Porquê reinventar a roda? – A reintegração do Galego no universo da Lusofonia (Memória discursiva)

Numa sessão organizada pela Associação Galega da Língua, realizou-se em Santiago de Compostela, no dia 27 de Janeiro passado, o lançamento do livro “Jaboc”, do escritor brasileiro Otto L. Winck, prémio da Academia de Letras da Baía. A obra, cujo título é um anagrama de Jacob, o autor aborda o processo criativo e a tortuosa relação arte-literatura/literatura-arte, relação inserida num contexto social específico, pois, como o autor reconhece, existe algo de autobiográfico na construção da personagem central do livro. Uma das minhas fontes, foi o Portal Galego da Língua onde se publicou uma reportagem sobre este evento.

Contudo, não é do romance de Winck que me vou ocupar hoje, mas sim do que foi dito nesta animada sessão de lançamento, com vigorosas intervenções do autor e apaixonadas réplicas vindas do público. Presidindo e intervindo estava junto a Winck o intelectual galego Carlos Quiroga. Foi bolseiro de investigação da Fundação Calouste Gulbenkian e do ICALP, actual Instituto Camões. Actualmente é professor titular da cátedra de Literaturas Lusófonas na Universidade de Santiago.

Falou-se sobretudo da cultura galega e da sua inserção no universo lusófono. Diga-se que Otto Winck está a preparar a sua tese de doutoramento com um tema muito interessante – «a construção da identidade nacional galega», estando por isso muito identificado com os problemas culturais da Galiza. O vídeo é uma pequena amostra do que se passou nessa sessão tão vivamente participada:

O escritor brasileiro incentivou os galegos a sentir orgulho pela sua língua e cultura e elogiou a iniciativa que em 21 de Janeiro levou à realização de uma manifestação sob a consigna “Na Galiza, em Galego!”. Comparou esta luta pela prevalência da geleguidade à luta que nos Estados Unidos os negros travaram em prol da sua afirmação como cidadãos de corpo inteiro.

Referiu-se à momentosa questão do Acordo Ortográfico. Referindo-se às diferenças entre o galego e o português, reduziu-as à sua insignificante dimensão real, salientando que a questão da ortografia é, sobretudo, de natureza política. E, nesse aspecto do problema, disse «eu sou reintegracionista. Porquê reinventar a roda?».

Lembremos que numa entrevista de Março do ano passado, Uxía Senlle, a grande cantautora galega, afirmara ser «um grave erro estratégico não afirmar que galego e português são a mesma língua».

Pontes de entendimento estendem-se para que galegos se juntem à grande família da Lusofonia. O atávico receio dos portugueses relativamente a tudo o que nos vem do estado espanhol (não se temendo, contudo, a crescente expansão dos interesses económicos espanhóis no nosso País), a medrosa acção da política cultural dos governos portugueses e o repúdio de alguns políticos galegos pela independência cultural do seu povo (com medo que, atrás dessa autonomia cultural, venha outro tipo de independência…), impede a construção dessas pontes.

Entretanto, vão avançando com esse tal Eixo Atlântico do Noroeste Peninsular, que segundo se pode ler num site específico «é uma associação transfronteiriça composta, actualmente, por 18 cidades membros, sendo 9 do Norte de Portugal (Braga, Bragança, Chaves, Guimarães, Peso da Régua, Porto, Vila Real, Viana do Castelo e Vila Nova de Gaia) e 9 da Galiza (Corunha, Ferrol, Lugo, Monforte de Lemos, Ourense, Pontevedra, Santiago de Compostela, Vilagarcia de Arosa e Vigo). Tem como objectivo fundamental o desenvolvimento económico, social, cultural, científico e tecnológico das cidades e regiões que lhe pertencem. Estas 18 Cidades configuram o sistema urbano da Euro-região Norte Portugal-Galiza e pretendem contribuir para o desenvolvimento do seu espaço regional». Esta tal associação transfronteiriça, «lidera as reflexões sobre os futuros modelos de cooperação territorial e os seus instrumentos de financiamento, na publicação, conta com peritos galegos e portugueses, especialistas em cooperação».

Gostava de ver isto mais bem explicado. Porque, à primeira vista, tem vários efeitos perversos, por redutores:

a)– Transforma a nação galega numa região. Ou melhor, reforça a tese centralista de que a Galiza é uma região do estado espanhol;
b)– Uma parte do território português é associado a essa região «de Espanha», criando a tal «Euro-região» (seja lá isso o que for…).

Dirão: mas Isto nada tem a ver com a questão cultural de que Winck, Uxía e muitos outros defendem. Pois não. Mas oxalá que não seja um impedimento ou mesmo um «contraveneno», um antídoto contra essa tal união que, tantos galegos e portugueses desejam. Oxalá.

Comments

  1. Nuno Castelo-Branco says:

    Parece-me formidável, desde que ninguém se lembre de reivindicações territoriais e outras loucuras do género. Se os galegos se quiserem separar de Espanha, que o façam por sua conta e risco. Esperámos mais de oitocentos anos e tiveram oportunidades que não aproveitaram: 1385, a crise da sucessão “Beltraneja- ou sabel a Católica”, a vitória de 1640-68, 1810, 1932, etc. Não nos arranjem sarilhos.

  2. Carlos Loures says:

    Os nossos irmãos galegos são muito cautelosos. As oportunidades históricas para se tornarem independentes têm sido muitas e não as aproveitaram. Esta coisa do «Eixo Atlântico» parece-me uma habilidade de Madrid para atrair a adesão de municípios portugueses à tal «euro região». Oxalá eu esteja enganado.

  3. Nuno Castelo-Branco says:

    O problema é que não está nada enganado, Carlos. Está certíssimo como sempre. Os espanhóis querem agora atrair os portugueses papalvos com as ficcionadas “regiões trans-fronteiriças europeias” e neste aspecto, a Andaluzia e a Extremadura são particularmente atrevidas. A Galiza não lhes fica atrás. Pero el oro tudo (?) puede comprar…

    Já assim foi em 1580 e viu-se o resultado. Se voltar a acontecer, não existirá outro 1640. Sem classes dirigentes, sem império, sem moeda e sem povo com força anímica, será impossível.

  4. Carlos Loures says:

    A única coisa que se pode fazer é denunciar a manobra. Porque, imagine, que há quem no Norte, anseie unir-se à Galiza e «tornar-se independente de Portugal». Peço a sua atenção para o meu post de terça-feira.

  5. Nuno Castelo-Branco says:

    No norte, há quem ainda não tenha reparado na realidade actual. Consultem-se os dados e região a região, verifique-se a contribuição de cada uma para o PIB. Terão uma surpresa. Mas como isto anda, já nada nos poderá admirar.

  6. Carlos Loures says:

    Bem, quanto ao PIB, dizem que é um dos efeitos perversos do centralismo – as sedes das empresas, mesmo das que funcionam no Norte, estão em Lisboa. Isto é, em parte, verdade. Mas o principal mal do Norte, no campo económico, é a mentalidade de uma grande parte dos empresários, gente sem escrúpulos que emprega mão de obra não qualificada, infantil se for preciso, desde que permita um lucro rápido e fácil. Unidos a uma Galiza, mais desenvolvida, as assimetrias iriam acentuar-se, traduzindo-se num índice de desemprego muito mais elevado do que o actual. Mas nisto os «separatistas» não falam.

  7. JoãoV says:

    A maioria do galegos despreza os portugueses… são descendentes dos castelhanos que ‘invadiram’ a Galiza nos chamados séculos escuros. São esses que mandam hoje em dia. Caracterizam-se por serem racistas, egocêntricos, orgulhosos e atrasados mentais… por isso não há que temer, até os comemos se for preciso.

  8. Daniel says:

    Sou brasileiro, amo Portugal também, que é irmão do Brasil, mas não da GALIZA! Sou contra a reintegração dos idiomas. Na GALIZA, o galego; em PORTUGAL, BRASIL e PALOP o português!!!


    • Daniel, penso que devias amar saber que podes ir a Vigo ou Santiago de Compostela e falar com os galegos em Português sabendo que te compreendem, e compreendes a eles quando falam galego.
      Abraço a todo o espaço onde se fala e pensa em português!

  9. Otto Leopoldo Winck says:

    Olá, sou o Otto aí de cima. Descobri agora esse blog – e fico lisonjeado com a amável menção a minha pessoa.
    Com efeito, quando estive na Galiza pude me comunicar com todos perfeitamente em português.
    Quando percebiam que eu era estrangeiro, punham-se a falar em espanhol. Aí eu dizia: pode falar comigo em galego, que eu sou brasileiro.
    Parabéns pelo blog. Vou acompanhá-lo.

  10. Matheus Donato - Recife, Brazil says:

    Torço pela reintegração dos galegos ao universo português, assim como torço pela independência mais do que justa do País Basco e da Catalunha que assim como a Galiza não é Espanha. Incrível como o estado espanhol se recusa a ideia da realização de plebiscitos. Sigam o exemplo do Canadá, onde a reinvindicação do povo do Quebec foi atendida e já foram realizados 3 plebiscitos tendo a população votado sempre em permanecer canadense.

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