Mineiros do Chile

«Só então o homem se deu conta de que aquilo era uma mina e a vergonha tomou conta dele. Para quê tentar? Não haveria trabalho… Em vez de se dirigir para o edifício, decidiu escalar o terreno onde ardiam os três fogos de hulha em tachos de ferro fundido que serviam para alumiar e aquecer os homens no trabalho. Os operários encarregados do desaterro certamente tinham trabalhado até tarde, ainda estavam retirando o entulho. Agora ouvia os carregadores empurrando os vagonetes sobre os trilhos montados nos cavaletes, divisava sombras que se moviam descarregando os carros ao lado das fogueiras.

— Bom dia — disse ele aproximando-se de um dos fogos.

Em pé, de costas para o fogo, encontrava-se o carroceiro, um velho com uma blusa de malha de lã violeta e gorro de pele de coelho; enquanto o seu cavalo, um cavalo baio e gordo esperava, numa imobilidade de pedra, que esvaziassem os seis vagonetes puxados por ele. O trabalhador encarregado da descarga, um rapagão ruivo e esguio, parecia não ter pressa, e pressionava a alavanca com gestos lentos. No alto, o vento redobrava de intensidade, um sopro glacial feito de grandes golfadas regulares que cortavam como golpes de foice.

— Bom dia — respondeu o velho.

E de novo o silêncio. O homem, que se sentia olhado com desconfiança, disse logo o nome:

— Eu chamo-me Etienne Lantier e sou operador de máquinas. Não haverá trabalho por aqui?

As chamas iluminavam-no: devia ter vinte e um anos, bem moreno, belo homem, de aspecto vigoroso, apesar de os membros serem pouco desenvolvidos.

Tranqüilizado, o carroceiro abanou a cabeça.

— Trabalho para operador de máquinas, não, não há. Ainda ontem apareceram dois, mas não há nada.

Uma rajada de vento impediu-os de falar. Mas, em seguida, Etienne, indicando o amontoado sombrio das construções ao pé do aterro, perguntou

— É uma mina, não é?

Desta vez o velho não pôde responder imediatamente, um violento acesso de tosse o sufocava. Por fim escarrou, e seu escarro fez uma mancha negra no chão avermelhado.

— É, sim, é uma mina, a Voreux. E veja, lá bem próximo está o conjunto habitacional dos mineiros. (…)

O que mais sofria era Maheu; na parte de cima a temperatura subia a trinta e cinco graus, o ar não circulava e com o tempo a asfixia era mortal. Para poder ver, tivera de pendurar a lâmpada num prego, próximo da cabeça, e essa lâmpada, esquentando-lhe o crânio, fazia-lhe o sangue ferver. O seu suplício agravava-se com a humidade; a rocha por cima dele, a poucos centímetros do rosto, porejava água: gotas enormes, contínuas e rápidas, caindo numa espécie de ritmo teimoso, sempre no mesmo lugar. Não adiantava torcer o pescoço, revirar-se: elas batiam-lhe no rosto, escorriam, fustigavam-no sem cessar. Após um quarto de hora estava encharcado — além de coberto de suor — e fumegando num lago quente como uma lixívia. Naquela manhã, uma goteira encarniçada contra seu olho fazia-o praguejar. Não queria largar o trabalho, dava golpes fortes, que o estremeciam violentamente entre as duas rochas, mais parecia um pulgão preso entre duas folhas de um livro, sob ameaça de ser completamente esmagado.
Não tinham trocado palavra; todos golpeavam sem descanso e não se ouvia mais que esses golpes irregulares, velados e como que longínquos. Os ruídos adquiriam uma sonoridade rouquenha, sem eco no ar morto. E era como se as trevas estivessem revestidas de uma cor negra ainda desconhecida, tornadas mais espessas pela poeira flutuante do carvão e grávidas de gases que eram um castigo para os olhos. As mechas das lâmpadas, sob suas proteções de tela metálica, emitiam apenas uns reflexos avermelhados. Não se distinguia coisa alguma, a fenda subia como uma enorme chaminé, achatada e oblíqua, onde a fuligem de dez invernos parecia ter acumulado uma noite profunda. Formas espectrais agitavam-se nessa fenda, clarões perdidos deixavam entrever o roliço de um quadril, um braço nodoso, uma cara terrível, deformada como para um crime. Às vezes, desprendendo-se, luziam pedaços de hulha, fímbrias e arestas, repentinamente iluminados como cristais. Depois, tudo voltava ao escuro, as picaretas davam grandes golpes surdos, não havia mais que o arquejar dos peitos, o grunhido de mal-estar e de cansaço sob o peso do ar e da chuva proveniente das infiltrações. (…)

Foi por essa época que Etienne começou a compreender as ideias que lhe fervilhavam na cabeça. Até então não passara de um revoltado instintivo absorvendo a surda fermentação dos companheiros. Uma gama variada de perguntas confusas não o deixava em paz: por que havia tanta miséria de um lado e tanta riqueza de outro? Por que estes tinham de viver escravizados àqueles, sem a menor esperança de um dia mudarem de posição? A primeira etapa vencida foi a da compreensão de sua ignorância. Uma vergonha secreta, um desgosto oculto começaram a atormentá-lo: nada sabia, não ousava falar sobre essas coisas que eram a sua paixão, a igualdade entre os homens, a justiça que exigia que os bens da terra fossem repartidos entre todos. Por isso começou a estudar, sem método, como fazem aqueles que são ignorantes mas têm sede de saber. Entabulou uma correspondência regular com Pluchart, mais instruído e a par do movimento socialista. Encomendou livros cuja leitura mal digerida acabou por exaltá-lo, sobretudo um livro de medicina, Higiene do Mineiro, em que um médico belga fazia o resumo das doenças de que morrem os trabalhadores das hulheiras, sem contar os tratados de economia política de uma aridez técnica incompreensível, folhetos anarquistas que o perturbavam, números antigos de jornais que lia e guardava depois como argumentos irrefutáveis em possíveis discussões. Também Suvarin lhe emprestava livros, e a obra sobre sociedades cooperativas fizera-o sonhar durante um mês com uma associação universal de intercâmbio, abolindo o dinheiro e baseando toda a vida social no trabalho. A vergonha de sua ignorância foi cedendo lugar a um certo orgulho desde que sentia que pensava.
Durante esses primeiros meses, Etienne viveu no êxtase dos neófitos, com o coração transbordante de indignações generosas contra os opressores e da esperança do triunfo próximo dos oprimidos. De todas as suas leituras ainda não conseguira pôr em pé um sistema que fosse seu. Misturavam-se nele as reivindicações práticas de Rasseneur com as violências destrutoras de Suvarin. Ao sair do Avantage, onde, quase todas as noites, ia invectivar com eles contra a companhia, caminhava como num sonho, assistindo à regeneração radical dos povos sem que para tanto fosse necessário quebrar um vidro ou derramar uma gota de sangue. Os meios de execução permaneciam obscuros, preferia acreditar que as coisas viriam por si, já que, ao tentar formular um programa de reconstrução, não sabia o que pensar. Mostrava-se cheio de moderação e até inconseqüente, repetindo, às vezes, que era preciso banir a política da questão social, uma frase que tinha lido e lhe parecia boa para ser dita no meio dos mineiros fleumáticos em que vivia. (…)»

Émile Zola, «O Germinal»

Comments

  1. Belo texto,e as imagens da televisao,sao comoventes.
    Contudo ,passada a comoção do que vimos ficam as perguntas que temos de fazer.
    Os donos da mina ficarão impunes por nao terem posto em obra os sistemas de de segurança para estes casos, e que ja lhes tinham sido reccomendados? Ficará tudo se forem resgatados sãos e salvos ,mas ao fim de 4 meses de sofrimento, tudo na mesma e nao esquecimento?
    A coragem deles apela á responsabilizaçao dos fautores e responsaveis pelo acidente.E isso tem de ser dito e escrito aqui,para que o tema nao passe de um “fait divers” ….

  2. gabriel says:

    auguem pode me fazer um artigo escrito para mim copiar e entregar para minha profi

  3. gabriel says:

    sobre os mineiros do chile

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