Administração Pública: os transparentes somos nós

Independentemente dos juízos de valor que façam ao que irei escrever neste artigo, desde já faço duas reservas: irei escrever a partir da minha experiência pessoal; e existem excelentes profissionais na Administração Pública e não são raridades.

O tema é muito simples, e parte da propalada ideia de que a Administração Pública preocupa-se em ser transparente: recorrentemente quando me dirijo a serviços públicos – principalmente a Conservatórias, Finanças e Tribunais – sinto-me como se fosse chatear alguém. Sou constantemente ignorado por aqueles que, dentro do balcão, tudo fazem para não olhar para mim: olham para o computador, para os papéis, para o chão, para o infinito. Chegam ao cúmulo de desviar o olhar quando, ao encararem-me, se apercebem que os vou abordar, ainda que seja para dizer “bom dia” ou “boa tarde”. Isto, mesmo em serviços em que as próprias chefias são de inquestionável lisura e educação, pelo que nem se pode colocar a possibilidade do “mau exemplo hierárquico”.

Pensava que fosse problema meu, embora, modéstia à parte, não vislumbrasse na minha fisionomia qualquer deformação que justificasse algum tipo de repulsa. Mas falando com outras pessoas – incluindo Colegas -, acabo por constatar que, na verdade, não é nada pessoal (felizmente!), é mesmo institucional: os transparentes somos nós, porque na Administração Pública há quem, pelos vistos, nem nos pode ver.

Comments

  1. maria monteiro says:

    há alguns que parece que fazem um frete por nos atenderem

  2. Luís Moreira says:

    É do piorio, só entrei uma vez na repartição de finanças, era tal o asco que me tinham que passei a pagar a um profissiional para me tratar dos assuntos. São os empregos sem avaliação, sem precaridade, para a vida, carreira garantida…

  3. maria monteiro says:

    na minha repartição de finanças até são simpáticos

    no IMTT, ali junto á Embaixada de Angola, fui lá vezes sem conta e só depois de muito refilar é que me trataram dos documentos … estavam à espera que eu entregasse a um profissional … diziam que era mais rápido 🙂

  4. Luís Moreira says:

    mais rápido e mais caro.

  5. Pedro Rocha says:

    Não concordo e refuto a opinião do nosso bloguista. A administração pública é muito mais do que apenas e só repartições de atendimento, como por exemplo, as últimas certidões que necessitei, solicitei-as pela net e chegaram cá a casa (por ventura o meu amigo ainda vive no séc. XX e quando se dirige (gasta tempo e recursos do planeta) à repartição ou conservatória, os colaboradores estão a tratar dos pedidos que chegaram pela Net e naturalmente não o podem atender imediatamente). Porém, mesmo no atendimento público existe uma melhoria significativa, que quem a ele recorre não deixar de entender, quer o volume, quer a diferenciação de pedidos, a que os colaboradores estão sujeitos que qual um de nós percebe que não será fácil ter uma resposta pronta e rápida como o esforço e o investimento que cada um necessita para domiar as matérias.
    Existe também, por acaso socialistas, um conjunto de lojas do cidadão, onde é possível resolver um inúmero conjunto de situações administrativas e que com pessoal a recibo verde, apenas tratam de entregar e receber pedidos, sendo a parte técnica tratada já nas repartições onde os cidadãos civilmente pertencem.
    Não me alargo mais, e também partilhando do facto de avaliação no sector público ainda não ser um exemplo, ela existe e tem sido aplicada (talvez os professores sejam um caso à parte) mas uma coisa é certa: Só com a república passámos a ter vida civil e abandonámos os registos da igreja, tendo alguns elementos, provavelmente da estirpe deste papa a quem eu pago a estadia, desenvovido esforços para que essa conquista não se torna-se uma realidade.
    Cabe a si e a todos nós escolher dar continuidade às conquistas das nossas revoluções (o séc XX contrariou 800 anos de marasmo) e apoiar e apresentar ideias (reclamações objectivas e com conteúdo pode ser um método) para que a imagem que descreve no texto passem também a fazer parte da história.

  6. J. Mário Teixeira says:

    Sr. Pedro Rocha:
    Comecei o meu texto com as seguintes reservas:
    “irei escrever a partir da minha experiência pessoal; e existem excelentes profissionais na Administração Pública e não são raridades.”
    Pelos vistos, entende conhecer melhor a minha experiência pessoal do que eu próprio, fazendo considerações até sobre os meus conhecimentos (ou falta deles) sobre a actualidade e a existência de novas tecnologias, dizendo que porventura, eu vivo no Século passado. isto dempois de me tratar por “amigo”.
    Esclareço-o, então, que aqui o “seu amigo” vive no tempo presente e também usa a Internet. Mas como sabe, nem tudo se resolve pela Internet. E um dia que tudo se resolva pela Internet, muitos dos que estão no atendimento vão para o olho da rua,. Embora se deixe de gastar ” tempo e recursos do planeta”.
    É um facto que a Administração Pública não é só atendimento. Mas é o atendimento que é o rosto visível da Administração Pública.
    Quanto às conquistas das nossas revoluções, quanto à defesa da nossa República, se ler o que eu já escrevi nesta casa, por exemplo, em defesa da nossa Constituição, pode constatar que o desafio que me lança é tardio.

  7. Ricardo Santos Pinto says:

    «Sem avaliação, sem precariedade, carreira para a vida.» Ó Luis, isso é cada vez menos verdade. Actualmente, quem entra para o Estado nem Funcionário Público é, tem apenas um contrato individual de trabalho. Quanto aos mais antigos, é verdade.
    A minha experiência é completamente diferente da tua, Zé Mário. Na maior parte dos casos, só tenho a dizer bem dos Funcionários Públicos.
    E o que tu dizes também pode ser aplicado ao sector privado. Quantas vezes uma pessoa entra numa loja e o funcionário nem olha para nós e passa longos minutos até que nos venha atender?

  8. Talvez... says:

    Luís Moreira :
    É do piorio, só entrei uma vez na repartição de finanças, era tal o asco que me tinham que passei a pagar a um profissiional para me tratar dos assuntos. São os empregos sem avaliação, sem precaridade, para a vida, carreira garantida…

    Dificilmente encontrará funcionários mais avaliados que os do Ministério das Finanaças.

  9. J. Mário Teixeira says:

    Caro Ricardo, é uma questão de experiências. Além de que comecei o texto dizendo que “existem excelentes profissionais na Administração Pública e não são raridades” e terminei dizendo que “há quem, pelos vistos, nem nos pode ver”, não disse que é toda a gente ou ou a maioria, dise “há quem”.
    E a questão não se põe apenas no sector público, é verdade. Também no privado. Acontece que no privado tens, na mioria dos casos, escolha. Em matéria de Administração Pública – no caso de Finanças, Tribunais, Conservatórias, etc – não tens, porque prestam serviços exclusivos.

  10. Luis Moreira says:

    No ministério das finanças parece que sim. Fico satisfeito e que se alargue a toda a administração pública.

  11. Talvez... says:

    Luis Moreira :
    No ministério das finanças parece que sim. Fico satisfeito e que se alargue a toda a administração pública.

    No Ministério da Justiça também sempre teve avaliações regulares, o problema é que faltavam inspectores para avaliara toda a gente dentro dos prazos. Agora creio que também melhoraram isso.
    Quanto aos outros ministérios, não sei como funcionam, mas se algo lhe desagrada no serviço, seja a falta de funcionários, seja o mau atendimento, use o livro de reclamações. Tem mais sucesso do que se poderia esperar inicialmente.

    • Luís Moreira says:

      É verdade que melhorou muito, e as lojas do cidadão são uma boa medida que eu conheci, enquanto dirigente da administração pública, há 20 anos no Canadá.

  12. Pedro Rocha says:

    Caro amigo Mário Teixeira,

    Quem diz que foi à repartição pública foi você e não eu. Eu diria sem grande tremor que é um facto.

    Viver no séc. XX não é uma ofensa. Ofensa seria alguém ou estado tivesse dado formação, investido no desenvolvimento e promovido o seu crescimento e a pessoa não aproveitar. Aliás como comprova o facto do meu amigo passar algum tempo no Aventar.

    Sem ofensa: cheira-me um pouco a esquerda caviar!

  13. J. Mário Teixeira says:

    Sr. Pedro Rocha:
    “(…) solicitei-as pela net e chegaram cá a casa (por ventura o meu amigo ainda vive no séc. XX e quando se dirige (gasta tempo e recursos do planeta)”. Realmente, isto nada tem de ofensivo…
    Enfim, por muito que qualquer um se esforce em debater ideias, há sempre quem prefira debater a pessoa. Mas tudo bem, é nornal nas lusas bandas.
    Pelas minhas ideias, já fui apelidado de comuna, conservador, esquerdalho, fascista, liberal e radical.
    Ser enquadrado na “Esquerda de caviar”, embora não sendo original, é, ainda assim, das considerações mais simpáticas e elegantes.

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