ver morrer

se eu for homem de fé, reagiria com violência ao afastamento do real que se faz com as criança

Nenhuma criança deve ser afastada do real. O adulto deve entrar na realidade, de mão dada com a criança. Os adultos que explicam merecem a criança. Os que mandam calar e sair do quarto, não merecem essa criança. Sentença inventada por mim

A morte é um facto. Acontece a todos. Donde, a morte é um facto social, não derivado da divisão social do trabalho conforme o mito. Temos um corpo que precisa de ser alimentado e para o alimentar, converte-se a matéria em bens que são mal pagos; o tempo gasto em salários, vai tirando força ao corpo, até este rebentar. Facto social cantado, pintado, escrito, referido. Em 1791, Mozart descreveu a morte em música, tal como fez Domingos Bomtempo em 1819, ou Franz Schubert em 1824, ao cantar a morte de uma donzela. Também El Greco na sua pintura na igreja de Toledo, Espamha: Enterro do Conde de Orgaz de 1527; Goya, durante o seu exílio em Bordeaux nos anos 1810 a 1815, desenha a sua morte, e Picasso, nos anos 30 do Século XX, representa a desaparição de milhares de seres humanos no seu imponente Guernica, o que inigualável pintar o facto de morrer. Goethe foge da ideia no seu Faustus de 1808, Freud analisa os sentimentos que resultam da morte no seu Mourning and Melancholy de 1916, Delumeau fala do medo que causa, nos seus textos de 1978 e 1983, para a idealizar a mudança do corpo em alma, em 1992, no seu Histoire du paradis. Le Goff desentranha a existência de outra vida, ao relatar, na Gallimard de 1983, La naissanece du Purgatoire. Até encontrarmos essas duas magnificas obras, a de Dante ou Divina Comédia de 1302, e a de Marguerite Yourcenar e essa associação entre o morrer e sublimar o amor, quer no seu L’Oeuvre au Noire de 1968, ou na magnífica Memorias de Adriano de 1974, poemas escritos em esculturas para manter viva a memória do seu amado. Vamos esquecer desta vez, Klein e Sampaio. Como também, A morte em Portugal de Feijó e Pina Cabral. Todos adultos a falarem da sua subjectividade perante a morte, esquecendo a criança.

Quem fala, então, da dor da criança perante a agonia dos seus adultos? Quem refere a análise do comportamento dos mais novos, perante factos que não lhes são explicados mas que acabam por roubar, sem eles saberem, as pessoas queridas, serenas e brincalhonas, que os acompanharam durante um curto espaço de tempo que é a sua vida? A morte pode ser cantada, desenhada, explorada, divinizada e elevada ao amor eterno. O simples facto de uma criança observar a passagem da pessoa amada, com inocência e carinho, da actividade ao repouso obrigatório, ao não se movimentar, é tudo o que o adulto, que nem pinta nem escreve, é incapaz de explicar. Pensa-se que o mais novo não entende. E eis o ponto importante, não entende. Porque não entende, deve-se explicar, contar, falar, lembrar, pedir ajuda para organizar o espólio, e, especialmente, chorar juntos. Emerge a minha inquietação de ter visto um menino não saber o que se passava com um adulto seu parente. Vi-o pedir para ser levado e assim saber e depois, calar. Dentro da epistemologia dos seus sentimentos, dos seus valores de ser humano novo, a passagem da vida para a morte, não tem lógica. É um roubo sem explicação. É o roubo do seu brinquedo preferido, da pessoa que o acarinhava, com quem passeava para outras terras, o seu cúmplices na guloseima proibida por adultos genealogicamente situados entre o amado e o pequeno, um adulto maior tão amado, ao ponto de ser objecto das suas brincadeiras: ?És velha, vais morrer, cala-me essa boca??, enquanto esta agonia não era real. Com que palavra seria agora possível explicar que o futuro com essa pessoa está a acabar? Como dizer que o ser humano passa de matéria a memória ritualmente cultivada ao lembrar o que fizeram juntos?

Não resistimos e levámos a criança para ver a sua avó. Pensámos que poderia fugir e definimos o caminho de volta. Qual ameaça, qual falta de confiança nos sentimentos do mais novo? Esse que não só não fugiu, mas que ainda ajudou a molhar os lábios secos. Um comportamento calmo, sereno, de um não adulto, que percebeu que chorar não adiantava, mas dar a agua, sim. E, para nossa surpresa, ficou bem, e colaborou o tempo todo. Vencida a curiosidade de como era a morte, já não quis voltar mais, já sabia o que a casa gastava: em agonia, a sua avó já não estava. É uma vida que o mais novo não sabe entender porque os seus adultos não lhe sabem explicar. Perante a morte há um vazio. Não é por acaso que Alice Miller em 1998 diz que a verdade te há de te tornar livre. Frase do título do seu livro como ultrapassar a cegueira emotiva e desenvolver na infância a semente do adulto. Semente porque ninguém quer que a criança saiba entender o que o adulto acumulou no seu saber. Semente, porque fica na sua memória pessoal para o dia em que precisar de o usar. Livre, porque o mais novo passa assim, a ser parte das decisões de família. Família que está a viver um drama e que aprende que só unida, consegue suportar. Gostava que estas ideias, retiradas do meu trabalho de campo, servissem de apoio para os adultos que ainda se enganam quando pensam que a criança não adianta nem ajuda, se a verdade lhe é explicada a mais complexa e dolorosa, a do desaparecimento de um familiar. Uma criança não deve ser afastada do real. O adulto deve entrar nessa realidade com ela de mão dada. Foi o que esta criança me ensinou, como tanta pequenada ensina a tanto grandalhão, que apenas o sabe ser, se explicar a morte aos mais novos. Realidade difícil. Essa que se pode cantar, desenhar, analisar, romancear, como referi ao começo, mas nunca falar quando acontece connosco. Os adultos que explicam, merecem a sua criança. Os que mandam calar e sair do quarto, não merecem a criança. É a lição proferida para mim, por um puto, ao guardar a sua calma enquanto via a sua avó falecer. Ou a de Isaías e da sua avó Esperanza. Lições para nos aprender. Muito obrigado, rapazes!

Comments

  1. mjrijo says:

    Li atentamente todo o texto, porque é um assunto que me perturba bastante. Concordo em explicar tudo à criança, em compartilhar com ela a dor, tentar minorizar a falta do ente querido, recordando tudo o que essa pessoa partilhou connosco em vida. No entanto, para quê o espectáculo dum corpo sem vida? Para que serve a imagem traumatizante na memória duma criança? Será que eu não mereço ser mãe, não mereço os meus filhos porque lhes evitei a visão de um cadáver?Basta a perda insubstituível… imagens de sofrimento, vão ter a vida toda para as vivenciar.

  2. Ana Paula Fitas says:

    Querido Professor,
    Fiz link deste texto na mais recente publicação da rubrica Leituras Cruzadas que costumo publicar no A Nossa Candeia.
    Um grande abraço amigo.

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