Manuela Ferreira Leite convenceu-me a ficar distraído

Ferreira Leite

Mariano José Pereira da Fonseca, marquês de Maricá, brasileiro, foi escritor, filósofo e político brasileiro do século XVIII. Foi ministro das Finanças, conselheiro de Estado e senador do Império do Brasil. Foi doutor em filosofia e consagrado em matemática pela Universidade de Coimbra, em 1793. Como escritor, foi autor de várias obras, sendo “Máximas, Pensamentos e Reflexões” a mais conhecida. São quatro volumes, com um total de 3169 artigos. Por aqui já se vai tirando a pinta ao homem.

Lá pelo meio, o Marquês de Maricá, diz-nos que “Ordinariamente nos fingimos distraídos quando não nos convém parecer atentos”. Foi dessa frase que me lembrei quando soube da manifestação de intenções de Manuela Ferreira Leite, anunciada esta noite, em entrevista a Mário Crespo, na SIC.

Vejamos. A presidente do PSD foi questionada sobre o cenário em que se sentiria mais confortável, se numa aliança do PSD com o CDS-PP ou se num novo Bloco Central com o PS. Respondeu: "Eu sentir-me-ia confortável com qualquer solução em que eu acredite, em que eu acredite que a conjugação de esforços e, especialmente, a conjugação de interesses – interesses no sentido do país – são coincidentes. Se perceber que o objectivo país não é propriamente aquele que está no centro das atenções, então com dificuldade haverá um Governo que possa contribuir para a melhoria do país".

O que é que eu pensei? Com toda a certeza ando distraído para não perceber patavina desta frase. Para além da expressão redonda, da fórmula diz que não disse, como quem diz mas pode sempre, a qualquer momento, dizer que não foi bem assim, a presidente do PSD parece-me abrir as portas a qualquer acordo pós-eleitoral. Num jeito de “como não chegamos lá sozinhos, vamos para lá acompanhados, mas vamos para lá”. O “lá”, está bom de ver, é o poder, o governo.

Com objectivos claros de me sossegar, à Lusa, Ferreira Leite disse que "como é sabido" recusou sempre "a hipótese de um Governo de Bloco Central", considerando abusivo que se faça essa interpretação das suas declarações à SIC, que tinham sido gravadas.

Descansei. Afinal tinha razão.

Bem vistas as coisas, acho que vou fazer como o Marquês de Maricá.

Comments


  1. Logo agora que eu pensava que íamos andar em eleições de 2 em 2 meses por não se arranjar entendimento entre os partidos… vêm estes com arranjos pós-eleitorais.

  2. Luis Moreira says:

    Não acredito que um governo CENTRÃO resolva o quer que seja.O País precisa de uma política que rompa com esta podridão de um Estado cada vez mais clientelar e tentacular, que anda na economia como um elefante em loja de porcelana.E que apoie as PMEs e deixe de dar dinheiro aos grandes grupos económicos.


  3. Creio que o governo centrão não se coloca neste momento. Muito menos com MFL e JS à frente dos dois principais partidos. Mas confesso que me chateiam as respostas redondas e ligeiras, que se podem sempre desculpar com um “não foi isso que quis dizer”, “fui mal interpretada” ou coisas do género.

  4. Snail says:

    Se é esta a oposição que temos, que mais podemos esperar? E vá lá, que a entrevista ainda poderia ter saído pior.Decididamente, há gente que não é mesmo capaz de estar na Política…

  5. Helena says:

    Acho óbvio que, neste momento crucial da economia portuguesa, ter no poder um dos maiores cérebros de sempre em económicas e financeiras do nosso país só mostraria inteligência do eleitorado.Também é óbvio que se devem apoiar mais as PME’s ao invés dos grandes grupos económicos, teoria defendida pela Dra. Manuela Ferreira Leite e que não tem sido levada a cabo pelo “Eng.” José Sócrates.Também nunca ouvi a Dra. Manuela Ferreira Leite afirmar que pretendia um bloco central. A ideia, nesta altura, é um tanto disparatada.Por último, ainda acredito existirem pessoas honestas na política portuguesa, aliás, esta senhora é um bom exemplo disso. Parece óbvio que a Dra. manuela Ferreira Leite não está cá para roubar nada a ninguém.

  6. Luis Moreira says:

    Pois Helema, vai ser a “política de verdade” contra o “sem nós é o dilúvio”.A questão é que o PS está no poder há 11 anos.E estamos no buraco!


  7. E a alternativa é entre o sr. eng. e a sra. dr. que vendeu créditos do Estado, ‘ofereceu’ a rede fixa de telecomunicações à PT (bem sei que foi paga, mas a preço de amigo) e só teve olhos para o famoso défice.

  8. Helena says:

    Pois é! Porque o Estado não deve possuir nem controlar absolutamente tudo num país e quando as contas públicas não estão equilibradas a sua preocupação não pode nem deve ser sustentar pessoas com braços e pernas para trabalhar mas antes criar as condições para que surja emprego para essas mesmas pessoas. É mais importante criar emprego do que subsídios. E atenção que os poucos empregos em IPSS’s e estágios patrocinados quase por inteiro pelo Estado não deveriam ser sequer considerados como emprego.


  9. Concordo. É melhor criar empregos que dar subsídios. Nem o Estado deve controlar tudo. Deve regular, isso sim.

  10. Snail says:

    Só para clarificar: nunca disse que a Dra. Manuela Ferreira Leite era incompetente ou desonesta. Por meias palavras, o que disse foi exactamente o contrário; pelas suas qualidades pessoais ela é a pessoa menos indicada para estar na oposição, mesmo para estar na política, e, sobretudo, para batalhar com o Eng. Sócrates.E, com pessoas como ela, nunca mais o PM se cala…

  11. Luis Moreira says:

    Com o Sócrates e o PS é que não vamos lá.Estão com maioria absoluta há 11 anos e o país está cada vez mais pobre e injusto.


  12. E desta discussão nasce uma dúvida: como e com quem vamos lá? Convenhamos que o discurso de que o que importa são as ideias e não os protagonistas já está gasto e tem cada vez menos sentido.

  13. Luis Moreira says:

    Essa é a grande vantagem da democracia, há sempre alternativas, e quando não há no plano político o povo vai para a rua.Que é o que falta cá no burgo.Então não há alternativa à política de meter milhões em bancos falidos por gatunagem e avançar com mega investimentos, quando as PMEs, que representam 70% do emprego, não recebem nada? Para onde nos leva Sócrates com esta política de endividamento acelerado? Ele tem pressa em lançar as obras públicas porquê? Claro que há alternativas, José!


  14. No célebre “Jerry Maguire”, a personagem de Cuba Goodging Jr. dizia para Tom Cruise: “Show me the money!”. Logo, aproveito a deixo e peço: “Mostrem-me as alternativas!”.(Agora deu-me para me lembrar de “Jerry Maguire”. Chiça. O filme não é mau de todo mas há muito, muito melhor. Está decidido, tenho de inventar tempo para ver mais filmes. Fica para resolução de 28 de Abril).


  15. Já há muito que penso nas alternativas. De facto, elas não existem. Esta é a realidade. Na minha opinião, só existe uma coisa a fazer: criar uma margem de abstenção que bloqueie o processo político. Como acontece com as maiorias tudo depende do número ser expressivo ou não. Temos sempre abstenção altas, mas não as temos altíssimas. Eu aposto que se nestas próximas eleições europeias tivéssemos 90% de abstenção, o debate político seria relançado em força, a crítica à classe política viria para a ordem do dia e pedir-se-ia uma reformulação política profunda. É a lógica da crise. Até 2008 não era preciso mudar nada e tudo estava como devia estar, mas como tudo descambou, então aí, bora lá regulamentar e pôr tudo em condições… Se em Portugal tivéssemos uma abstenção recorde numas eleições aposto que se pediria uma regulamentação política nova também.

  16. Helena says:

    Abstenção cheira a preguiça do eleitorado e convida à ditadura . Porquê estar num sistema democrático que se fundamenta em eleições se ninguém aproveita? Eu lembro-me de a minha avó muito doente sair de casa para ir votar e eu estranhei. Ela respndeu-me que nem sempre tinha podido votar e que, agora que as mulheres tinham conquistado esse direito, ela não iria abdicar de o exercer. Nós damos tudo por adquirido. Abstenção NÃO! Voto em branco, eventualmente… se não existisse o grande crânio em Economia e pessoa de extrema honestidade, integridade e capacidade de trabalho a concorrer.

  17. Luis Moreira says:

    Helena, votar em branco ou não votar é uma forma de participar nas eleições.

  18. Helena says:

    Votar em branco ou não comparecer transmite ideia diferente. Votar em branco significa não concordar com nenhuma das posições apresentadas. Não comparecer saignifica não se dar ao trabalho de pensar no assunto. Pelo menos é o que eu penso…

  19. Luis Moreira says:

    Sim, sem dúvida.Mas as pessoas vão para a abstenção com o sentido de “voltar as costas”, de dar um castigo.Mas não é saudável para a democracia.

  20. Helena says:

    Sim… e ganhou-se também o hábito de tratar os políticos por “eles”. Acho que as pessoas, no fundo, se sentem à margem do que se passa.

  21. Luis Moreira says:

    Helena, os únicos culpados são os políticos.Estão muito mal vistos, todos percebem que a maioria anda na politica para se orientar.Depois a promiscuidade entre interesses públicos e privados é uma vergonha.Como é que enriquecem em meia dúzia de anos?

  22. Helena says:

    Mais nada! E os poucos que fogem a essa regra são vítimas do factor generalização. É como um casamento que nunca mais recupera de uma traição :p Mas então porque é que o povo continua sempre a escolher conscientemente e com o seu voto os “ladrões”? A Fátima… O Isaltino… grandes sucessos eleitorais. Porquê?!


  23. Atenção que eu defendo a abstenção NESTE MOMENTO. Não em todas as situações. Acho é que o país sofre de enfermidades gravíssimas e a muita níveis, e que se não houver um ponto de paragem e reformulação de políticas pode não haver volta a dar ao assunto. É garantido que se houvesse uma abstenção maciça e sem precedentes, o país, governantes, gestores, e comum cidadão trariam para a primeira página o funcionamento político, a descentralização e a promiscuidade do Estado com o privado. Só numa situação de grande crise como acho que Portugal passa e vive, é que defendo uma intervenção popular deste género. Apenas porque acredito que a solução não está em nenhuma mesa de voto nem em nenhum programa político actual.

  24. Helena says:

    Pois sim… mas também não me parece solução. Creio que passaria mais por eleger individualmente cada representante. Ao estilo dos EUA (que eu não admiro, note-se). O ideal, na minha opinião, seria ser possível aos portugueses pôr a Dra. Manuela Ferreira Leite como ministra das Finanças, o Louçã como ministro da Juventude, o Portas como Primeiro ministro (exemplos :))


  25. Sim, sim. Até já imagino a diversão que deveria ser no Conselho de Ministro. Seria o bom e o bonito.Por mim, o voto de protesto é em branco ou nulo. Significa que o eleitor se deu ao trabalho de viajar até à mesa de voto, pediu o boletim e preferiu não entregar a cruz a nenhuma força política. Haverá melhor forma de desprezar a classe política?

  26. Helena says:

    Eu não desprezo a classe política. Tenho até admiração por alguns membros… Perdoem-me se sonho alto e utopicamente e me preocupo mais com o futuro do país do que com manifs e atirares de ovos podres.


  27. Concordo com tudo. O problema é que como a classe política e não só considera a abstenção no mesmo bolo dos brancos e nulos, o resultado é tecnicamente o mesmo. Só para o votante é que não é. No meu caso só eu saberei que é um voto de protesto. Se estatiscamente é tudo considerado igual, para quê demonstrar a mim próprio que é um voto de protesto? Se o sistema de eleição fosse como diz a Helena para “eleger individualmente cada representante” não haveria nenhuma justificação para abstenção; agora neste sistema actual que diferença faz branco, nulo ou pura e simplesmente não ir lá, se os representantes são eleitos na mesma? (Bem, acho que a abstenção já merecia um post com mais desenvolvimentos e visibilidade)

  28. Helena says:

    Para mim em particular, esse problema não se chega sequer a pôr este ano, visto que temos a melhor alternativa que podiamos desejar a este pseudo governo que nos tem desgovernado.Com esta me fico.

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