Clube dos Poetas Imortais: Ernesto Sampaio (1935-2001)

Este é o último texto desta série, na qual privilegiei a presença de amigos e de poetas estrangeiros de língua portuguesa, pouco divulgados entre nós. Aglutinando esta a outra série, «Poemas com história», começarei em 2010 a série «Poesia & etc.», onde me debruçarei sobre poetas, vivos ou falecidos, eruditos ou populares, e, de quando em vez, um poema meu, de preferência inédito – sempre com paleio explicativo. Falarei também de poetas que nunca escreveram poemas. Digamos que o «etc.» do título é muito abrangente. Comecei este clube com o António José Forte e termino-o com outro poeta surrealista – Ernesto Sampaio.

Conheci o Ernesto Sampaio no café Gelo, em 1958. Na tarde de 16 de Maio eclodiram motins por ocasião da chegada a Lisboa, vindo da triunfal visita ao Porto, do general Humberto Delgado. Já houvera confrontos na estação de Santa Apolónia e repetiram-se, com maior violência, quando o general chegava à sede da candidatura, que funcionava no Teatro Avenida. No meio da refrega, encontrei-me lado a lado com o Ernesto Sampaio que conhecia, como já disse, do Gelo. E lá andámos na faina do arremesso de pedras, nos avanços e fugas – o trivial, nestas coisas. Já anoitecia, quando chegámos ao Gelo. Contámos aos outros, que tinham ficado à mesa do café a ouvir os rumores dos confrontos, o que se passara.

Ficámos com uma relação boa, embora um pouco formal (nunca nos tratámos por tu). Ele era uns anos mais velho e isso, naquelas idades e naquele tempo, tinha alguma importância. E talvez não fosse só pela idade – o Ernesto era de uma erudição que na altura me atemorizava. Foi a ele que confiei a primeira leitura de uma tradução que fizera de um texto de Breton. Frequentara o liceu Charles Lepierre, sabia bastante de francês, mas a tradução, que me apressei a deitar fora, estava, por certo, horrível, escolar. Enquanto a lia vi que ele se esforçava por não se rir. Quando acabou a leitura, disse-me: «Bem, tem umas infidelidadezitas, umas acepções certas, mas mal escolhidas, soluções demasiado literais… mas assim até fica mais surrealista!» Percebi logo que a tradução estava péssima e desatei-me a rir e o Sampaio que, por delicadeza, estava a conter uma gargalhada, soltou-a.

Tenho uma dedicatória muito amistosa no seu livro «Luz Central», datada de Setembro de 1958, colaborou na minha revista «Pirâmide».Saliente-se que, no grupo do Café Gelo, embora maioritariamente antifascistas, as pessoas tinham pouca paciência para falar de política que consideravam coisa repugnante. Era com o Forte, com o Virgílio Martinho e com o Sampaio que podia desabafar a minha revolta pelo estado de coisas (após a minha segunda prisão, Virgílio referia-me como o «poeta quadriculado», aludindo às grades do Aljube e de Caxias).

Ernesto Sampaio, não recusando o compromisso político-partidário, foi um dos mais lúcidos elementos do movimento surrealista. Depois da minha saída de Lisboa, vi-o poucas vezes mas falámos sempre com amizade. E, depois do meu regresso, vimo-nos também raramente.

Lembro-me, como última, de uma conversa rápida no foyer do Teatro Aberto, durante um intervalo. Criticámos a política cultural, com o cuidado de quem anda em terreno minado – eu sabia-os, a ele e à Fernanda, militantes do PCP; eles sabiam-me «esquerdista» – não queríamos ofender-nos. De forma que a nossa última conversa foi travada num terreno que sabíamos comum – o da condenação da perniciosa influência dos americanos na cultura europeia.

Ernesto Sampaio nasceu em Lisboa em 10 de Dezembro de 1935 e faleceu, também em Lisboa, em 5 de Dezembro de 2001. Um ano antes, morrera a actriz, da companhia do Teatro Nacional de D. Maria II, Fernanda Alves (1930-2000), sua mulher. Quem privava com ele de perto, atribui a sua morte ao desgosto que sofreu pela perda da Fernanda. Publicou Luz Central (1957), Para uma Cultura Fascinante (1958), Antologia do Humor Português (1964), A Procura do Silêncio (1986), O Sal Vertido (1988), Fourier (1996), Feriados Nacionais (1999), Ideias Lebres (1999) e Fernanda (2000). Escolhi um pequeno excerto de Luz Central, os versos finais de «Um Texto Poético» e o poema seleccionado na antologia de Perfecto E. Cuadrado, (Poesia Surrealista Portuguesa, Edicións Laiovento, Compostela, 1996):

Texto Poético (excerto final)

Noite sem rasto guia-me até ao meu destino
escondido na solidão das ruas
inconcreto na vastidão das horas
onde tu existes misteriosa e nocturna
no teu perfil de bruxa e de rainha
apátrida e nostálgica
deslizando no vidro da madrugada
azulando de raios gelados o Dia que nasce
viva e oculta
cada vez mais viva e oculta
cada vez mais única de amor humano
com a tristeza das luzes marítimas
com a gravidade de quem parte
suavemente para sempre

You are welcome to Elsinore

O fogo despe-se cada vez mais cheio de alegria alisado no vento de cada
poro da aurora
Começa-se a abrir o Sol em gotas de sangue tatuadas de esperma
Há uma flor de lava no fim de cada braço no fim de cada perna no fim
dos tempos
E uma chuva de cinzas e de espinhos caminha a meu lado onde começa o
mar das grandes lanças de água
É todo o teu ventre a cantar nas minas da catástrofe de noites sem
véus de rios que começam a vida de gestos no crepúsculo
São os teus olhos voando sobre os frutos da tempestade
É a cabeleira da Terra envenenando o ar de beleza ao ritmo alucinado
com que abres as pálpebras deixando sair os lagos da tua infância e a luz louca da crisálida que nos gerou dissimulada em cada pedra em cada cama onde morremos juntos
Chicote ronronando por cima de nós em noites desmedidas na coragem
de ver nascer uma nova manhã e uma nova estrada e uma nova boca incrível
Monstros sem ordem génios galopando na respiração estrelada dos meus
pulmões Primaveras a recolher numa outra vida numa outra vida amante
Olhar suculento mestre do horror e da audácia gelada em cada canto em
cada flor de fumo colada aos ossos dum horizonte inocente e inesgotável
Poeira dum astro pré-existente ao nosso espiral dos dias que estreitamos
puros tripas da raiva vegetal que embrulhamos em cada palavra
Fogo perpétuo fruto espantoso de bandeiras negras e vermelhas comboio
que esmaga e canta e ninguém deterá
Fuzis do hálito esbraseado danados embraiados num sinal nos ares num
sinal vermelho
Na cinta a pistola de cada injustiça nas costas a metralhadora da
porrada que nos deram no bolso um chacal a sorrir-nos no sexo tu
Tu meu avião de vinho minha rã no cérebro meu castelo de múmias
minha jovem eterna de mãos de radium minha fonte que enche a boca de estrelas meu grande ventre de movimentos marítimos meu incêndio possuído numa cama de meteoros meu sopro de todas as potências minhas costas de Mar e de Terra minhas coxas de deboche minha mulher de movimentos de fuzilamento de movimentos loucos minha flor de sangue de ferro de esperma minha destruição luminosa minhas nádegas de noite e de loucura MEU AMOR
Habito a lealdade dos presságios
Começo a ser um bom leito para o meu sangue

Comments

  1. Daniel Abrunheiro says:

    Isto dava um livro muito engraçado, acho. Gostei muito desta série.

  2. Carlos Loures says:

    Pois é Daniel, e o editor? Para este tipo de coisas é muito difícil arranjar editor. Um abraço e votos de bom ano.


  3. Carlos, não é fácil. No entanto, com um bom trabalho como o teu e uma boa maquete, pode não ser difícil.

  4. maria monteiro says:

    Sempre que íamos a um casamento era porque os meus pais eram padrinhos de casamento. Houve um, do Fernando e da Fernanda, que finalmente éramos todos apenas convidados. Chegados à Igreja, um dos padrinhos apareceu mas a madrinha tinha adoecido de repente …. bom aí lá foi a minha mãe fazer de madrinha. O padrinho era um senhor muito simpático (dono?) do café Gelo. A partir daí, e durante uns anos, fomos visita de final de tarde do antigo café Gelo.

    • Carlos Loures says:

      Maria – aqui vai o excerto de uma entrevista que o Guilherme Pereira fez ao Luiz Pacheco e onde se explica por que foi o grupo expulso do Gelo:Vou contar-te uma…era um 1º de Maio. Havia uma manifestação muito grande em Lisboa… havia greve, talvez… opá houve mortos e tudo, houve polícias que foram parar dentro do lago do Rossio… aquilo foi a sério… foi a primeira manifestação a sério que houve em Lisboa… depois no dia 8 houve segunda… foi a primeira vez que apareceram carros de água com metilene para marcar as pessoas, tinta que não saía… ele aí apanharam muita porrada, na rua da Madalena, no Largo da Anunciada… então a malta do Gelo, estava lá o Virgílio Martinho, que disse: “o que é que a gente veio cá fazer?” Respondi-lhe: “então a gente veio cá mostrar o casaco… dar porrada? o que é se pode vir fazer…” E de facto estivemos no dia 1 de Maio muito sossegados. Eu sentei-me num cantinho, tinha ao meu lado o pai da Fernanda Alves, que era funcionário do DN, por isso é que o genro aparece no DN, ele estava ao meu lado, também muito choné, e mostra-me a arma que era um canivete com uma coisa deste tamanho… também devia estar o Ernesto Sampaio, o João Rodrigues… ao lado do Gelo havia uma pensão residencial e acho que uma estrangeira qualquer, americana ou inglesa, saiu da pensão para a rua, sabia lá o que se passava, e os gajos vieram atrás da mulher, pareciam verdadeiras feras, ela vinha assarapantada, vieram a sacudir a mulher… disseram: “ninguém se levanta daqui, ninguém sai!” O João Rodrigues tinha ido mijar ao 1º andar, vinha a descer a escada, disseram, “ei você…” E a malta disse: “é daqui! é daqui! é daqui deste grupo que está aqui sentado…” Quando os gajos iam a sair, já de costas voltadas, não sei porque carga de água começámos “uhuhuhuhuhuh”. Quando a malta faz o “uhuhuhuhuhu” os gajos regressam e começam a dar porrada à maluca… eu estou no canto, vem um gajo a distribuir cacetadas… eu aponto para os óculos e fizemos um passo assim de dança, ele para um lado eu para outro, depois começou a dar porrada num gajo que estava sentado e eu pirei-me, pirei-me para outro canto… nós não podíamos sair… Havia uns açucareiros de metal, que eram assim uma meia esfera de metal, cheios de açúcar, aquilo era chato, os açucareiros voaram, estava um gajo com a pinha toda partida, cheia de sangue e de açúcar… havia lá um gajo que era careca, diziam que era bufo, levou porrada dos polícias. O gerente, que era um gajo chamado Sequeira, um gajo muito simpático, foi chamado à esquadra nacional e perguntaram-lhe: “quem são esses gajos?”. “Ah, aquilo é malta, estudantes, artistas, pintores, poetas…” “Não quero lá esses gajos”. De maneira que quando voltámos, 3 ou 4 de Maio, o gerente disse: “vocês não podem estar aqui”. Fomos expulsos do Gelo. Foi quando a malta se passou para o café Nacional, um café enorme, que agora já não há, que era lá ao fundo, na rua 1º de Dezembro

  5. Carlos Loures says:

    Não sei, Maria, se esse senhor que era o mesmo que eu conheci no fim dos anos 50. Quando saí de Lisboa em 61, tudo corria bem, pois tirando um ou outro acidente de percurso, éramos gente bem comportada. No entanto, segundo o Luiz Pacheco, lá por meados dos anos 60, o grupo dos surrealistas (cuja composição se alterara) foi proibido de entrar no café. Não me é difícil imaginar porquê – bebedeiras, distúrbios e surrealices do género. Se conseguir recuperar essa entrevista do Pacheco, forneço-lhe dados mais concretos.

  6. Carlos Loures says:

    Será que o «tal gajo chamado Sequeira, um gajo muito simpático», será o mesmo de que falávamos?

  7. maria monteiro says:

    logo à noite vou procurar fotografias do casamento

  8. Carlos Loures says:

    Maria, vi as fotografias e o senhor forte, de óculos, parece-me ser o senhor Sequeira, o gerente do Gelo. Mas, quase 50 anos depois, posso estar enganado. Em todo o caso parece-me ele e as datas, 60, 61, são coincidentes. Obrigado.

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