Iludir o óbvio não nos salva

Por SANTANA CASTILHO

A tendência para iludir o óbvio foi classificada por Freud como a primeira paixão da humanidade. Não me recordo se o ilustre “psi” clarificou que é sempre a fuga à violência de uma realidade que explica o mecanismo dessa estranha paixão. Mas posso garantir-vos, com a
experiência dos desaires que sofri, que iludir o óbvio nunca nos salva.

É óbvio que agarrar nos mais de dois mil milhões de euros do Fundo de Pensões da PT e com eles reduzir artificialmente o défice público é uma intrusão inqualificável na gestão de uma empresa privada e uma trapaça política que catapulta um enorme risco futuro para o Estado, leia-se contribuintes.

É óbvio que transformar quatro mil milhões de divida privada do BPN em divida pública, a pagar agora pelos funcionários públicos, pelos reformados e pelos desempregados, foi mais fácil que meter na prisão os responsáveis.

É óbvio que só um desmesurado despudor permite ao Governo dizer que não sabia que tinha um submarino para pagar.

É óbvio que antes da estafada crise global já o Governo tinha aumentado a despesa corrente do Estado em mais de 12 mil milhões de euros e arrecadado, de aumento de impostos e
contribuições para a segurança social, mais nove mil milhões.

É óbvio que a descida do IVA e o aumento de 2,9 por cento da Função Pública foram vistos como manobras eleitorais, que o orçamento de 2010 foi um orçamento de mentira, que os PEC são expedientes mistificadores incapazes de alterar a trajectória suicida do Estado e que o Governo sonegou, sistematicamente, a deplorável situação das contas públicas.

É óbvio que o problema de Portugal, sendo a divida grande, não é a divida. É a ameaça de não a poder pagar com uma economia que não cresce, uma produção que se apouca ante
um consumo que se agiganta, um desemprego imparável, uma taxa de investimento em derrapagem e um constante aumento dos custos de produção: capital, energia e transportes.

É óbvio que chegámos aqui
empurrados por gente trapaceira, por um Governo e um homem
que se permitiram, a golpes de decretos-lei iníquos, impor políticas financeiras, económicas,
educativas e de saúde erradas, protegidos por uma justiça injusta.

É óbvio que só a promoção do investimento produtivo, o aumento do que vendemos lá
fora, a diminuição do que compramos cá para dentro e a recondução do Estado ao seu
papel de árbitro justo de interesses opostos nos poderá arrancar às garras de uma máfia de
especuladores e agiotas, a que alguns chamam mercado.

É óbvio que a anunciada “corajosa austeridade” não muda o futuro. Safa efemeramente,
se safar, o passado recente, extorquindo uma vez mais os cidadãos, esmagando os que não
tiveram culpa, sem sequer apontar os que engordaram, enterrando o país. É óbvio que o
tempo político deste Estado relapso, que permitiu que gente sem vergonha arrastasse na lama
a ética da vida pública, se extinguiu. É óbvio que carrascos não viram salvadores. É óbvio que
coveiros não salvam moribundos.

Para iludir o óbvio, bem mais extenso que a síntese supra, uma elite pensante, que reúne
notáveis do PSD, economistas de renome (que passaram pelo governo sem fazerem o
que agora recomendam) e até o pai do “monstro”, que é, nada mais, nada menos, como
bem recordou Miguel Cadilhe, Aníbal Cavaco Silva, tem acenado, até à exaustão, com uma
realidade violenta: um desastre nacional, se o orçamento não for aprovado. Talvez tenham
razão, ou talvez se imponha antes a lógica de Tiririca (nome artístico de um humorista
brasileiro, analfabeto ao que consta, eleito deputado federal por S. Paulo com o segundo
maior resultado de sempre, que promoveu a candidatura com este slogan: “Pior do que

está não fica. Vote Tiririca!”). Mas entre estes especialistas do pensamento inevitável e
Tiririca há, pelo menos, uma irracionalidade que espanta e nenhuma violência de cenário
ilude. Então não se sentem incomodados por advogarem a aprovação de um orçamento de
Estado que ainda não foi sequer apresentado e ninguém conhece? Acham que os mercados
financeiros ficarão serenos se o orçamento de Estado estrangular a mais remota hipótese de
crescimento económico? Que ficam contentes qualquer que seja o cenário macroeconómico
em que o orçamento assente? Que não se incomodarão com a hipotética persistência em
adiar o saneamento das estruturas inúteis do Estado? Economistas e políticos que são,
aceitam a continuada recusa do Governo em abrir ao escrutínio da oposição, com verdade
e transparência, as contas da execução de 2010, indispensáveis para avaliar a seriedade de
2011?

Sócrates e Teixeira dos Santos desceram a longa ladeira da credibilidade, condenados por
si próprios ao suplício de Sísifo. Se o fizeram por incompetência ou por dolo é coisa que se
apuraria na Islândia. Mas acabaram. Com ou sem orçamento. Advogar que lhe passemos um
cheque em branco, mais um, ignorando o óbvio por receio da realidade violenta é, mais que
confirmar a curiosa tese de Freud, impor aos que ainda não ensandeceram o grotesco de
Tiririca. Nem o interesse dum futuro candidato à presidência da pobre República o justifica.

* Professor do ensino superior. s.castilho@netcabo.pt

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