POEMAS ESTORICÔNTICOS

Essa manhã

Mal a luz do dia beliscou a frincha da janela
ele acordou.
Acordou
como sempre
com pedaços do passado agarrados ao pijama
às mãos e aos cabelos
sentou-se na beira da cama
e um sonolento Oh! que merda!
soltou-se da garganta
ainda seca do bagaço da véspera
quando os pés palparam a falta dos chinelos.
Moldou os passos ao chão
de modo a evitar a madeira fria do soalho.
Sobre a cómoda continuava a tristeza
à mistura com águas de colónia de vários tipos.
Abriu um sorriso quando viu no tapete
o artigo que acabara de escrever na véspera
e que o sono fizera escorregar-lhe das mãos.
Dera-lhe o título Orgasmo
inspirado numa dessas tardes
em que o fim do domingo
abre as portas à demência.
A caminho do quarto de banho
ia pensando nas palavras que nada dizem
e na flatulência da comunicação
que o fizera deitar-se tão tarde
e acordar
assim
com a gema de fora.
Sempre nele permanecera uma grande dúvida
quanto à eficácia de debates como o da véspera.
Será que têm algum valor
como profilácticos da deterioração mental
que a idade e os tempos acarretam
ou são
eles próprios
catalisadores dessa mesma deterioração?
Sobretudo se tais debates não passam de confusões
sinfonias de mediocridade e estupidez
discutindo pessoas reles
factos ridículos
ideias banais
estafadas e apodrecidas.
Sobretudo se tais debates
se processam entre corruptos
golpistas e terroristas
que invadem as casas
maquilhados de gente de bem
e cobardemente espantalhados
de homens dignos.
Sempre pensara
que não deve transformar-se em espectáculo
o perigo da lavagem dos rostos
com o sabão da ingenuidade.
A verdade é só uma
e ele não aderia
de ânimo leve
à tese de que cada um teria a sua verdade.
A verdade existe
está lá
está sempre lá
dentro das coordenadas humanas.
Há quem dela se aproxime e quem dela se afaste
mas o único caminho da verdade
é o caminho do entendimento
e não há lucidez que não assente na razão.
Sem deixar de considerar
que a irracionalidade
é o caminho das trevas
cada um tem o direito
de escolher o seu caminho da verdade.
Mas aí tem-se o direito de o julgar pela escolha
se se conhece a formação ou a deformação
a inteligência ou a indigência
a humildade ou a petulância
o rigor ou a confusão
a seriedade ou a manigância.
Grande respeitador do relativo
e da cultura da diferença
considerava-se adversário do consenso
do consenso acima de tudo
que destrói e anula o indivíduo
e da tolerância
tolerância como virtude
que implica sempre
alguém que tolera
e alguém que é tolerado.
Acordou mal disposto
porque não acreditava
na existência de debates fluidos
corajosos e pedagógicos
e
mesmo assim
cedera-lhes parte do seu tempo de sono.
Convidar tanta gente de caras
e tantas caras de gente
fazer cócegas em temas profundos
inacessíveis a mentecaptos
meter num mesmo saco
capazes e incapazes
lúcidos e ineptos
fazer de assuntos sérios estéreis discussões
criar espectáculos de feira
sem receio de sujar a consciência
e ofender a verdade
era mais do que razão
para o incómodo acordar dessa manhã.
Já no café da esquina
deu de caras
com a mulher de longos cabelos negros
rosto comprido
e olhos paradoxalmente achinesados
a quem pedira há cinco anos atrás
para posar para si.
Esguia
quase linear
de uma beleza que parecia desenhada
a sua figura prendia os olhos que nela tocavam.
Sempre que a via
recordava-lhe alguém
e bulia com qualquer coisa dentro dele.
Na mesa do lado
via-se que um outro homem
seguramente um habitante dessas ilhas
que se escondem no ventre da cidade
tentara encontrar uma camisita de riscas verdes
a condizer com o verde das calças.
Se bem que mais escuro
aceitava-se
não era muito boa a combinação
mas percebia-se a ideia.
Já não era de aceitar tão facilmente
aquela senhora vista de trás
relativamente escorreita
blusa da moda e saia quase mini
moldando formas enganadoramente jovens
que o virar da cara logo atraiçoava
ao denunciar as engelhas dos setenta.
Ninguém tem nada com isso
e
se mentalmente o comentava
é porque considerava o sentido do ridículo
irmão gémeo da inteligência.
Uma outra senhora tentava limpar
com um guardanapo de papel
os pingos de baba
que o marido
por força de tentar sorrir
deixava escorrer dos lábios inertes
sobre a gravata cinzenta.
Deve ter sido acometido
de acidente vascular cerebral.
Mesmo hemiplégico
nem por isso deixou de sugerir
com a mão válida
que a mulher esfregasse suavemente
o guardanapo
um pouco abaixo da fivela do cinto
ao que ela acedeu
de maneira afável e sorridente.
Em paga
ele abriu o livro de cheques
e mostrou o que havia por lá.
Ela arregalou os olhos
e inspeccionou-lhe
com falsa displicência
o pavilhão auricular
tentando arrancar-lhe docemente
uns pêlos esbranquiçados e eremitas
que teimaram isolar-se do mundo cabeludo.
Ciente de que a poderosa dinâmica da vida
quer se queira quer não
reside no sexo
não tinha dúvidas em aceitar
que o homem do livro de cheques optaria
– se fosse possível dar-lhe a escolher-
por poder levantar o pénis
em vez da mão paralítica.
Do outro lado
uma mulher cheirava a perfume que tolhia.
Bafejou os óculos
limpou-os a um pequeno lenço
e pô-los em contraluz para ver o resultado
mas os seus olhos
em vez de fitarem o vidro
fizeram esguelha para o companheiro
que tinha na frente o generoso cruzar de pernas
de uma dessas liberais
criadoras de pulsões.
Na televisão
as eméticas telenovelas
e todos os Bancos
caridosamente solidários
a abrirem uma conta
para as vítimas dos incêndios!

                        (adão cruz)

(adão cruz)

Comments

  1. carla romualdo says:

    Adão, uma pergunta que me intriga há muito tempo: qual nasce primeiro, no seu caso, o texto ou o quadro? Quando os vemos já parecem indissociáveis, de tal forma se complementam, mas qual chega primeiro?

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