Uma mala de cartão e um posto dos correios

Cansado da dura labuta, como a de todos os que passam o dia a usar o CU*, perdão, o CC** para mandar currículos por mail digitalmente assinado, coisa que impressiona de sobremaneira todo e qualquer empregador disposto a pagar até 800 euros (ilíquidos) por um licenciado, dizia, cansado dessa vida, decidiu-se Antomílio Pinto de Sousa (o nome é apenas uma coincidência) por uma vida melhor.

Ainda a mala não estava toda desmanchada e já tinha um emprego de prestígio, dizia-lhe o patrão, onde “todos os que eram alguém em Bruxelas acabavam por passar”, facto que ele atestava de cada vez que levantava os olhos da louça para olhar através da janela da copa.

Os dias corriam-lhe de feição, que era quando descansava das noites de trabalho, e aproveitava amiúde para melhor conhecer o castelo kafiano que lhe pagara alguns cursos do Fundo Social Europeu nos idos verões de 88 e 89. Num desses dias, passando em frente do Parlamento Europeu, deu de caras com o seu compatriota Zé Manel.

“Zé, pá, estás bom? Esta chuva, já viste? Não pára.”
“Antomílio, olá. Eh pá, tenho uma reunião, estou atrasado e ainda tenho pôr isto nos correios..”
“Levo-te isso pá, que também vou lá agora mesmo.”

Mas não foi. Quando se apercebeu que dentro do envelope estava um cheque de oito mil euros, achou que ao Zé Manel não faria falta a remessa de emigrante e voltou para Massamá. Ainda a tempo de ouvir na TVI que os correios do Parlamento Europeu tinham sido assaltados, de onde terão sido roubados uns milhares de euros.

“Bandidos, pá. Digo-te, aqueles franciús não são de confiança.”

Ajeitou a carteira, que lhe causava mau estar no bolso por causa do macinho de notas de vinte, e pensou no quanto era verdade que lá fora é que se faz vida.

  

* Cartão Único
** Cartão do Cidadão

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