Contos Proibidos – Memórias de um PS Desconhecido. Sá Carneiro e as «grosserias» de Mário Soares

continuação daqui

Sá Carneiro ficaria extremamente desiludido com a atitude de Mário Soares, que considerara irresponsável. Para ele a consolidação do regime democrático, então ainda tutelado pelos militares e sob enorme influência político-cultural do PCP, passava pela cooperação entre os dois partidos do centro, que se reclamavam da família social-democrata. Uma cooperação que poderia mesmo conduzir à fusão do PPD no PS. As bases de ambos, afinal, eram idênticas e os princípios semelhantes. Para Sá Carneiro seria difícil compreender a arrogância dos socialistas, convencidos que estavam de que Eanes era parte do seu património político. Acusaria então o PS de «tentação mexicana», o que não foi completamente destituído de razão, dada a sobranceria com que pretendia aliar-se a Ramalho Eanes para governar o País em minoria. Por outro lado, Soares considerava que «objectivamente, o regime do México não é de partido único».
Da parte do PS não seriam invulgares as manifestações de grosseria para com Sá Carneiro. Desde referências à sua estatura física, à sua situação familiar e até à colaboração em campanhas pouco dignificantes que visavam atingir a sua honorabilidade. Entretanto, e apesar das muitas ofensas de que seria alvo, o seu pensamento político e a sua acção, nunca foi anti-socialista e, como se teria ocasião de verificar, seria até frequentes vezes favorável ao PS e ao seu secretário-geral, pesem embora normais diferenças que ocorreriam durante as campanhas eleitorais dos seus partidos. Já em 1976 oferecera a Soares «o apoio a uma eventual candidatura, pedindo em troca algo que Soares nunca lhe poderia conceder: a luz verde para que o PSD possa aderir à Internacional Socialista».
De facto, após o 25 de Abril Sá Carneiro declararia pretender que o seu partido aderisse à Internacional Socialista tendo, de imediato. Mário Soares desenvolvido todos os esforços no sentido de barrar qualquer pedido formal de adesão, que nunca chegaria a ser feito. O desconhecimento de como funcionava aquela organização era um reflexo do isolamento internacional em que o País se encontrava, que acabaria por ser desfavorável ao PSD. Na realidade, quando Sá Carneiro declarou a sua pretensão, em 1974, existiam na IS vários partidos do mesmo país. O PS e o PSDI de Itália, O PT e o MAPAM de Israel, o PS e o PSD do Japão, a AD e o MEP da Venezuela. Tivesse ele formalizado o pedido e a IS teria que o discutir e votar.
Em 1974, após o 25 de Abril, o PS não possuía nenhumas garantias de que a IS negaria o acesso ao PPD. Mas só a partir de 1979, profundamente desiludido com Eanes e desejoso de o impedir de se recandidatar à Presidência da República, Mário Soares proporia ao Secretariado Nacional que considerasse as virtualidades de um acordo com Sá Carneiro. Nesta altura, como em praticamente todas as decisões de fundo do PS, as posições políticas do secretário-geral seriam tomadas em função dos seus interesses pessoais. A sua «vontade» de um acordo com Sá Carneiro, que tinha que ver com uma vingança contra Eanes e com as suas próprias ambições políticas, chegava cinco anos tarde demais, quando a maioria do Secretariado Nacional do Partido Socialista já não seguia as suas orientações.

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