António Pocinho, 1958-2010

Morreu o Tó Pocinho. E não me apetece escrever mais nada. Roubo-lhe um texto:

Carta  a José Sócrates

No caso de eu ter sido baptizado com um nome destes, o de filósofo grego, a primeira coisa que faria quando chegasse a primeiro-ministro seria declarar: “Só sei que nada sei”. E daí, de esse acto de humildade e inocência tinha a minha carreira de governante automaticamente e em todos os casos perdoada. Durante as interpelações ao governo no Parlamento, em vez de mostrar cornos ou chamar nomes ao inimigo, poderia confrontá-los com um lapidar “conhece-te a ti próprio”, ou “senhor deputado, conheça-se a si próprio”, o que nem um “penso logo existo” de Paulo Portas conseguiria neutralizar. Isso daria ao adversário a possibilidade de reconhecer também a sua face oculta e a sua própria sucata. A declaração irónica de Sócrates certamente cairia muito bem num qualquer inquérito parlamentar, fosse ele na Comissão de Ética ou em qualquer das muitas comissões que o Parlamento tem para apurar a comida e a mentira. “Quanto ao caso Freeport (ou Porto Livre, em linguagem de piratas) senhores deputados, só sei que nada sei”. “No caso Face Oculta, senhor deputado, pois se ela é oculta, como a outra face da Lua, só os astronautas e as equipas de investigação da NASA a podem alcançar”.  “Quanto ao desemprego, ao défice, ao umbigo de Manuela Moura Guedes, só sei que nada sei”.

Como diria Sócrates, o filósofo ateniense: “A eloquência é a arte de aumentar as coisas pequenas e diminuir as grandes”.

publicado em para que serve o homem

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