Será que o homem é o ser mais desenvolvido da terra?

Será que o homem é o ser mais desenvolvido na terra?

 Com base no que escreve D’Onofrio Rebelión, eu intuo que é pouco provável que as crenças sejam um plano orquestrado por pessoas geniais e lúcidas. É mais provável que as crenças resultem de um processo cumulativo, através dos tempos, no qual confluem pessoas, políticas, religiões, interesses, ritos e costumes. Para a maioria dos humanos, aceitar as crenças que vêm dos antepassados, sem as questionar, é o resultado da grande estratégia de todos aqueles que não têm interesse na evolução mental do ser humano.

 Para uma pessoa de ideologia naturalista e científica do mundo, nada pode ser afirmado ou negado com certeza absoluta. Esta a grande honestidade da ciência. Há coisas que não sendo consideradas impossíveis, podem ser muito improváveis, e há coisas que parecendo improváveis, podem ser, à luz dos conhecimentos, muito possíveis. A probabilidade ou improbabilidade dependem da informação disponível. Sem qualquer dúvida, a informação disponível actualmente contradiz uma grande parte das crenças e dos conceitos mais ou menos cristalizados que nos acompanharam através da vida.

 Os conhecimentos sobre a evolução por selecção natural dos seres vivos explicam a existência destes seres de uma maneira muito mais coerente, muito mais evidente, muito mais lógica e realista do que as crenças ou outras explicações mais ou menos criacionistas. Isto é hoje um facto científico situado ao mais elevado nível dos factos científicos que consideramos praticamente inegáveis. Por outro lado, é impossível que uma observação contradiga a ciência porque a ciência se baseia na elaboração de teorias que não contradizem as observações.

 O ser humano é um animal da espécie primata bípede, tem um cérebro altamente desenvolvido, tem a capacidade do raciocínio abstracto, da linguagem, da introspecção e da resolução de problemas, da comunicação verbal, gestual e escrita, dotado de grande curiosidade e capaz de inovações no campo das ideias, da arte, da literatura e da ciência, características que não vemos, pelo menos tão bem desenvolvidas, noutros seres vivos.

Desta forma, achamos lógico dizer que, muito provavelmente, o homem é o ser vivo mais “desenvolvido” do planeta.

 Sou quase ignorante dentro da ciência da evolução das espécies e da antropologia. Por isso me interessam estas coisas em que outros sabem muitíssimo mais do que eu, mas acima de tudo, sou uma pessoa com uma obsessiva necessidade de encontrar a verdade no que quer que seja, não pactuando, de forma alguma, com aquilo que pretenda avançar por cima da minha razão. Daí esta grande dúvida que sempre me acompanha: Será o homem o ser mais desenvolvido da terra? Parece muito provável que o seja, mas poderá não ser.

 Richard Dawkins é, muito provavelmente, um dos maiores intelectuais e dos maiores investigadores e cientistas do século XX. Pelo que dele tenho lido e pelo que sobre ele se tem escrito, não tenho a mais pequena dúvida de que assim é. Daí eu entender que é ele a pessoa em quem mais confio para me ajudar nas minhas dúvidas. Todavia, o assunto é de tal modo complexo, que eu me entretenho a abordá-lo pela rama, mais não fazendo do que apenas chamar a atenção para tão interessante fenómeno.

 O mito da Grande Cadeia do Ser que vem da idade média, e que dominou as mentes dos homens até Darwin, resulta do conceito de uma escada com Deus no cimo, depois, por ordem descendente, os arcanjos, várias categorias de anjos, os seres humanos, os animais, as plantas e as criaturas inanimadas, isto é, abaixo do degrau divino, os animais, tidos como “superiores” e “inferiores”. As expressões “animais superiores” e “animais inferiores”, não se integram, segundo Dawkins, no pensamento evolucionista.

 É um disparate imaginarmos, diz ele, os animais numa espécie de escada, e daí concluir-se pela designação de superiores e inferiores. Pode e deve imaginar-se inúmeras escadas, não correlacionadas entre si. Pelo menos até ao mais próximo antepassado comum, zona em que as escadas desapareceram, acrescento eu. Ele diz, por exemplo, que achamos que os chimpanzés são animais superiores e que as minhocas são animais inferiores, e isto para nós sempre foi claro, como parece claro que a evolução o explicará, mas não explica. É verdade, num outro exemplo, que os mamíferos têm cérebros maiores do que as salamandras, mas possuem genomas menores do que algumas delas. E, com certeza, os exemplos não mais acabarão.

 Diz ele ainda que os humanos, ao contrário do que muita gente pensa, não descendem dos macacos. Partilhamos o mesmo antepassado comum com eles, e esse antepassado comum terá sido muito mais parecido com um macaco do que com um homem. Houve um período de tempo em que as duas linhas foram divergindo gradualmente do antepassado comum. E pergunta, porque havemos de escolher os humanos como padrão para julgar os outros organismos? Não há uma justificação evolucionista para a assumpção comum de que a evolução está “dirigida” para os humanos ou que estes são “a expressão suprema da evolução”.

 Todas as espécies, sem excepção, partilham um antepassado comum se recuarmos suficientemente no tempo. O termo “mais primitivo” significa apenas que este ramo tem mais semelhanças com o antepassado, isto é, sofreu menos modificações, o que não significa, de modo algum que se considere “inferior”. A palavra “primitivo” no sentido de “antepassados semelhantes” não significa “simples” ou “menos complexo”. Um animal pode ter um sistema nervoso menos primitivo do que outro, mas ter um esqueleto ou outros órgãos mais primitivos e vice-versa.

 Claro que nós, e isto cogito eu, observamo-nos de dentro de nós próprios. Toda a nossa visão sobre o que somos, o que valemos, o que significamos é uma visão antropocêntrica, uma visão de dentro de nós para dentro de nós e não de fora para dentro, o que torna quase impossível a neutralidade do nosso parecer e do nosso entendimento. E digo quase, porque acredito no poder da razão humana para ultrapassar, ainda que a medo, a interface que o projecta na dimensão universal.

Comments

  1. Carlos Loures says:

    É uma questão muito pertinente a que aqui colocas. Um amigo que já partiu, e ao qual dediquei um texto, o Professsor Germano Sacarrão, catedrático da Faculdade de Ciências de Lisboa, grande amigo de Edgar Morin, defendia um conceito de antropologia que não isolava o homem da sua condição animal, articulando sempre o biológico com o antropológico. Costumava dizer que não era legítimo considerar que o homem era mais inteligente do que outra espécie. Cada espécie tem o tipo de inteligência de que necessita para sobreviver, pelo que não era, segundo ele, legíitimo estabelecer critérios valorativos entre espécies diferentes. A avaliação da inteligência tinha que ser feita de forma intraespecífica. Comparar uma galinha com um gato era um disparate, dizia. Muito interessante o teu texto. Sendo uma temática em que sou leigo, apaixona-me.


  2. Eu também sou leigo, Carlos, como sou leigo em tanta outra coisa, mas isso não impede que a gente se atreva a tentar discorrer sobre coisas que gostaria de saber. Ainda que por vezes possa sair alguma asneira, que eu assumo com toda a humildade se me demonstrarem que o é. Dizia a gente da minha terra que de homem para homem não vai força de boi. Eu extrapolo este ditado para o campo intelectual. Sabendo que há quem tenha conhecimentos muito específicos que outros não têm, não são super-homens, ao ponto de não podermos abordar os assuntos em que são especialistas. Sempre com o intuito se aprender mais alguma coisa e não com o fim de debitar sabedoria. Os assuntos da evolução e da neurobiologia são fascinantes.


  3. É exactamente isso. Cada espécie tem o tipo de desenvolvimento de que necessita para sobreviver da melhor maneira possível dentro do meio em que está inserido. Por isso encontramos na natureza, como todos conhecemos, as formas mais variadas de esquemas de sobrevivência, algumas tão originais, tão “inteligentes”, tão interessantes, tão fascinantes, tão inimagináveis que ficamos embasbacados. E tão diferentes das do ser humano, que não é nem pode ser legítimo compará-las.

  4. Luis Moreira says:

    Eu peço humildemente desculpa por me intrometer em conversa tão interessante, mas a verdade é que o que mais me intriga, nisto tudo, “é a consciência da vida”, isto é, haverá vida para um animal? Que um animal tem sentidos e se calhar sentimentos, parece-me razoável, mas faz ele ideia do que se passa à sua volta? Para um animal uma “cadeira” existe ? ou é só um impecilho que tem que evitar? Nessa perspectiva, o que nos separa, muito mais que a inteligência que, como muito bem dizem, não é comparavel, é a vida. Social, cultural…


  5. Caro Luis, se isto fosse o b-a-ba, não estaríamos aqui a gastar tempo com a questão. Eu penso que não podemos considerar o homem como referência de nada, em termos valorativos, no meio dos animais e dos seres vivos, embora possamos descrever algumas diferenças que entre eles notamos, e que, dentro das capacidades da nossa espécie, conseguimos identificar. Se nos colocarmos numa galáxia e olharmos cá para baixo, e pudermos ver ao longe muito longe estes bichinhos a rabiar na terra, entenderemos melhor isto que eu estou a dizer. Eu penso que, tal como acontece na espécie humana, cada espécie tem a “sua” noção de vida e de morte, a “sua” noção de defesa contra as ameaças à vida e à sobrevivência. E quanto à cadeira, que nada diz, particularmente, a qualquer espécie, a não ser por exemplo a um cão ou gato domésticos, julgo eu, já pensaste quantas “cadeiras” haverá no mundo de tantos milhões de espécies que tu e eu não conhecemos, não sabemos o que são e nem imaginar podemos? Gostaria de ouvir o Carlos Loures neste ponto.

  6. madalena says:

    do ponto de vista da Terra é até o menos desenvolvido dado ser o que menos se adaptou ao ambiente , um coitado de um bicho que precisa de imensas coisas para viver , à excepção dos bosquímanos e alguns mais assim.
    de outro ponto de vista pode ser considerado o mais desenvolvido dado adaptar o meio a ele , só que o estraga todo…e parece que não é nada feliz , dá ideia que lhe falta sempre alguma coisa.

  7. Luis Moreira says:

    Caro Adão, o que eu quero dizer com a cadeira, é que para um animal “não há” cadeira. É por não terem essa “consciência” que os gatos não são religiosos…não estou a dizer católicos, nem cristãos,nem..estou a dizer que não precisam de religião. E voltamos ao ínicio…

  8. Carlos Loures says:

    Há um conto muito interessante, não me ocorre o nome do autor, que apresenta uma visão do mundo da perspectiva de um gato. Claro, que é uma história nem benhuma base científica, mas faz-nos pensar que cada espécie vê uma mesma realidade de acordo com parâmetros próprios e, portanto, essa mesma realidade assume contornos diferentes. Os estudos de Jane Goodall, por exemplo, demonstram-nos que a sociedade dos chimpanzés se organiza de uma forma complexa, implicando regras sociais muito específicas para cada tipo de relação (a materno-infantil, por exemplo). Estando a falar do primata mais próximo de nós, mesmo assim existem diferenças grandes, óbvias. A questão é: será que o chimpanzé se sente inferior ao homem ou, pelo contrário, pensará: «Estes tipos pelados estão perto da perfeição – são quase tão vivaços como nós».

    • Luís Moreira says:

      Exacto, isso leva-nos a uma questão que, inadvertidamente, tu e o Adão sempre evitam. Tendo os animais vida própria, visão própria, só o homem chega à cultura e à religião, e no meu b-a-b isso quer dizer que só o Homem tem consciência da sua existência. O resto, pouco ou muito, é partilhado.

  9. maria monteiro says:

    Mas Luís, os gatos no Antigo Egipto eram adorados como se fossem Deuses, matar um gato era punido com pena de morte,…. depois tudo foi mudando e até se comem gatos

  10. Luis Moreira says:

    …isso leva-nos, inadvertidamente,…

  11. Adão Cruz says:

    Caro Luis, quando eu digo, se isto fosse o b-a-ba, quero dizer apenas que se isto não fosse tão complexo, nós veríamos as coisas muito mais claramente, tu, eu e todos nós, Como não é, nós vêmo-nos ensarilhados no meio de tudo isto, Quanto à cultura e à religião, sei lá eu qual é a cultura e a religião das outras espécies! Quanto ao que diz o Carlos Loures, creio que os chimpanzés não são os parentes mais próximos, dado que divergiram a partir do nosso antepassado comum. E não há parentes próximos em duas linhas divergentes. Os nossos parentes próximos são muitos mas já não existem há muito tempo, foram ficando para trás na curva da evolução. Há imensos fósseis sem “elos em falta” que o atestam, o que não acontece em relação ao chimpanzé, em que os elos de ligação ao antepassado comum são muito escassos. Julgo que não estou a dizer asneiras.

    • Luís Moreira says:

      O que quero dizer é que quando começamos a pensar nestas coisas é a cultura e a religião que fazem a diferença. Ora, sem uma delas o homem fica mais pobre. A componente espiritual é que é a verdadeira caraterística distintiva como, aliás, bem mostras no teu texto.
      Isso não alinha com a posição que tens em relação à religião, tal como não alinha com a posição do Carlos.A vossa tentativa de mostrar que na imensidão da vida o homem não é nada, foi o que levou o Homem a erguer-se espiritualmente.

  12. Adão Cruz says:

    Os chimpanzés são a espécie viva mais semelhante à nossa, mas não são nossos parentes próximos. Quando muito, parentes muito afastados,

  13. Adão Cruz says:

    Melhor dizendo, os chimpanzés são dentro dos primatas, o ramo mais semelhante ao nosso…mas não são nossos parentes próximos

  14. Carlos Loures says:

    Luís, interpretaste mal, creio eu o que o Adão e eu queremos transmitir – para a Humanidade, o homem é tudo, a raiz de todas as coisas. O que temos estado a dizer é que no planeta Terra (e no Universo então nem se fala) há outras dimensões e outras realidades que, coexistindo com as nossas, não obedecem aos seus princípios – ou seja, a Terra não é propriedade do homem – temos de respeitar aqueles que connosco coabitam, pois têm tanto direito como nós a cá estar. O conceito de desenvolvimento não constitui um valor absoluto aplicável a todas as espécies. Para cada espécie uma escala e, nessa medida, justifica-se plenamente a questão que o Adão coloca: será que o homem é o ser mais desenvolvido do planeta? Adão, o exemplo que dei do chimpanzé, podia tê-lo dado com outro animal qualquer – o universo de qualquer animal é aquele que interage com a sua existência. Quanto à religião, Luís, sendo uma forma de cultura, foi ab initio uma forma de explicar fenómenos que os conhecimentos científicos não abarcavam. É um fruto das lacunas da razão.

  15. Luis Moreira says:

    Claro que o Homem faz o papel do prepador que é sempre o papel do mais forte. A cultura e a religião são irmãs no sentido de elevar o homem à compreensão, o que não acontece com mais animal nenhum. Aí é que está a diferença única!

  16. madalena says:

    a consciência ( e o medo ) da morte é o que explica a religião e muitas manifestações culturais, penso que ( não tenho certeza , sabe-se lá ) mais nenhum animal tem consciência da morte. mas já li que alguns primatas têm assim uma espécie de lugares sagrados ( dizem os investigadores).
    e muitos animais têm uns hábitos que quase parecem cultura , tipo golfinhos e elefantes , formigas , abelhas e tal.

  17. Adão Cruz says:

    Como podes dizer, Luis, que os animais ou outros seres, não têm compreensão ou «consciência», isto é, não entendem os fenómenos que os rodeiam, quando os biólogos nos mostram os maravilhosos e interessantíssimos meios que eles usam nessa «compreensão?» Penso que não há nenhum biólogo que te permita tal afirmação. O que acontece é que os seus meios de compreensão são diferentes dos do homem e dos de cada um dos outros seres vivos, por vezes extremamente e maravilhosamente diferentes, para não dizer, talvez, mais «inteligentemente» diferentes. Não tens, como eu não tenho, nem provavelmente nenhum de nós, capacidade de saber se são ou não, proporcionalmente, mais sofisticados e importantes para a sua sobrevivência, do que os meios de compreensão utizados e desenvolvidos pela nossa espécie. O grande mal está em que é muito difícil sairmos de dentro de nós mesmos.

  18. madalena says:

    Lembrei-me de uma história que li ( era coisa de investigadores in loco ) e penso que vai gostar de saber . não sei contar com detalhes e não consegui encontrar a fonte , de aí o meu coment retrasado , mas é espantosa para quem desdenha de animais “inferiores.” . algures , há uns macacos que mastigam certo tipo de folhas e fazem cataplasmas que colocam em feridas . E curam-nas!!! até sabem de medicina popular , não é? como se atrevem a dizer que não têm consciência do mundo que os rodeia se até sabem quais ervas mastigar?

    • Luís Moreira says:

      Madalena, eu tambem li isso e vi programas na TV que mostravam que os animais sabem que plantas devem comer para curar determinados problemas. E não é preciso ir muito longe. O cão, todos os cães, quando estão com “prisão de ventre” comem erva. Já reparou? Em contrapartida o cão ou vive segundo o dono, segundo uma hierarquia ou à deriva ,como os cães de rua. E há animais que utilizam “ferramentas”, como seja os gorilas com uma palhinha para tirar as formigas dos buracos, ou as aves “quebra-ossos” que sobem a grande altura, para deixar cair os ossos das presas e assim conseguirem comer a medula do osso.Mas nenhum tem consciência, por forma a dar sentido à vida.

  19. LuHan says:

    Minha teoria é que na verdade os animais se desenvolveram tanto que chegaram num ponto que não faz mais sentido raciocinar e questionar sobre a vida, apenas sobreviver e fazer parte de uma cadeia alimentar, já é o bastante para nos dizer que a vida na verdade é ”chata” quando se tem consciência dela. o ser humano é uma sub-espécie que ainda não se desenvolveu completamente para fazer parte da verdadeira massa vital.
    Nós estragamos esse planeta com bilhões de pensamentos, ideia, culturas… saber a verdade é tudo o que buscamos, questionar sobre a vida e o desenvolvimento humano e animal é muito interessante! Temos que respeitar o pluralismo de ideias e buscar cada vez mais o conhecimento, já que fomos feitos para isto.

  20. Ítalo says:

    Muito bom o artigo.
    Achei muito interessante.

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