Touradas

Recentemente a Câmara Municipal de Viana do Castelo decidiu proibir a realização de touradas na cidade. Não me interessa  tanto a medida em si, que terá certamente muitos defensores e outros tantos detractores, mas sim uma pergunta em concreto que a decisão suscitou a um jornalista. Neste caso, foi um pivot da SIC Notícias, cujo nome infelizmente não recordo. Perguntava este ao presidente Defensor Moura se estava certo de que a medida correspondia à vontade da maioria da população. Visivelmente pouco habituado, como de resto a maioria dos autarcas, a ser confrontado com esta questão, o presidente esquivou-se e foi necessário repetir a pergunta. E então respondeu que não precisava de saber isso, só precisava de saber que Portugal havia subscrito uma declaração de defesa dos direitos dos animais.

No que me diz respeito, gostaria que se acabasse de vez com as touradas, não tanto por proibição mas porque fosse crescendo uma sensibilidade que visse com repulsa os maus tratos infligidos aos animais. Mas pergunto-me porque razão tão poucas vezes se pergunta a um autarca se está certo de que qualquer uma das medidas que pretende implementar corresponde à vontade da maioria dos seus munícipes.

Responder-me-ao que não precisa de estar, foi eleito pela maioria para decidir e a contínua consulta aos cidadão atrasaria a tomada de decisões e tornaria a governação impossível. Mas não posso deixar de pensar que, pelo menos ao nível do poder autárquico, poderia e deveria ser de outro modo.

Queria a maioria dos portuenses que o teatro Rivoli fosse entregue às soporíferas encenações do sr. La Féria? Queria a maioria dos portuenses que a Avenida dos Aliados fosse despojada sem piedade de qualquer vestígio de árvores de sombra, flores, relva, bancos de jardim, para que em seu lugar se estendesse o cimento e se colocassem umas pobres árvores depenadas, que mais pareciam sobreviventes de um holocausto?

E, da mesma forma, podemos perguntar se era a vontade da maioria dos portuenses que se teve em conta quando se pensou entregar a privados a gestão do mercado do Bolhão, do pavilhão Rosa Mota, da praça de Lisboa, do mercado Ferreira Borges?…

Desculpar-me-ao se me centro exclusivamente na cidade do Porto, mas creio que não deverá ser difícil enumerar, em muitas outras cidades deste país, situações semelhantes. Afinal, com maior ou menor mestria, vamos todos sendo toureados.

Comments


  1. Ora, cá está uma bela forma de lançarmos o debate em torno da democracia participativa. Os autarcas fazem e desfazem a seu bel prazer e sem equacionar a vontade dos munícipes? Em muitos casos é verdade. Mas sempre que for necessária uma resposta a um problema, a uma opção, faz-se um referendo? O mesmo autarca fez um referendo, em relação à entrada do concelho em causa numa associação de municípios. Menos de 40 por cento dos eleitores foram manifestar a sua opinião. Uma das causas da nossa pobreza democrática é que queremos sempre muito e estamos dispostos a dar pouco.

  2. Luis Moreira says:

    É verdade que um dos grandes problemas é a fraquíssima participação dos cidadãos na vida pública. E com uma sociedade fraca os partidos tornam-se fortes, e os autarcas e políticos e jornais…Curiosamente coloquei a questão dos passeios sem árvores à camara de Castelo Branco.É que lá fizeram como no Porto.Parece que a moda é transformar o largo principal das cidades em zonas de passeio e conversa que, pelos vistos, não se fazem com árvores…

  3. Snail says:

    Carla, não se trata da mera opinião dos munícipes mas sim de cumprir uma convencão que Portugal subscreveu.Porém, para além disso, se acha que devemos perguntar aos munícipes se eles querem pagar derrama, se acha que se devem pronunciar sobre a existência de uma estação de tratamento de residuos no seu concelho, se acha que se deverão pronunciar sobre a abertura, no seu bairro, de uma clínica de tratamento de toxicodependentes, então eu respondo já (por eles todos) que a resposta que obteremos é NÃO.E o que fazemos? Acatamos a decisão e as autarquias não têm receitas, deitam o lixo para o mar ou para os rios e expulsam os toxicodependentes para Espanha?Ou, em alternativa, temos outra solução: perguntamos e depois fazemos o que queremos.Dito isto, esclareço que não tenho nenhuma simpatia pelo Presidente Defensor Moura, mas esta decisão é matéria de cultura civilizacional e de progresso social. Porquê perguntar algo sobre o qual a consciência ética de uma sociedade do século XXI sabe já a resposta?


  4. Ainda bem que acabaram com as touradas. Não consigo sequer imaginar como será a cabeça por dentro, de uma pessoa que se diverte a ver outra pessoa espetar ferros num animal. Confesso que sou grande apreciador dos forcados. É uma prova de coragem excepcional. E existe um certo pé de igualdade entre homem e animal. Em relação às maiorias: para quê estar a lamentar a falta de participação democrática quando existe uma ideia generalizada (e que se concretiza sempre) que independentemente do fulano A, B ou C e do seu respectivo partido, a situação terá sempre o mesmo resultado? Por exemplo, as situações no Porto. Quer a câmara fosse PS, PSD ou outro qualquer, alguém tem dúvidas que o Bolhão seria “privado”? Que o “Bom Sucesso” também o será? Que a Praça de Lisboa será remodelada vezes sem conta? Que o que tiver que acontecer (alguém ganhar montes de dinheiro) vai acontecer quer sejam 10 ou 100.000 votantes?

  5. miguel dias says:

    Issac, e restantes defensores dos “direitos dos animais”:Há entre vós um infiltrado ou mais precisamente um aficionado. Para além de caçador e pescador. Vou escrever um post sobre o assunto.

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