natal, o presente das crianças: lições

o primeiro natal de uma pequena família internacional: os Isley

…para Camila, filha companheira, o seu marido Felix e para sua filha May Malen, a minha nova neta

 1. Sonata introdutória.

Perguntou-me um dia uma estudante da minha Universidade portuguesa: Senhor Professor, porque estuda crianças? A minha resposta foi breve: porque sou pai. A seguir, proferi uma explicação mais explícita. Não é apenas sermos pais, é o que as crianças nos ensinam. Até parece que não são pequenas. Até parece sermos nós os que dizemos as sabidas coisas da vida. Sabidas coisas, um conceito que substitui todas as acções e aventuras na interacção da experiência da vida, dessa interacção que, por habituados como a ela estamos, esquecemos de reflectir. Reflexão que nem nos faz mal. Pelo contrário, reflexão que nos ajuda, a nós, adultos a crescer, a partir das crianças. Crianças adultas e crianças a crescerem. Como as filhas que tantos de nós pais, temos. É verdade que a simplicidade e o carinho, a honestidade e a lealdade são parte da vida que nós praticamos e transferimos para a nossa descendência. Essa descendência que começa a aumentar sem nós darmos pelo facto. Um dia somos filhos, anos virados, somos autónomos e indivíduos, anos depois, caímos no chão de um amor que acompanha os nossos afectos, a nossa emotividade mais íntima. E, dessa intimidade, aparecem os primeiros descendentes que fabricamos. E não é um erro de estrangeiro dizer fabricamos, são feitos do amor pela pessoa que os leva no seu corpo durante meses e que do seu corpo os alimenta.

Essa intimidade partilhada entre os pais perante a criança nascida, pais a olharem-se no bebé, a ouvirem essas primeiras palavras, a brincar com canções que ensinam palavras, essas crianças a andarem atrás de nós, sem, por vezes, o sabermos. Mais tarde, começam a fazer parte de um grupo que conhecemos, interagindo e falando sem nós ouvirmos, mas a sabermos pelas mudanças das atitudes que as crianças, essas nossas crianças, passam a ter. E os sarilhos fora do lar começam. E vão aumentando ao se inserirem, cada vez mais, em actividades longe de nós. Como pais, ouvimos o que nos é referido e com firmeza e na linguagem da idade que fala, opinamos para a nossa pequenada possa optar. Optar ela, não nós por elaa.

2. Primeira lição: pai, ouve.

Saber ouvir. Saber entender as palavras das histórias referidas ao calor do lar ou mesmo ao calor do debate que essa filharada tem com os seus pares. Há as crianças que adoptam os pais como aliados nas suas dificuldades para se inserirem fora do lar. Sentem que esses adultos vão punir o parceiro que debate com ela, que vão esgrimir as luvas de boxe para esmagar os adultos do rival, vão salvar a sua vida de entre as alternativas cruzadas nas vias da vida, alternativas desencontradas a desnortear os seus sentimentos e o seu raciocínio, a sua razão, os seus sentimentos. Não é mentira a frase que dizem: o meu pai bate no teu e ganha, a minha mãe sabe cozinhar melhor do que a tua e outras que vão dizendo ao longo da vida. Ou, esses ciúmes que os descendentes têm se os pais mostram afectividade entre eles sem incluir o seu pequeno corpo entre os corpos deles com carícias, ou, ainda, nas actividades que os pais realizam dentro de casa. A criança dá-nos uma primeira lição: já não somos dois a viver sob o mesmo tecto, somos três, quatro, cinco ou mais. Cada individualidade, entrelaçada na individualidade do outro. Nunca uma por cima da outra para mostrar que é mais querida ou mais preferida. A lição é simples: somos um conjunto de pessoas a experimentar a vida de forma diferente dentro de conceitos compartilhados e afectos unificados, mas entendidos conforme a acumulação da experiência explica ao mais novo o que esses conceitos e sentimentos querem dizer ou significam. Pais alerta ao facto da heterogeneidade de gerações em convívio dentro dos laços de amor ou de emotividade, que uma família modelar parece ter. Pais alerta a modificar a sua linguagem e a sua forma de dizer para ter um lar e não uma sala de debate, uma sala de interrogações, uma sala que vitimara os descendentes, os filhos. Sem espreitar entre os arquivos que a infância entesoura com prazer, tesouro acumulado a definir a sua trajectória na vida. Tarefa difícil que dura, até a criança começar a andar só pela estrada da vida, apoiada nas emoções guardadas dentro de si pelo saber falar dos adultos e incluir na conversa os mais novos. Palavras e frases que adultos pais sabem e aprendem, visão do mundo a adquirir pela observação feita da vida ao seu cuidado, a dos filhos que, cedo demais, entram no convívio com o social. Lição que eu denominaria de amor e entendimento, de humildade para aceitar a experiência dos mais novos e incuti-la dentro de si. O adulto guarda sua criança nesses conceitos e desenvolve-os a par e passo enquanto a criança é socializada por outros.

2. Segunda lição: pai, eu existo.

Crianças que aprendem com os outros. Sempre nós, adultos, orgulhamo-nos em pensar e dizer quanto transferimos do nosso ego para os filhos. Se reparar o contexto dentro do qual esse outro, o filho, abaliza o nosso saber. De certeza há a idade onde os pais são a primeira e última palavra… parece. Para pais e filhos… parece. E o médico, e os primos, e os avós, e os filhos dos amigos, e esses mesmos adultos amigos dos pais? As histórias, os brinquedos, a música, a situação económica do lar comparada à economia das outras famílias, parentes, vizinhos e amigos? Não é destemido dizer que a aprendizagem é sempre social. Não é destemido dizer que a criança, desde o dia do seu nascimento, é uma entidade social. Mal saem dos nossos corpos, esses pequenos são já o bebé social, porque pertencem ao mundo dos pais e das suas famílias. Vão vivendo com eles o pensar, o dizer, o sentir. As formas de agir entre milhares de pessoas a povoarem os dias da vida. É o adulto que tem a tendência a guardar a criança para si. Com amor, com orgulho, com um sentido estrito da disciplina, com um sentir estrito de posse sobre o pequeno. Posse que nasce do amor que um progenitor, quer dizer, um gerador de vida -, sente. Apenas pelo facto da lei entregar a criação da miudagem aos adultos crescidos. A lei manda um estado de inocência para os menores de sete anos, uma responsabilidade, até penal, pelos delitos que os mais novos podem cometer, entendam ou não. Posse, que esses pequenos nos ensinam, não existe: apenas a obrigação do adulto indicar que o dinheiro dos outros, aos outros é que pertence. Medite o adulto como a criança é sabida, até ao ponto de reclamar pelo que desgosta ou de gritar pelo que deseja e que o adulto estima não deve ser atingido. Ou, o adulto entenda que há uma contenda, um debate entre ele e o mais novo para impedir lesões corporais, para impedir lesões emotivas. O papel dos pais é o de serem mestres da vida. É a outra oferta que a pequenada nos entrega: não serem mimados, mas docemente orientados e saber ouvir com serenidade a gritaria que produz a frustração de querer atingir um objecto ou um presente e não poder obter. Reflexões faladas entre os adultos para saberem que o amor evidencia-se no amparo da pessoa pequena que tem os seus próprios objectivos retirados dos recursos do lar e da forma que os seus adultos os usam. A oferta é a paciência de sermos a trave mestra entre o social e o indivíduo que começa a entender.

3. Terceira lição: pai, quero saber.

Trave mestra. Transferência da experiência de vida. Explicador carinhoso da interacção com outros. Para começar, com a mesma família dentro da mesma casa, com os irmãos os melhores rivais que a vida entrega a um ser humano. Especialmente, se são irmãos de género e idades diferentes, ou mais preferidos pelos adultos que vivem por perto. O adulto deve entender não ser um modelo para o agir do pequeno, apenas uma indicação. A arrogância da vida adulta é agir como corrector de provas dos que estão a experimentar o quotidiano. Arrogância nascida dessa entrega mais acima mencionada, que a lei faz dos mais novos. Ou que o amor e a paixão entre dois, geram. O adulto dentro do lar é a pessoa mais amada e temida que um ser novo pode ter. Porque não ensina: corrige. Castiga. Desorienta. Diz amar e esquece. Queira o adulto ou não. Os seus objectivos de vida passam a ser mais importantes que educar a sua descendência de forma harmoniosa. Educação estimada como dever e não como parte do objectivo da vida adulta. Objectivo complexo ao envolver o entendimento do contexto dentro do qual os seres gerados e criados, vivem. Contexto estendido para além do lar mas nele reflectido. Apenas com esta lição, a criança, já adulta, é capaz de dizer depois como é importante saber o sentimento do outro e respeitar esse sentimento para não ferir. Apenas uma criança orientada e não possuída, é capaz de ser um adulto jovem que ensina ao adulto maduro a importância de não falar demais, de não dizer o que a outra pessoa não entende. Lição difícil de aprender: é bem mais fácil, tenho observado, gritar, bater, ignorar, fechar-se nos deveres do trabalho fora de casa com a justificação de ser esse o trabalho que alimenta a descendência.

4. Coda final: pai, eu dou.

Descendência que é, colegas pais, o nosso melhor carinho, o nosso melhor ensino, o nosso melhor amor. A paixão entre adultos acaba, o amor pode-se partir, o carinho pode ficar à distância. Mas, o amor pelos filhos, continua se entendermos que aprendemos deles tanto e quanto eles de nós. Como Antropólogo especialista em etnopsicologia da infância – parece duro dizer, mas é verdade -, as crianças dos nossos filhos passam a ser a nossa observação participante da vida. Aprendemos delas as formas de crescer e entender o mundo e as ideias que de essas cabeças, nascem ao ritmo da aprendizagem. É a oferta de Natal que, nestes meus anos de idade, os meus filhos me fazem: acompanhar, entender, aceitar, mostrar como a vida é diferente entre a geração deles e a nossa, como a nossa juventude não é elo nenhum para a experiência da juventude deles. Nós, maduros já, precisamos aprender que voltamos a estar sós no crescimento das crianças e na sua conversão em adultos que opinam, ouvem, calam e apenas dizem se for conveniente para esse adulto, que já não muda, entender. As crianças passam a ter as suas vidas autónomas depois de ter tido vida independente no calor da orientação dos pais. Eis o prazer da vida, sermos acompanhados por uma juventude adulta capaz de entender as desorientações dos adultos que sonharam serem os proprietários dos pequenos, os seus corregedores e não apenas os seus orientadores. É o que agradeço à minha descendência que já vai no quarto neto. Não são os netos o presente de Natal, são as formas de entender o mundo, o que me orgulha neles. E não apenas dos descendentes consanguíneos, bem como todos esses que tenho adoptado ao longo da vida profissional, que comigo trabalhavam para entender a criança e, assim, entender a interacção social. Feliz Natal, filhos! Feliz Natal, colegas pais! Obrigado pelo presente de serem adultos que entendem e acompanham sem passar os limites da minha intimidade e da intimidade deles. Descendência que vive em todos os cantos do mundo. Obrigado pelo lindo presente, materializado nesse dia precioso quando esta minha filha me quis levar no meu carro, conduzido por ela, entre Mafra e Ericeira, permitindo-me, assim, ter o sabor de observar a paisagem do entardecer e não estar sempre subordinado ao prazer dela. Essa filha que se orgulhou de ouvir um pai, o seu, proferir uma conferência sobre crianças e teve a humildade de dizer o que tinha apreendido além do amor paterno – filial. Essa intimidade que apenas os filhos orientados e não subordinados, são capazes de dizer, com um sorriso bondoso e de carinho na linda cara jovem de quem conduzia o meu carro. Senti-me completo. Tal e qual a sua mãe também se sente. Com essa filha orientada, tal e qual a outra, nascida no Dia de Reis, faz já mais do que vinte anos. Tal e qual me senti completo quando a minha estudante perguntou porque é que eu estudava crianças: Ana, é porque sou pai e não Pai Natal. Apenas um pai a apoiar com o meu comportamento, penso.

Bibliografia.

Este texto foi escrito ao som do voo do avião que levava de regresso a minha filha a sua casa na Grã-Bretanha. Texto também retirado dos meus Diários de Trabalho de Campo e de meu Diário Pessoal. Bem como de:

•Iturra, Raúl, 1996: (Org. e autor) O Saber das Crianças, ICE, Setúbal.

•(19971ª edição) 2007 2ª edição acrescentada: O Imaginário das Crianças. Os Silêncios da Cultura Oral, Fim de Século, Lisboa.

•1998: Como era quando não era o que eu sou. O crescimento das Crianças, Profedições, Porto.

•1999: O Saber sexual das crianças. Desejo-te porque te amo, Afrontamento, Porto.

•Murray, Lynne E Andrews, Liz, 2000: The Social Baby, CP Publising Richmond, Surrey, Grã-Bretanha.

•1999: The Children’s Project, CP Publishing Richmond, Surrey, Grã-Bretanha.

•Opie, Peter E Iona, 1988: The Singing Game, Oxford, Grã-Bretanha.

•2000: Babies An Unsentimental Anthology, John Murray, Londres.

•Vieira, Ricardo, 1998: Entre a Escola e o Lar, (1992), Fim de Século, Lisboa.

•Sampaio, Daniel, 2000: Tudo o que temos cá dentro, Caminho, Lisboa.

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.