A máquina do tempo: esquecer ou não esquecer

 Dizem-me que já não tem interesse falar nestas questões do fascismo, do nazismo, do Holocausto, da resistência à tirania… Que já não se usa, que são temas muito batidos. É precisamente por isso, por «já não ter interesse» que não me calo e nunca deixarei de falar nesses temas que já foram vistos por milhares de ângulos e que, mesmo quando julgamos estar a ser originais, mais não fazemos do que repetir o que outros já disseram. Não me importa, pois trata-se, não de uma questão de originalidade, mas de um imperativo – não esquecer.

 Tenho aqui falado da grande quantidade de franceses que, durante a ocupação alemã (1939-1944), colaborou com os invasores nazis. Porém, é preciso dizer-se que muitos outros, resistiram, organizando-se e lutando. Muitos deles pagaram com a vida essa patriótica atitude. Dizer-se que a França resistiu heroicamente à ocupação germânica, seria um exagero e um falseamento da verdade histórica. Tão grande e tão grave como dizer-se o contrário. É que a verdade tem sempre, no mínimo, duas faces.
 

 

Imaginem que vão ser fuzilados. Como reagiria cada um de nós perante essa dramática circunstância. Um livro – «J’aurais voulu vivre» – reúne, compiladas por Nancy Bosson, as derradeiras cartas de prisioneiros franceses para os seus entes queridos. Eis algumas frases dessas cartas: «Às quatro vão fuzilar-me. Se soubesses como estou calmo, querida mãezinha», escreveu Robert Busillet, de 19 anos, na prisão de Fresnes em 1941. «Não tenho medo, não é meu costume», disse o refém Michel Dabat, fuzilado em Nantes. «Gostaria que, quando o menino for mais crescido, lhe fales muito de mim» (…)«não te esqueças dos meus sapatos, estão a arranjar; dá-os ao Maurice», diz um outro. São uma centena de cartas de resistentes franceses e estrangeiros, fuzilados ou decapitados pelos ocupantes nazis. Foram escritas entre 1941 e 1944.

A mais comovente é talvez a de Guy Môquet. Dela é extraído o título do livro e na capa figura o retrato do jovem .

*

Guy Môquet tinha 16 anos.  Seu pai, deputado comunista fora deportado para a Argélia em 1939. Guy aderiu então à Juventudes Comunistas. Um ano mais tarde, durante uma distribuição clandestina de panfletos em Paris, foi detido e transferido para o campo de concentração de Châteaubriant. Em 22 de Outubro, foi fuzilado com outros 26 prisioneiros do campo, como represália contra a morte de um oficial alemão. Hoje, uma estação do metro parisiense e numerosas ruas de cidades francesas têm o seu nome.

 

 Antes de morrer escreveu uma carta aos pais e ao irmão. Transcrevo parcialmente:

Mãezinha querida, irmãozinho adorado, amado paizinho,

Vou morrer! O que vos peço, a ti, mãezinha, em particular, é que sejais corajosos. Eu sou-o e tenho visto que os que morreram antes de mim também o foram. Claro que quereria ter vivido. Mas o que desejo de todo o meu coração é que a minha morte sirva para alguma coisa» (…) «Para ti paizinho, a quem, tal como à mãezinha, causei tantos desgostos, saúdo-te pela última vez. Fiz o meu melhor para seguir o caminho que me traçaste». (…)«Um último adeus a todos os meus amigos, ao meu irmão que tanto amo. Que seja um bom estudante para que mais tarde seja um homem. Dezassete anos e meio, a minha vida foi curta, mas não lamento senão o ter de vos deixar. » (…) «Últimos pensamentos: vós, todos os que ficais, sê dignos de nós, os 27 que vão morrer!»

 

 

Um rapazinho, uma criança a bem dizer, soube morrer com a dignidade com que a maioria dos homens não sabe viver. Bem sei que, colocados em situações limite, os seres humanos assumem reacções surpreendentes. Guy Môquet, um jovem que soube dar um exemplo de resistência à tirania e de amor à sua pátria. Lembro-me desse e doutros exemplos sempre que ouço falar de abdicarmos da nossa independência. Estou certo que se um dia alguém nos tentar anexar deparará, no meio de traidores e de imbecis, com alguns Guy Môquet.

Dizem-me que já não interessa abordar estes temas. Ao contrário, eu penso que, quando pelo mundo fora são criados grupos neo-nazis, é importante não nos esquecermos de que o nazismo, o fascismo, o Holocausto, foram realidades sofridas pela Humanidade e não ficções ou exageros, como se diz. Dedico este este texto a um amigo do Aventar que, estou seguro, está bem atento à realidade e não esquece nunca o que não deve ser esquecido – o nosso Adão Cruz que, com os seus textos lúcidos e desassombrados, com a sua bela pintura e os seus poemas, sem esquecer também a face sombria, nos mostra o rosto luminoso da família humana.

Comments

  1. Adão Cruz says:

    Caríssimo Carlos Loures:
    Comovente.
    Sempre disse que neste mundo há almas grandes e almas pequenas, e cada dia esta verdade me parece mais irrefutável.
    Conheço coisas destas mas não em pormenor, como tu, cuja capacidade e conhecimento eu invejo.
    Emocionado me encontro, de outra forma, pelo facto de me dedicares um tão belo texto. Sinto-me dignificado, não só pelo tema e pela nobreza da matéria, mas por ser uma pessoa como tu, que se atreve a usar as palavras de um poema para com elas fazer uma dedicatória a um amigo, que, conscientemente, não merece tal honra.
    Um abraço a toda a largura dos meus braços.
    Adão

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