontrei uma pequena multidão, que ia enchendo o largo. Ainda ajudei os populares que reclamavam e insistiam em arrancar do passeio o sinal de estacionamento privativo da DGS. Depois, subi ao primeiro andar, onde o Melo Antunes me mostrou as armas e os documentos que os agentes da PIDE lhe tinham entregue, podendo ver os olhares de pânico que estes lançavam para todos os lados. Fomos à varanda, com o largo já completamente cheio (calculo que mais de cinco mil pessoas) e é quando o Ernesto Melo Antunes me diz, com as lágrimas nos olhos:
“Nunca pensei! Isto é extraordinário, ver as Portas da Cidade cheias, com imensos jovens, a manifestarem-se, a gritar vivas à Liberdade! Isto, em Ponta Delgada, nos Açores, era impensável! Estamos a realizar-nos!”
À tarde, depois de um telefonema ao meu parceiro de bridge, fui eu
que me desloquei às instalações da Legião Portuguesa, para as receber.
À minha espera estava o coronel acompanhado pelo guarda das
instalações. De imediato, me põe o problema do guarda e da família.
Eles viviam nas instalações, como ia ser? Pensei um pouco e decido:
“Por agora, ficam aqui, depois, o comandante-chefe decidirá. Mas, para já, ficam aqui!”
Começámos a visita e, por duas ou três vezes, aparecem-me a espreitar nos corredores, a mulher e os filhos menores do guarda. O que o coronel aproveitava para me questionar: “Mas, o guarda, a família, coitados, não têm para onde ir…” À terceira ou quarta vez, passei-me. “Cale-se, com a questão do guarda e da família. Já lhe disse que, para já, ficam aqui. Depois, se verá. Porventura, nunca se preocupou com eles, mas agora quer armar-se em quê? Em bom samaritano? Nós fizemos o que fizemos, não foi para pôr uns desgraçados na rua! Se fosse ao contrário, se nós perdêssemos,
seria diferente, vocês teriam outro procedimento para connosco!”
“Mas, por que diz isso?”, pergunta-me o coronel aterrorizado. “Porquê?
Basta ver o que se passou no Chile!”
E, aí, vejo o coronel começar a tremer, a gaguejar e a balbuciar-me
“Não me diga! Não me diga, que me vai fuzilar!” “O quê? Você está
louco? Quem é que lhe falou em fuzilamentos? Está a ver, está a ver
como tem a consciência pesada?”
O pobre coronel lá recuperou e até ganhou ânimo para me dizer: “Eu
tenho aqui dois quadros que são meus. Posso levá-los?” “Oh homem”,
respondi-lhe, “tire tudo aquilo que é seu, ponha de lado e leve. Vai entregar-me as chaves e, depois, o problema será com o Comando Militar!”
“Obrigado, obrigado. Eu logo vi que isto ia acontecer, quando você me
disse que não ficava cá muito tempo.” balbuciava o coronel. Vim a encontrá-lo, passados vários anos, num torneio de bridge em Lisboa. Apresentou-me o filho, esse sim, um bom jogador de bridge.
Falou-me de um comunicado que fizeram.
Sim, como em toda a parte, também em Ponta Delgada apareceram,
de imediato, os oportunistas, os vira-casacas.
Neste caso, o responsável pelo Governo, não me lembro qual o cargo
específico, mas era o correspondente a governador civil, que fez um
comunicado a dizer que estava com o MFA, estava com a Junta de
Salvação Nacional.
Ora, uns dias antes, o homem havia recebido o ministro Veiga Simão
com toda a pompa e circunstância, manifestando-lhe publicamente toda a deferência, como membro do governo português. O que na altura deu nas vistas, considerado um exagero.
Perante isto, eu e o Melo Antunes decidimos fazer um comunicado, em
nome do MFA – terá sido o primeiro comunicado, depois dos operacionais na acção militar – onde desmascarávamos o oportunismo do fulano e nos manifestávamos contra os vira-casacas, apelando à vigilância dos democratas.
Mal contávamos, na altura, com a onda que se verificou, por todo o lado…

* PRÉ-PUBLICAÇÃO

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