Os alunos mataram o professor de Música. Coitadinhos dos alunos

As declarações do Director-Regional da Educação de Lisboa à saída da Escola de Fitares são o retrato ideal das razões do estado actual da educação em Portugal: o professor era frágil emocionalmente, tinha problemas, mas os alunos, que até são bons alunos, têm de ser protegidos, coitadinhos, que é para não se sentirem culpados. De resto, já estão psicólogos a tratar do assunto. Quanto ao professor, parece que no seu estado actual não precisará muito de psicólogos.
Deu nisto a política educativa de Maria de Lurdes Rodrigues, que neste momento tem as mãos sujas de sangue. Não devia conseguir dormir de noite até ao fim dos seus dias. Um conjunto de medidas e de discursos, ao longo dos anos, que só tiveram como objectivo denegrir a classe dos professores junto da opinião pública e retirar-lhe prestígio e credibilidade.
As alterações ao Estatuto do Aluno, conjugadas com o novo regime de Gestão Escolar, fizeram o resto. Hoje em dia, a escola não tem poder para castigar de imediato um aluno indisciplinado, quando antes, de acordo com o Estatuto promulgado pelo ministro David Justino, o Presidente do Conselho Executivo podia suspender imediatamente um aluno até 5 dias. Hoje em dia, o Conselho de Turma pode nem sequer ser ouvido.
Para além disso, o Director da escola está hoje nas mãos dos Encarregados de Educação, que estão sempre em maioria no Conselho Geral, mesmo que não o estejam em teoria. A qualquer momento, os Encarregados de Educação podem dar cabo da vida de um Director e é por isso que mandam nas escolas. E como a maior parte dos nossos Directores não tem a fibra suficiente para pôr os pais no seu devido lugar, recebe 1, 2, 3, 7 queixas de um professor e acaba sempre por dar razão aos alunos. Ou não faz nada, o que vai dar ao mesmo.
Sei do que estou a falar.
«É da idade», dizia um dos alunos do 9.º B com mais participações disciplinares. Aos meus meninos de 9.º ano, eu explico-lhes gentilmente, logo na primeira aula, o que acontece a quem tem problemas de comportamento provocados pela idade. O professor de Música não foi capaz disso? Não é justificação para que pareça ser o culpado por ter morrido.
Não, não foi ele o culpado, mas sim um bando de 25 energúmenos que, por não terem recebido em casa a educação suficiente, cresceram com um sentimento de impunidade e de irresponsibilidade. E aí, a culpa já não é deles.

Comments

  1. Carlos Loures says:

    Tens razão, Ricardo. A permissividade, o laxismo, o não querer estar contra os jovens, dá em coisas assim. Os alunos não serão todos energúmenos – às vezes, basta haver meia-dúzia deles para que os restantes (por mimetismo, medo, fraqueza de carácter…) os sigam. Uma tragédia, num subúrbio que só por si já tem todos os ingredientes para ser cenário de tragédias. Mas, a ex-ministra terá mais responsabilidades do que os que a antecederam ou do que a actual ministra? Penso que não. É uma cadeia de cumplicidade em que ninguém quer dar o tal murro na mesa e dizer Basta! A tentação totalitária nasce neste caldo de cobardia das «democracias».


  2. Toda a razão do mundo, a educação falta em casa…
    Que falta fazem os tempos antigos, e diga-se que não sou assim de tempos tão antigos…
    Não sou professor mas como formador já tive formandos que me deram problemas e tinha que os mandar apanhar ar, as idades eram entre os 11 e 15…
    A minha vontade era de formar os pais, mas se o tentasse fazer ainda me tratavam mal…

  3. Ricardo says:

    Sim, Carlos, a ex-ministra tem muito mais culpa do que todos os anteriores. O ministro DAvid Justino publicou um Estatuto em que os alunos eram fortemente responsabilizados pelo seu comportamento e em que a Escola podia agir de imediato. Um aluno podia ser suspenso imediatamente 5 dias sem processo disciplinar. Hoje em dia, os professores, logo aqueles que melhor conhecem os alunos, podem nem ser ouvidos.

  4. Ricardo says:

    Ou algo mais simples: segundo o Estatuto de David Justino, os alunos que ultrapassavam o limite de faltas reprovavam o ano. Hoje em dia, podem fazer uma prova de recuperação, que em caso de sucesso anula as faltas dadas. No caso de faltar, o aluno pode sempre fazer noutro dia. Se reprovar, pode repetir a prova… que até pode ser um trabalho para casa.

  5. Carlos Loures says:

    A actual ministra não poderia rectificar os erros da anterior?


  6. Uma vizinha minha, excelente educadora dos filhos, resolveu muito bem o problema do “é da idade”. Quando o filho mais velho começou a levantar demasiado a grimpa, os pais só lhe disseram: olha, meu menino, aqui em casa não há adolescentes, só há crianças e adultos. Agora escolhe”.
    Foi remédio santo.

  7. Luis Moreira says:

    É claro que isto é o resultado da impunidade que grassa na sociedade, não é só nas escolas. Os polícias queixam-se do mesmo, quem tem que exercer a autoridade não tem condições para o fazer, é essa a questão. Até nos tribunais oferecem porrada aos juízes. E porquê? Porque estamos numa sociedade onde ninguem admira ninguem. Onde os que deviam ser o exemplo não passam de aldrabões e de gatunos. Uma sociedade sem exemplos meritórios não pode ter gente responsável.

  8. Ricardo says:

    Pode e deve rectificar os erros da anterior, Carlos. É o que tem feito, eliminando, por exemplo, a categoria dos professores titulares ou as provas de recuperação dos alunos. Aliás, todo o Estatuto do Aluno está em revisão.

  9. filomena says:

    O meu pensamento vai para que o colega descanse em paz, agora, finalmente!
    O que me assusta mais, não são os alunos, os pais ou o poder político. O que me assusta mesmo é a indiferença, a passividade, a cumplicidade de tantos colegas que se “uniram” para não entregarem os objectivos da sua avaliação, mas perante o companheirismo, solidariedade, segurança no trabalho, profissionalismo, espírito democrático, rigor científico… dizem: NADA! A imensa maioria dos professores está, é, cúmplice da imoralidade,da corrupção, a todos os níveis, que se passa nas escolas hoje! Não, não são vítimas do “sistema”. São O sistema!

  10. Luis Moreira says:

    Filomena, mas os seus colegas acham que não têm culpa nenhuma! A escola está nesta estado vergonhoso e os professores acham que nada podem fazer, só seguir e apoiar os sindicatos que têm co-governado a educação com os políticos. Têm tanta culpa como os burocratas que sempre mandaram na educação. O grande contributo dos professores para a melhoria nas escolas é chegarem todos ao topo! É esta a contribuição dos professores. Depois ficam muito espantados por os alunos não os respeitarem. Não os respeitam os alunos nem a sociedade!

  11. filomena says:

    Caro colega Luís, subscrevo o que escreve. E agora? Que fazer? O que me perturba, PROFUNDAMENTE, é não saber o que fazer. Solidão, apenas. Até porque a Terra continuará a mover-se! E nós somos um “nada” neste movimento… talvez, tentar sermos felizes neste ínfimo tempo histórico que nos é permitido existir e actuarmos em conformidade 🙂 … quiçá… não sei!

  12. ricardo says:

    Vi o outro post sobre o assunto, li agora este mais os comentários e estou estupefacto.
    No outro post fiz o seguinte comentário:
    Então o professor não os pôs na rua porquê?
    Já não possível expulsar da sala de aula, com falta injustificada, alunos com este tipo de comportamento?
    Com três faltas não se chumba automáticamente o ano e não se é expulso da Escola?
    As coisas mudaram assim tanto?!

    Bem, neste post já obtive respostas para as minhas questões. Infelizmente as coisas mudaram e de que maneira.
    Tenho dois filhos na Escola e até á data as coisas têem corrido bem, pelo que aqui vejo, muito bem. Acreditem que não falho a nenhuma reunião de pais e nunca tinha ouvido falar no estatuto do aluno, nem nunca me tinha apercebido de tantas mudanças.
    Vivo numa pequena Vila, nos Açores, e talvez por isso …

  13. Fernando Moreira de Sá says:

    Ricardo: Brilhante!!!

  14. Carlos Fonseca says:

    Infelizmente, as transformações de hábitos sociais e a nova ganância, mesmo aquela pequena ganância que para um adolescente é ter a camisola ‘Gant’ e os ténis ‘Nike’, acabaram por atingir também a escola. Ministros, professores, e muitos pais e alunos têm descontruído um sistema, alijando para cima escombros caos e mais cacos. Alguns bem cortantes, como aquele que denunciaste.
    Uma amiga minha, de esquerda, dizia que o ’25 de Abril’ tinha facilitado o acesso ao dinheiro e a bens materiais a maior número de cidadãos, mas não cuidou de promover com igual intensidade a educação, a instrução e a cultura. Na altura, custou-me aceitar, mas hoje penso que ela tinha razão.

  15. Luis Moreira says:

    Pois tem! Numa sociedade onde ninguem respeita ninguem, onde já é normal que ninguem acredite na Justiça, nos professores, nos polítcos, nos pais…anda tudo ao saque, os mais fracos afundam-se. até já é normal um rapaz de 36 anos ganhar 500 000 euros, só porque tem aquele nome? E tenho amigos meus que acham que se não for aquele é outro, o que dizer a quem ganha 1000 vezes menos? Nessa perspectiva todos têm razão!

  16. Ricardo says:

    Pois é, Ricardo, não se chumba por se ter várias faltas injustificadas. O máximo que pode acontecer é fazer uma prova de recuperação para eliminar essas faltas. A ministra Maria de Lurdes Rodrigues assim o quis.
    Pode-se pôr lá fora, claro. Mas no caso concreto, não resolveria nada. O bulyying era dentro e era fora da aula. Todas as aulas.

  17. ricardo says:

    Ricardo, espero que esta ministra faça o que tem a fazer. Ao contrário da Maria de Lurdes Rodrigues, a Dra. Isabel Alçada parece-me uma pessoa bem formada.
    Vamos ver…

  18. maria monteiro says:

    Todos nós sabemos que quanto pior estiver a escola pública mais batem palmas as escolas privadas que se intitulam de salvadoras do ensino, dos bons costumes, da Pátria

    Mas também todos nós sabemos que cada vez mais privilégios e dinheiros têm sido canalizados para instituições privadas que mesmo que sejam sem fins lucrativos o lucro é a sua finalidade oculta quanto às despesas que se fiquem para o” mãos largas” do Estado

    Os dinheiros devem ser aplicados sempre e só no ensino público… multipliquem-se as escolas públicas, criem-se salas de aula com menos alunos, admita-se pessoal não docente em qualidade e quantidade…

    Eu sou das que acreditam que o ensino público tem que ser excelente.
    Um professor não aguentou e suicidou-se pois que sirva de exemplo para todos… que seja levado aos altares do ensino público… ele deu, com a sua vida, o sinal da contestação – ele deu a sua vida pela Escola Pública agora somos todos nós que, ainda vivos, temos que dar continuidade …

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