E tudo o vento levou… há 70 anos

São cinco discos em DVD e edição em blue-ray pela primeira vez. É uma edição especial de “E Tudo o Vento Levou”, de Victor Fleming, que estreou nos cinemas há 70 anos. Mais de sete décadas só cimentaram o prestígio deste que é um dos grandes clássicos da sétima arte e, medidas as taxas de inflacção e correcção monetária, o mais rentável de sempre. Mesmo acima de Titanic.

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Foi a 15 de Dezembro de 1939, que estreou em Atlanta, capital do estado norte-americano da Geórgia. Uma festa em grande, que faria corar de vergonha algumas das luxuosas ‘premieres’ dos dias de hoje. Foram três dias de festa e até um feriado estadual. Apesar do essencial da história se passar na Geórgia, quase todo o filme foi rodado na Califórnia.

Foi um sucesso de público e crítica. Ganhou dez Oscars, incluindo o de Melhor Filme, num recorde que durou 20 anos, até Ben-Hur, e continua a ser um dos 10 melhores filmes americanos de todos os tempos, segundo o American Film Institute.

“E Tudo o Vento Levou” é um tesouro de estórias de um tempo em que Hollywood ainda não existia mas já havia todo aquele espírito que viria a criar a futura Meca do cinema.

Contratado para realizador, George Cukor, especialista em melodramas, desistiu rapidamente, antevendo um grande fracasso. Depois dele surgiram outros: B. Reeves ("Breezy") Eason, Sam Wood e William Cameron Menzies. Até surgir Victor Fleming, que assumiu cerca de 45 por cento da rodagem. Mas mesmo ele não confiava muito no sucesso. Dando o corpo ao manifesto, disse ao produtor, o gigante David O. Selznick, que o filme não seria comercialmente viável. Uma das razões apontadas era o argumento, demasiado extenso. O livro de Margaret Mitchell era enorme e mesmo com muitos cortes no enredo e eliminação de personagens, seria um filme longo. Selznick ainda equacionou fazer dois filmes em vez de um mas acabou por optar pelo projecto original. Se fosse um fracasso seria um e não dois.

A primeira versão do guião correspondia a mais de cinco horas e meia de projecção. Alguns cortes, uns arranjos e a versão final ficou a bater as quatro horas.

Rhett Buttler deveria ser interpretado por Gary Cooper, mas o homem que tinha estreado, nesse ano, o fabuloso “Mr. Deeds goes to Washington”, recusou. Seria um flop e ele, com a cotação em alta, não queria participar. Clark Gable foi a segunda opção. "Oh, é um filme de mulheres", desabafou numa entrevista, anos depois da estreia, recordando que não acreditava no êxito da fita. Aceitou porque recebeu um bónus de 50 mil dólares, que permitiu pagar o seu divórcio com a segunda mulher. Ao todo, Gable recebeu, por 70 dias de trabalho, 120 mil dólares. Um valor adequado para proferir uma das mais importantes frases da sétima arte: “Frankly, my dear, I don’t give a damn” (não se diz isto a uma senhora).

Vivian Leigh trabalhou 125 dias e auferiu 25 mil dólares. O seu “After all… tomorrow is another day”, tem peso, mas não tanto. Para o papel de Scarlett O’Hara foram analisadas 1400 candidatas mas consta que Selznick já tinha a sua escolha feita.

Ao produtor se deve muito do resultado comercial e crítico do épico. Selznick preparou a antestreia e a estreia com um cuidado extremo, através de manobras de marketing que ainda hoje são usadas.

“E Tudo o Vento Levou” só estreou em Portugal a 20 de Setembro de 1943. E ficou menos tempo em cartaz do que “Amor de Perdição”, de António Lopes Ribeiro, estreado quase um mês depois.

Comments


  1. Pelo que sei, escrito nos Programas do Coliseu do Porto à época, “Amor de Perdição” estreou no Porto a 8 de Outubro de 1943 e em Lisboa, no Teatro da Trindade, a 12 de Outubro de 1943. Só em Novembro houve a estreia de “E Tudo o Vento Levou”, que esteve em cartaz no Coliseu do Porto durante um ano. Devido à sua extensão, o filme começava à tarde às 15h e terminava às 19h. À noite iniciava às 20.30h e terminava às 0.30h. Muito provávelmente em Lisboa, “E Tudo o Vento Levou”, também só foi estreado em Novembro e não em Setembro. Mas não tenho informação precisa.