Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido. Soares e os outros líderes socialistas europeus

continuação daqui

«Era primeiro-ministro do I Governo Constitucional, atravessava uma vertiginosa promoção nacional e internacional e aparecia nos media, sobretudo norte-americanos, como o «herói» dos mencheviques que derrotara os bolcheviques. Acima de tudo, controlava de forma absoluta o Partido Socialista e em Setembro de 1976, no PS, tudo dependia da sua vontade. Nenhum dos responsáveis por pelouros no Secretariado Nacional permanecia durante muito tempo no seu posto. Iam sendo mudados para não adquirirem demasiado poder. Essa era e sempre foi a sua estratégia. Com duas excepções. Salgado Zenha, que só em 1981 quando «disciplinadamente vota de acordo com a sua orientação» é que «Soares sente que só naquele momento o submeteu» e eu próprio.
No meu caso contudo, sobretudo em 1976, não eram nem de perto nem de longe razões que se possam comparar ao caso de Salgado Zenha. Este detinha um enorme poder potencial e um prestígio moral ímpares. Eram pura e simplesmente a simbiose do reconhecimento de competência e a convicção de que seria eu quem melhor serviria os seus objectivos em matéria de promoção internacional. Situação de
algum modo captada por um outro semanário quando, ao referir-se ao impressionante número de convidados estrangeiros presentes no II Congresso do PS, afirmaria que «além dos convidados habituais do ‘Europa Connosco’, como Willy Brandt, Mitterrand, Olof Palme e Kreisky, o acontecimento (ou o prestígio internacional de Mário Soares somado à capacidade do ‘ministro dos Negócios Estrangeiros’ do PS, Rui Mateus) levou ao Pavilhão dos Desportos a ‘nata’ da Internacional Socialista, mas, também, de delegados africanos e sul-americanos, do Próximo e Extremo Oriente. Segundo apuramos, a reunião que a Internacional Socialista realizou no Ritz, à margem do congresso, foi bastante mais longe do que preparar a próxima cimeira de Genebra, com a designação de Brandt para novo presidente e a escolha de Soares e Palme para duas das vice-presidências que se dão como certas… Tratou-se fundamentalmente, de aproveitar a ‘posição especial de Portugal e do seu partido de Governo’.. . acerca da possibilidade de fortalecer a Internacional Socialista alargando a organização a países do Terceiro Mundo».
Na realidade, um mês depois, em Genebra, na Suíça, realizar-se-ia o mais importante congresso da Internacional Socialista do após-Guerra. O XIII Congresso transformaria radicalmente aquela organização, até recentemente caracterizada por um certo eurocentrismo cauteloso, num movimento agressivo e verdadeiramente internacional.
Willy Brandt, Prémio Nobel da Paz, ex-chanceler da República Federal Alemã e presidente do poderoso Partido Social-Democrata, emprestava o seu nome e os meios do seu partido à «nova» organização enquanto seu presidente. As razões que tinham estado no seu afastamento da chefia do Governo da República Federal da Alemanha, dois anos antes, em nada afectariam o seu prestígio entre a esquerda europeia. Alguns dos aspectos mais significativos da reunião magna da Internacional Socialista seriam mesmo aqueles que o mencionado semanário Lisboeta referira. Brandt estava determinado a «combater o ‘eurocentrismo’ numa organização que tradicionalmente tinha o nome de Internacional Socialista, que representava um mito que não correspondia ao seu poder», alargando-a a partidos de países do Terceiro Mundo e indicando «as relações Leste-Oeste, Norte Sul e Direitos Humanos como as áreas prioritárias da nossa organização».
Entre outras decisões significativas estariam a substituição do austríaco Hans Janitschek pelo sueco Bernt Carlsson para o importante lugar de secretário-geral, a entrada para a organização do Partido Socialista do Senegal e a eleição dos vice-presidentes. A substituição do secretário-geral visava um aumento da eficácia em detrimento das causas «nobres» que Janitschek sempre defendera com grande romantismo, como tinha acontecido com o PS Português. A entrada do partido do presidente Leopold Senghor era um passo polémico para alguns, que achavam que no Senegal não existia um regime verdadeiramente democrático e acertado para outros, que consideravam não só ser o Senegal o país mais democrático de Africa, como representava o claro apoio da IS à democratização daquele continente. A eleição dos vice-presidentes também continha alguma polémica por serem demasiados e reflectir as dificuldades para eleger um grupo de vice-presidentes mais pequeno, e portanto, mais eficaz.
Era também o resultado de intermináveis reuniões ad e ex-congresso dos secretários internacionais que se transformariam por vezes em autênticas guerras. Competia aos secretários internacionais propor a lista dos vice-presidentes à «conferência de líderes» que, de um modo geral, se realizava durante um jantar de trabalho anterior à eleição.
Ora, como é evidente, era nestas reuniões de secretários internacionais que cada um exibia a sua influência, partindo do princípio que todos quereriam dar «provas», propondo e fazendo eleger o líder do seu partido. Cheguei mesmo a assistir a momentos de grande desconforto pessoal quando, nalguns casos, a não proposição de um certo líder partidário para a lista dos vice-presidentes implicaria, quase automaticamente, a consequente perda de lugar do secretário internacional. Mas outras vezes, nem sempre os meus colegas tinham sensibilidade política para optarem pelas melhores escolhas. De qualquer maneira e dado que os líderes partidários, embora influenciando «por fora», dificilmente se poderiam autocandidatar na reunião dos seus pares, a lista que os secretários internacionais submetiam era a definitiva. Mas nesta ocasião, como a própria imprensa portuguesa noticiaria, não haveria nenhuma oposição à proposta de Mário Soares. Seria eleito conjuntamente com o algo exagerado grupo de catorze vice-presidentes.
No dia 4 de Dezembro, era a vez de Felipe González realizar o XXVII Congresso do seu partido e o primeiro na legalidade após a ditadura franquista. O Congresso fora anunciado para o mês de Novembro, mas o Governo espanhol proibira a sua realização. Seguiram-se protestos massivos de todo o mundo e eu próprio enviaria um protesto ao Governo espanhol contra a decisão e apelando ao «bom senso das autoridades espanholas no sentido de permitirem a realização deste acontecimento tão importante na vida do PSOE e para o futuro da Democracia em Espanha e na Europa».
Na altura o secretário-geral do PS era primeiro-ministro há cinco meses e achou por bem que, embora não tivesse o mesmo peso, deveria ser eu a fazer o protesto em nome do PS. Naquela data já González tinha estado em Lisboa, mas nem se sabia se ia haver fusão com o PSP nem, tão-pouco, se iria haver tão depressa um regime democrático no país vizinho. Assim, actuaria de forma cautelar, contrariamente ao que tinham feito os seus colegas Palme, Kreisky e Helmut Schmidt. O Governo espanhol pretendeu ignorar as pressões internacionais mantendo a proibição, mas o PSOE, embora «ilegalmente», decidiria mesmo ir para a frente com o Congresso em Dezembro. Na capital espanhola estaria presente Willy Brandt e a maior parte dos grandes líderes socialistas europeus dispostos a não faltar a este acontecimento histórico.
Felipe González contara com o apoio da IS, sabendo de antemão que a presença de líderes que eram simultaneamente chefes de Governo e ministros, impediriam o Governo Espanhol de tomar quaisquer medidas drásticas contra o PSOE e contra os congressistas. Não sei se pressionado pela embaixada espanhola em Lisboa, se por observância de regras a que os primeiros-ministros se sentem, latu sensu, geralmente obrigados, ou se por qualquer outra razão de força maior nunca explicada, o líder do PS português não compareceria ao Congresso dos nossos vizinhos. Quem iria representar o PS a Madrid
seriam então Salgado Zenha e eu tendo, à última hora, Mário Soares decidido enviar a sua mulher em sua representação. Teve então o ensejo de ouvir a monumental assobiadela dos congressistas do PSOE, que considerariam a ausência do primeiro-ministro português como uma falta de solidariedade. O PSOE só seria legalizado a 17 de Fevereiro de 1977 e nas primeiras eleições legislativas, realizadas em Junho, obteria
29,4 % dos votos. O primeiro encontro formal entre os dois partidos e o primeiro comunicado conjunto entre os secretários-gerais dos dois partidos socialistas ibéricos aconteceria, assim, um mês depois e daria lugar a múltiplas reuniões bilaterais com destaque para as cimeiras de Badajoz em 1978, de Viana do Castelo em 1980 e de Madrid em 1983. Quando este último encontro teve lugar, o PS estava na oposição e Felipe González era primeiro-ministro espanhol. O diário espanhol, El País, especulava então que o PS estava a receber importantes meios financeiros do PSOE, o que obrigaria o secretário-geral do PS a desmentir indignado tal informação e a mandar declarar que «o encontro PS/PSOE, em Madrid, tem em vista examinar um vasto conjunto de problemas, já amplamente noticiado, mas da agenda de trabalhos não faz parte a questão referenciada pelo diário espanhol».
Era verdade. Só anos depois Mário Soares receberia ajuda financeira do PSOE para a sua campanha às eleições presidenciais. O PS nunca ajudou financeiramente o PSOE durante os seus difíceis momentos de clandestinidade que durariam até 1977.

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