A minha menina

May Malen, Cambrige, 240310

A neta ri com brincadeiras do avô

Ou talvez, o meu bebé? Menina define uma criança já crescida, que fala, tem uso de razão, sabe usar a sua inteligência, enquanto um bebé apenas quer comer e dormir e estar no colo dos seus pais, especialmente nos braços da sua mãe. Para um bebé, essa mulher adulta que amamenta, é o mel dos seus olhos. Como são de mel, na permanente carícia, as palavras que me são impossíveis de descrever. São apenas sons, quase em silêncio, palavras doces, um permanente olhar para o fruto da sua criação, resultado de dois que se amam com imensa paixão. Nem podia ser de outra maneira. Referi num outro texto meu como os seus pais se tinham conhecido aos cinco anos de idade. Trinta anos depois. Passara um tempo, o rapazito de cinco anos teve de se ausentar da escola onde os dois estudavam as sua primeiras letras, por causa do trabalho dos seus pais e pelo mesmo motivo, voltaram a reencontrar-se já mais crescidos, na mesma escola que lhe transmitira os primeiros saberes.

Os anos passaram, cada um dos adolescentes começou a andar pela vida em sítios diferentes, até que, sem saberem como nem porque motivo, caíram nos braços um do outro, adultos e com trabalho especializado. Ele, hoje pai, a criar imagens para filmes; ela, essa mãe, a minha filha, a especializar-se num mestrado para preservar a Flora e Fauna de diversas partes do planeta, sítios que anteriormente percorrera com os seus pais, e a organizar projectos para a Universidade em que trabalha, Cambridge, do Reino Unido, essa que formou o seu pai até ao doutoramento. Local onde esses pais, desta nova mãe, trabalharam também.

A vida tem as suas surpresas. Camila e Felix, hoje em dia os Ilsley, andavam pelos trilhos dos seus pais. Sob o cuidado dos seus pais, sob o encantamento da alegria de viver que esses pais tinham, sob o encantamento – spell, dizemos em inglês, desses pais, essas fadas que têm a virtude de seduzir. Eu, a minha mulher e vice-versa, Susan e Christoper, são não apenas simpáticos bem como amantes profundos de uma liberdade que lhes permite andarem livremente pelo mundo, com respeito e amor. Um conto de fadas que não podia ter tido melhor resultado que uma rapariga chamada May Malen, essa a nossa neta, de Glória e de mim.

É verdade que posso dizer que tem olhos azuis, (pouco) cabelo ruivo e adora rir, tanto como rebenta a chorar se o que acontece em torno de si, não lhe agrada. As crianças têm as suas manhas, e esta aprendeu uma mania: não suporta os meus óculos. Tive que andar às cegas nos dias em que estivemos juntos, enquanto lhe ensinava brincadeiras com a boca e a língua, essa língua que aprendeu a deitar fora da sua boca para imitar os poucos divertidos som que eu fazia, nada muito agradáveis. Não eram os sons da sua mãe que miava ao amamentá-la; ou esse forte e enérgico pai que com apenas um braço é capaz de a levantar e dar cambalhotas suaves com ela, o que a impressionava, até ao rir final, desta vez, com a língua sempre de fora, aprendida do avô, como mostra a imagem que acompanha este texto.

Silêncio, o seu maior desejo, serenidade, a sua procura, andar de carro e adormecer, outro desejo, ver o pai que está ausente o dia todo, a sua doce espera, enrolar-se no corpo da mãe, o seu mais alto objectivo. Ser tocada por outros? Acarinhada por estanhos, o seu pior desejo, brincar docemente com as suas mãos enquanto as olha com curiosidade, não sabe o que são, é o seu jogo preferido, com profunda concentração.

De teorias de bebés, sou esperto, de Etnopsicologia da infância, um criador, mas uma neta, uma neta…a minha cabeça anda à roda, incapaz de pensar…e olhava e calava e ela ria perante esse desconhecido silêncio de um adulto que não experimenta tocar nem com a ponta de um dedo. May Malen, perante essa forma de se comportar que não sabia entender, gritava e ria…para chamar a minha atenção…

Faz-me falta, é-me impossível teorizar pensando nela. É a minha menina…

Paradoxo dos paradoxos: conheci a Camila no aeroporto de Gatwick, comigo no exílio: conheci a May Malen no de Heathrow.

A vida é heterogénea e, às vezes, semelhante….

Comments

  1. maria monteiro says:

    Que fotografia tão ternurenta

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