Poemas com história: Trago uma voz encarcerada

O poeta Marcos Ana na Feira do Livro de Madrid, em Junho de 2009.

O escritor Marcos Ana, pseudónimo de Fernando Macarro Castillo, nasceu perto de Salamanca em 1920. Durante a Guerra Civil, integrado no Exército da República, participou na Batalha de Madrid. Preso, foi torturado e condenado à morte, embora a pena nunca tenha sido cumprida. Em meados dos anos 50 começou, na prisão, a escrever os seus poemas. A sua obra chegou a diversos intelectuais e gerou-se um movimento para a sua libertação. A Amnistia Internacional pressionou o governo de Franco e, em Novembro de 1961, foi exilado em França.

No decurso dos anos 60, tornou-se um símbolo da resistência ao fascismo pela força da palavra. «Traigo una voz encarcelada» foi o título de um discurso que pronunciou no Gandhi Hall de Londres, em Junho de 1962, em homenagem aos presos antifascistas. O texto circulou clandestinamente em Portugal.

O meu poema de hoje, publicado em «A Poesia Deve Ser Feita Por Todos» (1970), foi dedicado a Marcos Ana, ao seu vibrante discurso e à sua poesia combativa. Embora seja um comunista ortodoxo e ligado à corrente estalinista, é um homem valente que dedicou a vida à luta contra o fascismo. Perante esse exemplo, as divergências ideológicas que dele me separam, esbatem-se, tornam-se insignificantes. Porque os homens definem-se mais pelo que fazem do que pelo que dizem que gostariam de fazer. Portanto, aqui está

Trago uma voz encarcerada

Trazer a voz encarcerada, irmão,
é levar o Sol a arder dentro da boca,
um Sol de palavras resplandecentes
com algemadas sílabas, regulamentos
carcerários sufocando as letras,
espingardas entre as vírgulas, muros
de silêncio rodeando os sons.
As nossas palavras caem
entre os apodrecidos frutos do olvido
como sementes abandonadas,
entre as estéreis ervas de um baldio.
A voz que nos encarceram, irmão,
é aquela que trazíamos dentro de nós
para povoarmos de palavras o silêncio,
palavras necessárias, a voz
dos nossos povos emudecidos
por séculos de opressão e crueldade.
Não é a nossa canção de amores frustrados,
não canta o rocio beijando a flor
nem chora a dor do ciúme ou da saudade.
Voz dos nossos companheiros humilhados,
bandeira de revolta e indignação,
a palavra liberdade nos nossos lábios,
é Sol estoirando o peito,
meu irmão.

Comments

  1. Carla Romualdo says:

    que maravilha, Carlos!

  2. Carlos Loures says:

    Obrigado, Carla. Este poema, que no livro está expressamente dedicado a Marcos Ana, foi, por certo, um dos motivos por que «A Poesia Deve Ser Feita Por Todos», foi apreendido. Mas poucos exemplares apanharam, felizmente.

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