Vinte e Cinco de Abril

Estava eu a insultar-me em surdina porque não ligo nada à História do meu País. Pois não. Não foi intencional. Foi uma questão aleatória e uma questão de marketing de outros assuntos. Peço desculpa à História Portuguesa e prometo ser breve em querer saber mais sobre este País.
Mas para conhecer um pouco mais a História, nada como fazer um desvio aos registos escritos, e ir às “outras” fontes, as pessoas. Perguntar-lhes coisas. Nos livros vem a História, mas as emoções ficam nas pessoas. Saber o que sentiram. Saber como se sentiam. Saber como se sentem agora.
Toda a gente a quem perguntei sobre o 25 de Abril considera que estamos melhor. Não muito melhor, mas melhor. O que já é bom. O contributo passado das pessoas envolvidas deveria ser uma inspiração para as pessoas do futuro. Mas as pessoas que sentiram na pele o que é a falta de liberdade começam a desaparecer. As figuras históricas começam também a nos abandonar. Quanto mais tempo for passando, quer queiramos quer não, o 25 de Abril passará a ser um capítulo de um livro de História. Como a implantação da República. Como o Condado Portucalense. Como Viriato. Como todas as grandes figuras.
No entanto, estas pessoas de grande coragem garantiram um lugar na História. Isso é inegavelmente a prova de participação num evento da maior importância. Quantos de nós queremos figurar também nos livros? Quem tem coragem e força para figurar na História?
À distância de 35 anos, eu apenas posso sentir muito ao de leve, a onda de choque da acção revolucionária. Mesmo a esta curta distância, já se começa a perder informação. O que era completamente proibitivo, começa a ser nome de praça. Fulano que era bom, já começa a parecer dos maus. Afinal parece que foi tudo combinado antes, para não haver um banho de sangue. Afinal parece que foi uma reivindicação não satisfeita, que fez elevar capitães e soldados rasos. Não sei. As figuras já começam a ficar desvanecidas, os cenários e a informação seguem o mesmo caminho. Não falo por mim, mas falo pelo que me rodeia. Falo pelas opiniões de quem por lá passou.
Eu, particularmente, considero o 25 de Abril uma elevação de pequenos contra grandes. Uma elevação dos oprimidos contra os seus opressores. O sinal de que é possível derrubar o opressor, independentemente do seu tamanho ou raio de acção.
Convém relembrar o factor mais importante da Revolução. Pelo menos para mim. Obviamente como em todos os “regimes”, o poder não reside na cabeça, como é costume ouvir-se dizer. O poder de um regime reside no número e na força dos seus apoiantes. O problema não é Salazar. Estou farto de ouvir falar em Salazar. Salazar, esse sujeito rude e implacável, que caiu de velho e morreu rodeado de uma orda de apoiantes cegos, que lhe fizeram crer que ainda era o Presidente do Conselho? Salazar não é o diabo. O “diabo” é aquela massa de gente idiota que vai sem pensar nem questionar, para onde lhe apontam o dedo. Esse é o verdadeiro problema.
O problema está no “PIDE”, um cidadão que espanca ou tortura outro cidadão. O problema está no funcionário sem escrúpulos que usa da ameaça de cadeia para roubar mais umas coroas ao seu co-cidadão. O problema está na mente distorcida e paranóica do “bufo”.
O Povo unido jamais será vencido. Vencido por quem? Por Salazar? Ou pela corja do Regime? O Povo é quem mais ordena. Se agora parece que o Povo nada ordena, então algo está muito errado.
O 25 de Abril é uma ideia de Liberdade. Liberdade? Que tipo de liberdade? Cresci a ouvir que o fascismo retira a liberdade. Visto pelos livros, o fascismo e os outros sistemas políticos que por cá passaram, apenas conseguiram fazer sempre a mesma coisa: tirar a muitos para dar a poucos.
A minha geração convenceu-se que a democracia é a solução. Agora, começa a perceber que o que aconteceu é que apanhamos a fase boa de transição. Já deu para perceber que seja qual for o “-ismo” ou “-cia”, tudo descamba sempre para o mesmo lado: para o lado do mais rico e poderoso. Portanto, pensando bem, estaremos de facto livres, ou apenas menos presos?
O 25 de Abril entra na crise dos 40 aos 35. O País começa a perder força, porque a Revolução começa a perder força. Preocupante, já que muita gente anónima começa a pedir uma nova ditadura e um novo ditador. Se calhar por isso, muita gente anónima começa também a pedir uma nova revolução, um “novo 25 de Abril”. Se calhar porque, há 35 anos, não foi o povo português que quebrou. Quem quebrou foram os militares. O Povo descontente continuou a aguentar. No entanto, percebo que, mais cedo ou mais tarde, o Povo quebraria. O militares têm sempre a vantagem de serem organizados e armados, contrariamente ao Povo que tem mais músculo, mas menos discernimento. Desta forma, é de extrema importância que o Povo tenha sempre os Militares do seu lado, assim como as Forças de Autoridade e a Justiça.
Talvez o factor mais marcante do 25 de Abril é ser o ponto de ruptura do povo português. É aquele ponto, aquele dia, em que as pessoas anónimas, sem poderes, juntas, dizem: Basta! Chega! Não suportamos mais! Qual é o nosso ponto de ruptura? Quanto mais teremos nós ainda de suportar?

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Isac, é um belo texto que mostra os perigos do relativismo. Quem não viveu no fascismo jamais chorará de emoção com o 25 de Abril. Sabe o que era o fascismo? Era a humilhação diária de quem tem medo.A humilhação de não poder ir à escola porque na família ninguem tinha ido perder tempo à escola.Não poder ir para o liceu ou para o então ensino secundário, porque a miséria era muita e não havia como pagar as propinas e os livros. Ter medo da polícia,da GNR, dos tribunais, do vizinho que não se sabia bem o que fazia na vida mas os filhos estudavam….Era tudo velho, feio e mau.Não há comparação possível entre este país e o actual. Mas não esqueça, só gente livre é que muda este país no caminho mais justo da igualdade de oportunidades.E isso faz-se com gente culta e informada .Demora gerações!


  2. Exacto. O meu distanciamento no tempo não me permite sentir assim o 25 de Abril como o sente o Luís. Só posso imaginar. Por isso é que em relação ao 25 de Abril, eu prefiro ouvir a história das pessoas. Eu nasci depois, em 1975. Tenho apenas alguma noção histórica do que aconteceu. Compreendo que o país esteja totalmente diferente. Só por quem lá passou pode ter uma noção mais exacta. Eu, feliz ou infelizmente, não senti o medo da opressão. Provavelmente por isso retenho alguns valores e não outros. Eu não sei o que é a restrição de liberdade, a não ser a “minha” restrição” de liberdade. Não posso de maneira nenhuma sentir a falta de liberdade que se sentia em 74. Precisamente por causa deste distanciamento temporal (e de vivência), para mim (e confrontado com a realidade actual) o valor que mais retenho do 25 de Abril é a necessidade absoluta de empatia entre os portugueses e o poder adormecido que existe em todos nós que faz com que o oprimido possa derrubar o opressor.

  3. Snail says:

    Talvez mais que a mudança da situação económica dos cidadãos (que, em cada dia que passa, me parece vontinuar a ir de mal a pior), eu poria a tónica na liberdade que passámos a ter.Deixando de lado a resolução do problema do “Ultramar”, – que era condição e não um fim em si – a revolução do 25 de Abril veio trazer-nos a liberdade de ler os livros e os jornais que queríamos; ver os filmes, sem cortes, que ouviamos falar; não ter o correio aberto e nem sequer o receber, etc…Quanto a este último ponto, deixem-me contar esta pequena história que se passou comigo:- nos idos de 1971 a 1974, tinha um amigo na Suécia, em Upsália, a estudar e com o qual me correspondia regularmente. Ora há cerca de seis ou sete anos, fui à Biblioteca Nacional/Torre do Tombo, em Lisboa, onde pedi um extracto da minha ficha na PIDE. Devo dizer que nunca fui preso, nunca fui membro do PCP ou de qualquer outro partido, nem sequer membro eleito de alguma Associação de Estudantes. Porém era assinante da Seara Nova, da Vida Mundial, sócio da Livrelco, etc e, como se dizia que todos os sócios ou assinantes destas revistas ou entidades teriam ficha na PIDE, tive curiosidade em saber se isso era verdade.Bom, com grande espanto meu, o dossier que me foi facultado tinha, para além de muitas informações de desconhecidos sobre a minha pessoa, algumas delas falsas, cartas do meu amigo remetidas da Suécia. Umas eram fotocópias (presumo que as tenham aberto e fotocopiado o seu conteúdo), outras eram mesmo originais, incluindo o envelope. O caricato é que o PIDE devia ser coleccionador de selos e os mesmos estavam retirados dos envelopes originais…Fiquei estarrecido, pois nunca tinha suposto que tal me teria acontecido. E, se alguém tiver dúvidas sobre isto, informo que paguei do meu bolso quase sete contos (na moeda antiga) para me fotocopiarem o dossier que guardo religiosamente em minha casa.Talvesz este episódio faça compreender a muita gente o que era o Portugal do 24 de Abril…


  4. Obrigado pela partilha da história. Em parte são estas histórias reais que me interessam para perceber o que se passou num tempo em que eu ainda nem era nascido. Se calhar o espírito e a cultura do 25 de Abril perde força precisamente por se tornar um amontoado de dados históricos, ao invés de ser uma compilação da história real… das pessoas. A história pessoal aproxima e motiva as pessoas. O meu avô tinha a cabeça a cabeça a prémio porque toda a gente sabia que era anti-fascista, distribuía panfletos anonimamente denunciando situações e pintava paredes às escondidas. Com isto fiquei a saber que ele tinha de facto uma licença para isqueiro! Sempre pensei que era na brincadeira, mas não, era mesmo verdade. O meu pai tinha problemas constantes porque tinha uma mercearia e vendia às escondidas fora do preço tabelado da altura. Pagava a pides e inspectores com bacalhaus! São estas histórias e as milhares de histórias anónimas de outras pessoas que aproximam a história das pessoas. Pelo menos a mim.

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