O monstro com as garras de fora

(adão cruz)

E eu a julgar que o problema da Líbia era a decorrência natural do contágio das revoluções da Tunísia e do Egipto. Todos nos consideramos muito espertos até ao momento em que topamos com a nossa ingenuidade. Há momentos em que me sinto burro e vem-me logo à cabeça aquela frase de um velho médico meu amigo com quem trabalhei no início da minha carreira: “mais vale ser mil vezes tolo do que uma só vez burro”. Benza-te deus rapaz, como te deixas comer, diria minha mãe noutros tempos.

A verdade é que só comecei a topar a marosca quando dei conta pelos media, de alguns sinais de desinformação sobre os acontecimentos da Líbia, numa tentativa de semear a confusão no mundo. Quando comecei a ver as garras do monstro a sair, não só para o mediterrâneo mas para toda a imprensa mundial, através do grasnar das muitas aves agoirentas, denunciadoras da estratégia conspirativa do imperialismo, eu disse para os meus botões: aguenta-te nas canetas rapaz que isto é o princípio de um novo Iraque ou um novo Afeganistão. E arrepiei-me todo.

Muamar Kadhafi, que eu não gramo, por diversas razões, mas que não é comparável aos abjectos ditadores que os EU foram semeando pelo mundo, é uma pedra nos sapatos dos EU, apesar da reviravolta que deu no seu comportamento anti-americano. Se eu não o gramo, os EU gramam-no muito menos, por razões diferentes, e sempre se mantiveram como o leão à espera de desencadear o ataque para derrubar um líder sempre incómodo.

E a ocasião aí está, bem programada, incluindo a pré-medicação anestésica do mundo inteiro feita pela “Frente Nacional para a Salvação da Líbia”, ministrada pela experiente anestesista CIA. Obama condenou a violência, obviamente evitável pelo burro do Kadhafi, mas sem escrúpulos suficientes para ter vergonha na cara, se se lembrasse da extrema violência que desencadearam no Iraque e Afeganistão. E pediu sanções. E pôs a Senhora Clinton com um braçado de rosas nos braços, a dizer ao mundo que são apenas rosas, e que, para já, nem se pense que as rosas se transformarão em bombas. Somos lá nós, os justos do planeta, os emissários da paz, os polícias do mundo, capazes de usar bombas! Ámen! Entoa o execrável sacristão do sub-imperialismo europeu, não esquecendo a sábia recomendação de que os EU e a Europa deveriam “ajudar os líbios a derrubar Kadhafi”. Desta forma matar-se-iam três coelhos de uma cajadada: eliminava-se o mal, fabricava-se a democracia, e por ali ficavam para manter a ordem. Belo!!!

Comments


  1. O monstro chama-se Gadaffi Adão. O fascista que manda bombardear o seu povo. Ver o mundo com palas nos olhos faz mal à gente.


    • Caro J.J.Cardoso, sempre lutei, muitas vezes dificilmente, em toda a minha vida, para arrancar as palas com que outros procuraram direccionar-me os olhos. Felizes daqueles que não têm palas e vêem o mundo às claras.

  2. Artur says:

    Que sorte para a esquerda. Já estavam a ficar sem teorias da conspiração para usar contra os imperialistas americanos.
    Isto significa então que o “estado de graça” do Sr. Obama terminou? Até já estava a durar à bastante tempo. Talvez por ser negro e ter um nome que não rima bem com imperialismo e capitalismo, digo eu.

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