Gostas? Tens a certeza? Gostas de quê, afinal?

Uma senhora morreu em sua casa e o seu corpo foi encontrado apenas agora, nove anos após o falecimento.

É uma notícia triste, de solidão , abandono e desinteresse, um retrato de certa sociedade que criámos. O meu colega José Freitas deu conta dos factos aqui no Aventar, num estilo curto, seco e objectivo. Dizia que o corpo da senhora e o do seu cão haviam sido encontrados após nove anos, pouco mais.

Bastou para que oito pessoas levantassem o polegar, carregassem no botão e dissessem Gosto. Gostam? Mas gostam de quê, podem dizer-me? Dada a natureza e o tom da notícia, parece que gostam da morte da senhora e do abandono do cadáver.

Eu sei que o botãozinho está lá, mas deve ser utilizado com um mínimo de inteligência. E de pudor, já agora.

Comments


  1. Uma das pessoas, aliás a primeira, fui eu. Porque gostei, e muito, do texto, da forma como lidou com a notícia, e sobretudo do título com todas as referências que arrasta.
    Se frequentasses mais o facebook percebias o que quem o faz já entendeu: gosta-se do texto, não na notícia.
    Mas também não és obrigado a gostar do Facebook, convém é que entendas o código.

  2. A. Pedro says:

    Eu também gostei do texto e da forma como o J. Freitas lidou com a notícia. É precisamente por isso que não entendo bem essa coisa de carregar no botão. E estou a ser claro: não entendo.


  3. Também sou claro: carrega-se no botão quando se gosta do que está escrito, seja sobre uma catástrofe, seja sobre uma festa de arromba. O resultado de carregar é partilhar o texto com os nossos contactos no Facebook. Entendes?


  4. Sim, A. Pedro, é como JJC diz, ‘gosta-se’ porque se gosta do texto, da imagem, como sinal de partilha, não necessariamente do que é contado no post. Nos meus primeiros dias de Facebook – e não vão assim tão longe – também achava esse clique um tanto estranho, sobretudo em conteúdos tristes, até perceber essa lógica facebookiana.

  5. A. Pedro says:

    Pois, para isso prefiro um botão que se chama partilhar.
    Se entendo? Sim, fazendo um esforço. Trata-se de um código e tal e tal. Para mim continua a ser mau gosto. Imagine-se por absurdo que morrem 20.000 pessoas num terramoto. Dá-se a notícia, bem como a deu o J. Freitas, sem interpretações nem sound bites, e 500 pessoas dizem gosto?
    Mude-se o código, porra.

  6. A. Pedro says:

    J.Freitas, pelos vistos comentámos em simultâneo e não tinha visto o teu. Entendo que se trata de uma lógica, mas tenho dificuldade em gostar.


  7. Penso que o “Gosto” no facebook adquiriu uma simbologia de sinal verde, Notícia válida a ser disseminada.
    Caso contrário seria, p. ex. , fazer passar informação sobre as execuções eminentes no Irão y informação afins.

    Estive a ler um art. no público sobre o caso. A Srª teve 1 vizinho/a q se deslocou 13 junto de 1 qq autoridade competente para tentar saber o q se passava, sempre mal sucedida na sua demanda. Contactou 5 familiares … Não falhou aqui a relação de proximidade. Falhou o reconhecer à relação de proximidade legitimidade para requerer tal info. Só o é reconhecido aos familiares, esse direito.
    É assunto para pensar. … Até onde legitimamos os nossos próximos, n familiares, a terem o direito de serem informados sobre nós. O Dilema Privacidade/”segurança”


  8. Mas concordo que devia haver 1 botão “N gosto” paralelo ao outro.

  9. A. Pedro says:

    Por exemplo. Claro que percebo os vossos argumentos no que diz respeito à disseminação e também percebo que se trata de prática corrente que virou “código”, digamos assim.
    Mas tem um lado paradoxal e implica uma contradição de linguagem. É a isso que me refiro.

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