Amor ao corpo

Diariamente, e em distintas circunstâncias, sou convidada a desinfectar as mãos com um gel alcoólico que não me atrevo a recusar. Afinal, quem sou eu para colocar em risco a saúde pública? Estendo obedientemente as mãos, recebo o líquido purificador, e espalho-o com escrúpulo, insistindo naqueles cantinhos propícios à acumulação de germes perniciosos.

Há dias, estava eu muito aplicada no exercício, ocorreu-me que havia algo de litúrgico neste gesto, e na verdade não sei explicar como é que logo a mim, anticlerical como sou, me havia de ocorrer semelhante coisa. Mas sim, pareceu-me ver algo de uma liturgia profana, um pouco mais ajustada aos nossos tempos, uma forma de ablução rebuscada, que pede pouco ao espírito porque se excede na limpeza da matéria.

Mas de tanto esfregar as mãos com álcool, e de ler cartazes de prevenção da gripe colocados, para meu bem, em locais onde é difícil não vê-los, dou por mim a pensar que isto da prevenção, do medo à pandemia, do zelo na desinfecção das mãos e das superfícies em que estas tocam, não parece capaz de dar um passo mais e traduzir-se em amor ao corpo. Não, parece-me que se fica tão só pelo horror à contaminação.

E a fonte dessa contaminação é o outro, já se sabe, essa criatura carregada de agentes patológicos capazes de provocar sabe-se lá que enfermidades, o outro que saliva e espirra e tosse e cata macacos do nariz para depois se livrar deles nos botões dos elevadores ou no corrimão das escadas rolantes. É contra essa ameaça que nos oferecem sabonetes desinfectantes, toalhetes, loções alcoólicas, mil e uma panaceias para fugir à doença.

Um pouco hipocondríaca por herança familiar, cultivo um gosto secreto pelas enciclopédias de medicina do Reader’s Digest, embora não tenha voltado a folhear nenhuma desde a adolescência, e gosto de saber quais os sintomas de uma pielonefrite, de um hipotiroidismo ou até, porque nunca está de mais saber, de uma prostatite.

Não porque tenha gosto na medicina, ou na doença, mas apenas porque dispenso surpresas no consultório, gosto de antecipar o que o médico vai sentenciar, a mim ou aos meus. Temor à doença, mas um temor racionalista, carregado de informação minuciosa e inútil.

Mas, pergunto: e o amor ao corpo? Não o culto do músculo untado de óleo ou da perfeição levada ao paroxismo, mas essa descoberta que leva tempo, a de que o corpo é um companheiro do qual há que cuidar. Com paciência, ainda que por vezes tocada pela irritação, e com meiguice, mesmo quando lhe pedimos mais do que aparenta estar disposto a dar.

Quanta gente vemos que arrasta um corpo cabisbaixo, achincalhado, entristecido por não lhe fazerem caso? Um corpo que se vai deixando enredar numa teia de fraquezas, de desalentos, de saturação, de intoxicação, até que a doença se consolida e principia a sua cavalgada destrutiva.

É certo que se eu não me sentisse doente, se eu não olhasse agora o meu corpo com alarme, procurado decifrar que mensagens me envia através dos seus achaques, se eu não estivesse, enfim, perante a necessidade de prestar-lhe atenção, talvez nenhuma destas inquietações ocupasse o meu tempo. E quem sabe não voltarei a esquecê-lo quando recuperar esse equilíbrio a que chamamos saúde?

Prefiro acreditar que esta descoberta, tão recente, me acompanhará, e que hei-de entender-me com este companheiro, com quem ultimamente me tenho arreliado, sendo tão pouco afinal o que ele pede.

Comments

  1. maria monteiro says:

    Quando apanhamos sustos com as maleitas que nos vão aparecendo o melhor mesmo é agarramo-nos à parte menos doente da vida… há sempre surpresas agradáveis

  2. Adão Cruz says:

    Entendo muito bem o que queres dizer, Carla. Lá diz o povo, só damos valor à saúde quando a perdemos. Amar o corpo é amar o que somos, por inteiro, amar a mente, amar a vida. Não existe qualquer dicotomia corpo-espírito. Ao amares o teu corpo estás a amar a tua mente, o teu pensamento, e vice-versa, pois que nada de ti se pode separar em partes. Ao aprimorares-te na higiene a fim de fazer a prevenção de muitas moléstias, estás a aprimorar toda a tua forma de ser e pensar, estás a contribuir para a prevenção de muitas moléstias do chamado espírito, que mais não é do que uma parte do todo do teu corpo, de ti.
    A doença não é só estritamente a dor, o mal-estar, a anomalia de um órgão, a doença é o abalo de todo um ser, maior ou menor. Peranre a doença e a dor, tudo o que somos sofre, se acobarda e se humilha. O ignorante não tem vergonha de dizer que o é, o mentiroso confessa que o é, o ladrão não nega os seus actos, o rico não se envergonha de mostrar as suas pobrezas, o fanfarrão emudece, o vaidoso perde a sua pesporrência, o gajo de direita até cede nalgumas posições de esquerda e vice-versa. A dor e a doença coloca o homem perante si mesmo e ninguém se envergonha de ser quem é.
    Portanto Carla, a profilaxia não está só nas abluções a que te referes, mas nas abluções da nossa mente e do nosso pensamento. A prevenção não está só em amar o corpo mas, sobretudo em amarmo-nos no todo que somos.

  3. Luis Moreira says:

    Carla, és jovenzinha isso vai passar, pensamento positivo ajuda imenso.

  4. carla romualdo says:

    Maria e Luís, estou totalmente de acordo convosco, mas acho piada a troçar de mim e este texto vai nessa linha.
    ó Adão, o teu comentário é mais bonito do que o texto que lhe deu origem!