as minhas memórias -1- campo de concentração

Por ser duro de ver as roupas de um campo de concentração, troquei por camponeses


Os pesadelos são os sentimentos mais hediondos da vida. Não há nada para mudar o sonho que nos causa essa infelicidade. Especialmente se derivam de uma realidade de tempos passados que nos persegue até a morte. Como tem sido o meu caso. Toda a história que me assusta está narrada no meu livro Para sempre tricinco. Allende e eu, editado pelo meu amigo Carlos Loures em Estrolabio.

Não é estranho que os pesadelos nos façam sofrer. Não é apenas uma sensação emotiva, é também fisiológica: é uma opressão angustiosa da respiração durante o sono. Como etnopsicólogo que sou, era capaz de curar essa sensação de opressão, mas não a mim próprio, sendo o sujeito de essa angústia. Uma angústia que advêm da realidade,

Faz quase quarenta anos antes de este dia, o país era governado por uma coligação de Partidos de esquerda, entendo-se por esquerda grupos radicais que queriam que todos formos iguais, abolir a propriedade privada causa de todo os mal-estares da população que, como entrada para sobreviver, tinha apenas a sua força de trabalho. No Chile, a pobreza era tão desesperante, que ora governavam os que tinham dinheiros e posses e investiam em favor do povo, ora governavam os que nada tinham e melhoravam, procurando fabricação de bens para vender, ou alugando o tesouro de nação, como as minas de cobre aos norte-americanos, ou as de salitre aos ingleses e alemães. O Chile cobrava apenas a exportação dos minerais e não os transformava, no tinha esse tipo de indústria O trabalho mais usual era a agricultura, a vida rural e a produção de bens para exportar o consumir dentro do país. No entanto, os melhores produtos agrícolas eram trabalhados por empresas e técnicos de outros países, como a remolacha em língua mapudungum, ou beterraba em português ou betarraga em castelhano tradicional, a língua do Chile, que as transformavam em açúcar, para a exportação ou para consumo interno. A de exportação, era mais cara, tinha um destino, os mercados internacionais; a de consumo interno, era mais barata mas não tinha essa virtude de adoçar a bebida, chá ou café ou bebidas como a mistela: vinho com água e açúcar, ou as bebidas mais populares, feitas em casa, como as limonadas o sumo de laranja, frutos retirados dos quintais das casas rurais o dos grandes troços de terra com árvores, das casas mais ricas, herdadas desde o tempo em que o Chile era dependente da coroa de Espanha, era uma colónia dos países europeus uma colónia em que o território está povoado por colonos sujeitos ao governo da metrópole, sendo colono cultivador. Ou os vinhos, cultivados em terras chilenas pelas melhores indústrias dos vinhos franceses, ou cultivados dentro do país na base de vinhas trazidas da França, antes das cepas francesas e de outros países europeus foram atacadas por uma infecção que mata as vinhas e os países não têm vinho por causa da filoxera, ou pequeno insectoinseto hemíptero polimorfo que ataca as videiras, que resultam em doenças das videiras causadas por este insecto. Foi a época dourada do Chile: não apenas fabricava os melhores vinhosinseto das cepas francesas antes da doença da filoxera, bem como, por outra parte, vendia cepas que exportava em barcos, milhares de elas, ou alugava as melhores terras de cepa a indústrias europeias.  O Chile era pobre, porque emprestava as suas terras, minerais, hortaliças em troca de impostos, aluguer ou outros contratos, como fabricar rolhas dos sobreiros do Alentejo. A mão-de-obra no Chile era mais barata que em Portugal, a o número de rolhas fabricado era aos milhares, como comprovei ao visitar o país, na comitiva do Ministro da Ciência, que supervisionava este tipo de actividades, que precisavam não apenas saber e boa tecnologia, bem como bens mecânicos e produtos químicos.

Essa era o Chile que eu sempre conheci, que li, que morei durante um número curto de anos, que amei e amo, a minha Pátria, apesar dos meus ancestrais espanhóis, de divergências políticas, a eterna luta política para arrecadar adultos e apoiar às pessoas de esquerda. Dentro da minha família, nada era possível: não apenas eram espanhóis fundadores da Nação, bem como sempre apoiavam aos que vendiam o solo pátrio às indústrias estrangeiras, ou as alugavam. No Chile nunca houve pessoas ricas, era um país de miseráveis que trabalhavam para europeus que, pelo menos, garantiam o seu salário. Os industriais chilenos ou pagavam ou adiavam os salários ou entregavam terras para serem exploradas pelas famílias do homem que trabalhava, em troca de terras, nas terras do denominado patrão, ou os proprietários das terás, que apenas visitavam para férias ou fazer contas com o capataz.

O meu pesadelo nasce de todas estas ideias e emoções. Cansados já da pobreza do país, vários grupos social-democratas marxistas, juntaram as suas forças e foi eleito, em 1970, como todos sabemos, Salvador Allende, marxista convicto, que alastrara a população do país para uma rebelião nas urnas de sufrágio, e foi eleito Presidente da República. Grande sofrimento, como narra a minha biografia. Durante anos fomos perseguidos, esfomeados, encurralados, para criar um caos no povo todo. Com grande sucesso para os que organizaram greves de transportes, de alimentos, do terror que tinham ao socialismo. Era-lhes impossível aceitar essa frase de Marx, escrita no seu Manifesto Comunista: de todos, conforme as suas capacidades; para todos, segundo as suas necessidades. Lembro-me ter vivido, de forma voluntariosa, essa ideia. No nosso Departamento da Pontifícia Universidade do Chile, criamos um fundo de salários, e cada mês era repartido entre todos, conforme essas necessidades. Por ser candidato a Doutor, Magister e Director do Departamento, era quem mais ganhava, em consequência, quem mais perdia, para fúria da minha mulher. A minha família pensava que eu era parte de um grupo de tolos que queríamos atraiçoar a Pátria, ao vende-la aos comunistas. Quê ignorância! Qual era a ideologia que ia comprar um país? Eram os países objecto de comércio? A nossa rebelião contra os que sempre governaram o país foi imensa e deixaram de nós visitar, falar, o saber de nós, os três irmãos socialistas, as suas mulheres e maridos e netos.

Uma noite, sem saber como, bateram a porta da nossa casa. Foi registada, assaltada, livros queimados e conduziram-me, entre a fileira de 35 soldados, armados com baionetas, metralhas, todas apontadas para nossa casa e a minha pessoa. Eu tinha voltado da Grã-Bretanha para saber como era o Chile socialista, país anglo ao qual tínhamos tornado antes, para as minhas pós-graduações e especializações. Era evidente que pensavam que eu era um traidor, um conspirador, que procurava pontes de união no estrangeiro para apoiar ao nosso Presidente, ainda Candidato. Como é evidente, não era verdade, dedicava, como sempre o meu tempo aos meus estudos, até o ponto da minha mulher ficar farta de eu gastar tanto tempo na Biblioteca e a deixar só e com as nossas crianças.

Foi esse 18 de Setembro de 1973, com o nosso Presidente já assassinado, que fui levado ao campo de concentração, sítio no que estavam já todos os meus amigos, correligionários e assistentes. Levantaram as baionetas para me fuzilar, mudaram de ideia, não fui morto, mas fui perseguido esses dois meses de campo de concentração, julgado, sem comer, a nossa vida vigiada por agentes da polícia do ditador, com uma fiel mulher que acompanhara todos os meus passos e me defendera perante os seus parentes Almirantes e Generais. Nada resultou. Apenas a intervenção dos meus colegas de Cambridge, que enviaram um delegado para ficar baixo a sua protecção.

Não fui morto, mas durante mais de trinta anos fiquei sob a protecção britânica, sem família, no pior inverno da minha vida, noite as 4 da tarde, sem nunca dormir e a disfarçar a minha angústia de não deixarem sair a minha família do Chile, até que uma intervenção de Billy Callagham, conseguiu reunir-me com elas, seis meses depois das ter deixado abandonadas no Chile. Sorte era que a minha mulher era filha de um General, facilitou os trâmites do exílio, até o dia de hoje. Mas, desfez a minha família….

Esse foi o pesadelo que nem me permitia acordar nem respirar, até acordar com uma angústia profunda, que me levou a escrever, mais uma vez, estas letras, que já estão no meu livro Mis Camélias, na minha autobiografia e outros textos

É a escrita a que, me salva e me permite estar mais calmo após uma noite atribulada. Dizem por ai,  que não pense mais não assunto. Eu, só? Com a família toda separada e sem amigos que se interessem pela minha saúde, me visitem ou se interessem pela minha vida? A escrita é a minha salvação…

Comments

  1. graça dias says:

    boa noite, admiravel texto , parabéns prof. muitas felicidade, já sofreu o suficiente

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