Democracia e fascismo

  
Queria-me parecer que estas duas palavras eram diferentes. Por acaso, visitei o meu espaço no Aventar e, com surpresa, li um texto de um dos gestores do blogue, pessoa da minha estima e simpatia, Ricardo Santos Pinto, a escrever sobre o Chile de Pinochet e a educação no Chile e em Portugal.
Falou de educação, como pode entender-se ao ler o texto. Mas, também, da política que orientava esses governos: o Chile, social-democrata, punido pelos Republicanos dos EUA ao mandar assassinar ao seu Presidente Constitucional por ser de ideologia materialista histórica. E fez-me pensar e lembrar e sentei-me de imediato em frente ao computador para colmatar essas lembranças.
Tenho referido em outros textos deste blogue que por acaso me encontrava no Chile de Allende, enviado pela minha Universidade Britânica: o meu Catedrático faz 31 anos, Sir Jack Goody, queria saber como era o socialismo livre, votado nas urnas pela maior parte da população. Votos que foram incrementados até aos 70% dos sufrágios numa eleição municipal de 1972. 72% para os socialistas democratas e materialistas levantou de imediato o terror entre os mais cristãos cidadãos da Nação. A falta de saber o que é o socialismo causou um terramoto social. Ninguém pensou que a redistribuição da riqueza entre todos por igual, era a mais santa acção que um governo podia fazer. Que retirava lucros aos mais poderosos? É evidente: uma democracia, definida por Aristóteles no Sé IV antes da nossa era, é o governo da cidade pelos mais anciãos compatriotas.
No mesmo texto, comenta: Uma democracia directa é qualquer forma de organização na qual todos os cidadãos podem participar directamente no processo de tomada de decisões. As primeiras democracias da antiguidade foram democracias directas. O exemplo mais marcante das primeiras democracias directas é a de Atenas (e de outras cidades gregas), nas quais o Povo se reunia nas praças e ali tomava decisões políticas. O que o nosso sábio não pensou, porque ainda não existia, é que o lucro de poucos podia subjugar a falta de meios de produção de vários. Apenas referiu que, enquanto no tiverem meios de produção, perdiam o direito ao voto e à liberdade, como na maior parte das etnias do mundo e nas Nações modernas.
O medo à igualdade nas sociedades de classe como as de hoje em dia era ficar sem recursos para ter poder e mandar. Um primo directo meu visitou-me um dia e solicitou a minha intervenção para que o seu latifúndio não fosse expropriado. Calmamente ripostei ao meu caro primo que eu era um académico e não tinha aceso à vida política do Chile por morar no estrangeiro. Acrescentei que, ainda que tivesse esse poder, nunca o usaria porque a propriedade da terra e dos bens produzidos pertenciam aos seus produtores: um título de propriedade não dava direito a usufruir gratuitamente do trabalho de outros. Em silêncio acabou a sua comida na nossa casa e diz: no dia em que o teu Presidente for morto, porque morto será, vou-te denunciar às novas autoridades, que seremos nós. Um mês depois, o nosso Presidente era assassinado e eu levado para um campo de concentração.
Não apenas eu. Nós todos, cristãos para o socialismo, a lutar pelo povo e a sua alfabetização e o seu direito a organizar sindicatos, estávamos num campo de concentração. Jack, após 4 anos de Auswitchz, sabia o que era, reclamou e fui levado de volta á Grã-Bretanha e à nossa Universidade.
A família não falou mais comigo. Estavam, como Aristóteles analisara nas suas vária obras, especialmente na sua de 330: Ética a Nicómaco, texto que define a liberdade de opção. Liberdade que existe enquanto há meios, mas que desaparece mal o poder nos abandona ou passamos a ser uma carga para o nosso grupo social.
O socialismo é bem ao contrário: apoia, enobrece, acompanha, colabora, governa. Quem nada destas ideias materializa, passa a ser um dinamizador do fascismo.
Fascismo, natural antes da Revolução Francesa, até o ponto de fazer desfilar aos agricultores do sul da França até Paris, invadir as prisões e libertar aos oprimidos que, por não terem trabalho, estavam detido e em prisão eterna. A pior prisão, as Tulherias, desapareceu nesse dia. A França viu nascer a Democracia e lutou por ela até 1944, quando De Gaulle e a Resistência francesa souberam acabar com o domínio dos que queriam se apoderar de todos os povos, para trabalharem para eles e serem servidos pelos escravos que teriam havido no Século XX, caso não se houverem defendido e aliado Estados que tinham.
A igualdade estonteia, mete medo o tratamento de tu a tu, retira a arrogância dos que são despojados, sentimento que faz de quem possuem médios de produção, materiais ou intelectuais, inimigos do povo. O fascismo é uma doutrina praticada normalmente por pessoas poderosas que, para não perder o si para si, até comprometem a sua divindade no carisma da economia monetária. Tremeria Mateus, cobrador de impostos mas discípulo de quem prometia tormento na terra e um eterno descanso no céu, se souber que essa igualdade procurada era banida pelos que todo possuíam, com Missas Solenes para pedir o martírio dos que procuram justiça, dos que justiçam aos justiceiros, dos insolentes que, para tornar ao poder, mentem, opinam, inventam Nem Allende nem Sócrates merecem esse tratamento. O Estado está, por lei, chamado a acautelar a existência de trabalho para todos e a semelhança dos que deixam de ter poder, com quem o herda.
Allende e Sócrates juntos? Apenas pela procura de uma soberania do povo, pelo povo e para o povo. Materialismo histórico) Primeiro-ministro, não tenha medo: ouve o legado de Allende, de Lagos e da Presidenta da República Michelle Bachellet no Chile. Ela viu morrer ao seu pai, fiel à Constituição, o General Alberto Bachellet, socialista democrata como ela, mas nunca arredou pé. Pode-se ver na sua cara, para pensarmos com pé em frente este Domingo.

Comments

  1. Adão Cruz says:

    Amigo Raul IturraAo abrir o Aventar deparei com o teu rexto que me fez renascer a alegria , pelo menos para o dia de hoje. Bonito texto, todo ele feito de verdade insofismável. Aquilo que se passou com o teu primo é paradigmático. O 25 de Abril, revolução que não fez qualquer vítima, é um exemplo para todo o mundo da tolerância das forças demcráticas, autênticas. Se, por acaso, o 25 de Abril não vingasse e as forças fascistas retomassem o poder, eu e muitos dos meus amigos que interviemos activamente na revolução, bem como muitos milhares de outros, com certeza já cá não estavamos há muito. Isto é claro como água. A diferença é de essência e abismal. A semana passada, um amigo meu da Galiza dava a entender que na guerra civil, não havia bons nem maus, tanto mataram uns como outros. Esta visão não pode conceber-se. Dei-lhe exactamente o exemplo do 25 de Abril atrás citado. Não sabia do exemplo do teu primo. Era mais um. Obrigado pelo teu belo texto.


  2. Meu Caro Adão Cruz,agradeço essas palavras amigas e de entendimento. Estava muito bem na Grãbrtenha, mas o mu Catedrático-que agora sou eu enquanto ele continua feliz e vivo nos seus 88 anos, teve essa ideia. A dor foi tão grande, que, após campo de concentração, tornei a Grã-bretanha, ao meu velho prof. e a seguir, visitei Portugal em 1981por dois meses. Vi que cá podia fazer o que não fui capaz no Chile. O Governo fez-me português pelos serviços prestados. Adão, somos compatriotas! Obrigado pelo comentário.Raúl Iturralautaro@netcabo.pt

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