direito a heresia

Escultura de Gustaf Vasakyrkan em Estocolmo "Os santos triunfam sobre a heresia".

Escultura de Gustaf Vasakyrkan em Estocolmo "Os santos triunfam sobre a heresia".

Estou certo de ter publicado este texto em Outubro de 2009, quando a nossa vida parecia ser mais pacífica, calma e tranquila, com dinheiro no bolso, capazes de gastar em divertimento, férias e, para nós fumadores, tabaco. Tabacos que dizem que mata, mas se mata, os nossos legisladores deviam proibi-lo de vez. No entanto, como a sua venda dá lucro, é conveniente para os depositários da nossa soberania manter essa produção de veneno. Se a eutanásia está proibida, mesmo em casos limite onde impera o sofrimento, que acaba por matar o ser doente, na China, existem casas que acolhem os moribundos, juntando-se a outros a morrerem como eles. Entre nós, há apenas hospitais e casas de repouso, sítios proibidos para visitar os nossos doentes a falecer. Como tem acontecido em toda a humanidade, eis porque se comemora o dia de Todos os Santos, época em que as campas são compostas, limpas, cheias de flores e de pranto. Nunca esqueço o dia em que num cemitério vi uma senhora a limpar arduamente o túmulo da sua sogra, de joelhos e com imenso pranto, que parecia em alarido. Alaridos para

chamar a atenção dos vizinhos que bem sabiam que em vida, esta mulher casada com o filho da senhora enterrada, tinha tratado mal a sua sogra e expiava…

Será assim que vão chorar os nossos legisladores e expiar os aumentos dos impostos, a diminuição do salário e o despedimento de pessoas? Penso que não. Referi antes que os membros da Assembleia apenas debatem entre eles de forma ideológica, sem se lembrarem que o povo sofre.

Os nossos legisladores dos partidos maioritários, estão sentados nos seus escanos, no calor dos seus vencimentos, excepto o PCP e o Bloco de Esquerda, que entregam os lucros adquiridos por serem deputados, ao seu partido, grupo que define o vencimento de cada um. Será assim com todos? Como heresia atrever-me-ia a dizer que nem todos, especialmente os que têm fortuna pessoal no PPD-PSD e no CDS e, de certeza, como sou herege, muitos do PS…

Qual será a pena que os castigará, por terem taxado o povo, redimindo os seus pecados de dupla exploração: os lucros por terem sido eleitos deputados e a legislação contra o povo. Devia existir uma divindade para castigar esta heresia. Mas há apenas uma arma, a greve, que é muito limitada e os que a ela aderem perdem dias de ordenado (linda definição de greve). Os operários carecem de direitos, excepto como aconteceu no dia que comemoramos amanhã, a Restauração do governo luso das mãos agarradas de hispânicos, derrotadas em guerra civil. A Restauração da Independência é a designação dada à revolta iniciada em 1 de Dezembro de 1640 contra a tentativa de anulação da independência do Reino de Portugal por parte da dinastia filipina, e que vem culminar com a instauração da Dinastia Portuguesa da casa de Bragança. É comemorada anualmente em Portugal por um feriado no dia 1 de Dezembro.

Fonte: Gabriel Pereira, As vésperas da Restauração, Évora, Minerva Eborense – Colecção Estudos eborenses, 1886-1887.

Por causa da nossa atribulada vida, pergunto-me eu: e a Restauração, será importante? Observe-se o orçamento de estado para 2011, não era melhor termos ficado com os espanhóis? Heresia? A ver vamos desde o próximo 1 de Janeiro…

É este o motivo que me orienta para reeditar um texto meu, com essa palavra do nosso Nobel Saramago: heresia dos nossos representantes perante o povo que os elegeu.

O que é, porém, heresia?

Heresia (do latim haerĕsis, por sua vez do grego αἵρεσις, “escolha” ou “opção”) é a doutrina ou linha de pensamento contrária ou diferente de um credo ou sistema de um ou mais credos religiosos que pressuponha (m) um sistema doutrinal organizado ou ortodoxo. A palavra pode referir-se também a qualquer “deturpação” de sistemas filosóficos instituídos, ideologias políticas, paradigmas científicos, movimentos artísticos, ou outros. A quem funda uma heresia dá-se o nome de heresiarca.

A definição não é minha. O título deste texto, também não. O conceito está definido em http://pt.wikipedia.org/wiki/Heresia, e o título foi retirado de um Alerta Google, que me foi enviado, a meu pedido, e que diz: Saramago advoga “direito à heresia”.

Se a definição fosse minha começaria por dizer que heresia era uma opinião ou doutrina diferente das ideias recebidas. Por outras palavras, aprendemos uma ideia ou várias delas mas pensamos de forma diferente em todos os campos do saber material ou ideal.

Heréticos seriam Karl e Jenny Marx e a sua família, que pensavam de forma diferente dos outros membros da família extensa. Família extensa que apenas pensava nos seus membros e não em factos sociais, legais e religiosos que aconteciam à sua volta. O que lhes interessava era estarem bem acomodados na vida, tomar conta dos seus bens e serem sempre bem recebidos na corte do Rei da Prússia, ou do seu substituto, o Imperador.

A família Marx, de Karl e Jenny, não tinha essa pretensão. Conviviam com operários, convidavam-nos para a sua casa, recebendo-os como se fossem Imperadores.

Era a heresia da família Marx e de vários outros aristocratas ou burgueses, como Engels, Owen, Conde de Saint-Simon e o próprio pai de Jenny, o Barão Johann von Westpalen. A consequência era evidente: o acesso aos seus iguais era-lhes negado.

Donde, a heresia não se verifica apenas em matéria de ideias religiosas, como o é também dentro do campo social. É considerada uma heresia o texto que publiquei ontem no Aventar, ao advogar pelo matrimónio homossexual. Várias opiniões foram expressas de forma irónica sobre o direito a formar família. Como se a família fosse somente pais e filhos e não duas pessoas que se amam, capazes de adoptar crianças ou de entregarem esperma a ventres femininos (alugados), como acontece actualmente, para terem filhos próprios. Relação que não é herética por ser usada por casais heterossexuais que não podem formar descendência entre eles.

Há a heresia da liberdade de opinião. Leio no jornal de hoje que Saramago denomina Bento XVI (Ratzinger), um hipócrita, por não gostar da sua imagem e figura, acrescentando Saramago que o assunto não é com ele, é só entre fiéis da confissão que ele governa, confissão que deve opinar, mas nada diz por ser Ratzinger um Papa, um representante da divindade na terra. Vê-se bem que a heresia, desta vez, é literária.

O Nobel português nem conhece a doutrina cristã nem sabe que Ratzinger baseia parte dos seus argumentos na teoria dos Marxs. Heresia hipócrita: a seguir a sua opinião de como Marx entendia tão bem a alienação de bens e salários por parte do espólio ou despojos de guerra que a burguesia começou, desde o primeiro dia da Revolução Industrial, e os argumentos nos textos de Ratzinger, que era pena que Marx não fosse cristão.

Ignorância de Bento XVI. A obra de Marx está toda baseada na Bíblia e nos Evangelhos.

O primeiro escrito de Karl Heinrich, aos seus 15 anos, intitulado União dos Cristãos na base do Evangelho de São João. Ignorância de Saramago, quem diz ter assistido apenas duas vezes à missa ao longo da sua vida.

Como vimos, é possível existirem vários tipos de heresia, todas definidas ao mencionar os factos narrados por mim neste texto. Duas outras heresias, é não ter falado do matrimónio homossexual das mulheres que têm os mesmos direitos que os matrimónios entre homens. Estou certo que quem defende o matrimónio homossexual, não discrimina géneros. Dentro dessa luta, somos todos iguais. Luta que para nós, pais, pode passar a ser uma heresia se não entendermos que existe liberdade de amar. Amor que pode mudar ao longo da vida. Como Freud previu.

O que não estava nada previsto, é a entrada à eternidade de Luís Miguel Pimentel Correia, de férias com amigos, adormece e nunca mais acorda. Um jovem alegre, simpático, amigo dos seus amigos, amante da sua família, novo na vida que adormeceu para sempre. Uma heresia para os seus pais, especialmente para a sua mãe que o teve, criou e ensinou durante 32 anos. Uma heresia que nos prega a vida sem sabermos como nem porquê. Heresia imperdoável. Ele já não está, mas mata de desespero a sua família. Família que não entra em heresia de desespero: estão estonteados pela inesperada dor que causa a morte de quem a não merece, em idade nova, cedo na vida.

Heresias há muitas, mas esta é a pior. Saramago tem todo o direito às heresias que entende, mas o desaparecimento não esperado de um jovem galã, é, de entre todas, a pior. Paz e serenidade para a família que nunca tem sido herética dentro de nenhuma das espécies das descritas. Paz e amor e uma lei para apagar estas heresias que matam e que resultam das arrogâncias da luta de classes ou da ignorância, sempre transferida a outros..

Heresia, esta, de divindade maldosa, impossível de perdoar. Ratzinger e Saramago, fazem teatro de exibição. O Luís, antes o tiver feito: estava connosco. De uma maneira especial, sinto que o está…

E a heresia dos nossos governantes, quem a condena ou perdoa? Eu, nem por isso. Estamos em guerra económica e a legislatura deve ganhá-la, se perdurarem até esse dia da Restauração os nossos direitos de cidadãos…Esse seria um excelente 1 de Dezembro!

O direito à heresia é o derradeiro direito que fica para nós! Se não soubermos lutar…

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