Programa de governo do PSD: sempre a matriz empresarial

O PSD pediu a 55 empresários contributos para um programa de governo cuja elaboração está a ser coordenada por Eduardo Catroga. António Horta Osório ( novo CEO do Lloyds Bank), Faria de Oliveira ( CGD), José Maria Ricciardi ( BES- Investimentos), Ferreira de Oliveira ( Galp), Vera Pires Coelho ( Edifer), são alguns dos empresários, de várias áreas da vida económica, que colaboraram com esta iniciativa. Desse pedido resultaram 365 ideias que serão publicadas em livro, com prefácio de Pedro Passos Coelho, que já declarou que o partido não está vinculado a essas ideias, mas que não deixará de “as ter em boa conta.”

Longe de mim desprezar em bloco qualquer contributo constituído por tantas partes. Não posso, no entanto, deixar de começar por notar a omnipresença de Catroga, o homem que cozinhou em sua casa o Orçamento de Estado que está a ser aplicado pelo governo que o PSD critica. Para os mais distraídos, é o mesmo Eduardo Catroga que já foi Ministro das Finanças, no último governo de Cavaco Silva. É o que se chama, certamente, uma lufada de ar fresco no mundo bafiento da política portuguesa.

Finalmente, a matriz dos últimos anos mantém-se. Na opinião de muitos políticos, da extrema-direita à esquerda aparente, a resolução dos problemas do país reside, apenas ou sobretudo, na visão empresarial. Trata-se de um paradigma em que vivemos há vários anos e que, ao que parece, não tem contribuído grandemente para resolver os problemas do País. Segundo esse paradigma, são os empresários que detêm as soluções milagrosas e desinteressadas, porque um país não seria, afinal, mais do que uma empresa.

Sabe-se que chegarão mais contributos com os estados gerais. Não sei se aí, ainda que em segundo lugar, serão ouvidas outras classes profissionais e auscultados outros quadrantes da sociedade. O que se sabe é que o coordenador é António Carrapatoso, gestor e um dos promotores do Compromisso Portugal.

Comments

  1. Rodrigo Costa says:

    Caro António Nabais,

    Eu não tenho grandes dúvidas de que qualquer solução, que vise resolver o problema que se vive —ou seja, a soma de muitos—, terá muito de empresarial. No final de contas, as sociedades estão estruturadas com base nos negócios; do “ter o que vender”, para que alguém possa comprar, estabelecendo a cadeia do “compra e vende”, para que a corrente, digamos assim, se mantenha.

    A questão de fundo, é que Portugal não tem empresários, no sentido absoluto do termo —pessoas com prazer nos negócios, mas, em simultâneo, com preocupações sociaios. O que Portugal tem, maioritariamente, é rufias dos negócios, pessoas sem escrúpulos, que chamam aos benefícios colaterais da sua acção, contributo para melhorar a qaulidade de vida da sociedade.

    A seu objectivo primordial é o lucro, a acumulação. Se não fosse, a PT e a EDP, por exemplo, em vez de distribuirem milhões pelos accionistas, distribuiriam menos, e os consumidores, no seu todo, pagariam menos pelos seus produtos —aliás, se se olhar para a cara de um e outro administradores, não conseguimos ver mais do que aves de rapina; porque, quer se queira, quer não, é o espírito que nos molda as feições.

    Sobre Passos Coelho, é óbvio que esgotou o prazo de validade, muito embora se perceba não ser fácil escusar-se a integrar, de uma forma ou de outra, o movimento; porque os políticos são elementos perdidos, dependentes dos ventos económicos, e, ainda por cima, a viverem em regime de promiscuidade —ora no Estado, ora no privado.

    Passos Coelho, como outros, desconhece o futuro; não sabe onde pode ir parar —se se olhar bem, nas últimas autárquicas, ficou visível que, depois de perder as eleições para a Câmara de Lisboa, pareceu-me que Santana Lopes, à falta de melhor, se contentaria com o lugar de porteiro —outro caso que merece estudo; sem substância e sempre no activo!…

    Ora, se é esta a realidade, como esperar que alguém resista e se mantenha no seu trilho, quando a personalidade não é muita?… No meu entendimento —que me estou marimbando para a política—, Passos Coelho hipotecou gande parte da credibilidade que poderia ter, durante as negociações com Sócrates, para o Pacto Social. Andar para trás e para a frente, ziguezagueando, desacreditou-o, por deixar transparecer que o afligia, mais do que impor a sua razão, perder o comboio; comboio que, diga-se, continua sem destino; e Passos Coelho perdeu-se por querer chegar a nenhures.

    O mal de Portugal é haver lixo que se eterniza. Há um sistema que me faz lembrar a “indústria” de Fátima: as velas são vendidas, queimadas e recicladas para voltarem ao mesmo.

    Talvez fosse interessante as pessoas preocuparem-se na discussão da “pessoa”. Criar foruns reais, cara-a-cara, para que se perceba o que nos impede de, sendo animais, podermos emprestar um cunho, verdadeiro, de racionalidade. Seria necessário que cada um se perguntasse quais as suas metas; por que faz o que faz, e por vai para onde vai; que fé há nisso… Porque, antes e depois de cada técnico, há uma pessoa, com características próprias, com determinado grau de educação e de ambição; e de ambição, até onde? Ninguém é, em nada, o que não é em si.

    • António Fernando Nabais says:

      Caro Rodrigo

      Também me parece que há muito lixo empresarial e estatal e não nego, em absoluto, que a organização do Estado deva receber contributos das áreas da Economia e da Gestão. O problema é que estas disciplinas estão transformadas em visão única, em paradigma considerado essencial. Não acredito numa sociedade justa que não tenha objectivos e essências humanistas. O problema é que a Gestão já não é um meio, é um fim em si mesmo.
      Na Educação, este paradigma é dominante, a ponto de as escolas serem, agora, unidades de gestão, imagine. Os prejuízos dessa visão economicista estão a dar cabo da Escola e da Sociedade. O PSD prossegue nessa senda e os resultados continuarão a ser catastróficos, na minha opinião.

  2. Manolo says:

    Ser PM nos próximos anos não será nenhuma pera doce para um pessoa de bem que quer o melhor para Portugal e todos os portugueses. O Eng Socrates governou o país como sendo uma quinta sua. Terá de ter muita coragem para acabar com tdos os institutos, fundações e empresas públicas nacionais, regionais e autarquicas. Este Estado tornou-se num colosso, enorme, gastador e clientelar. Os ministerios em especial o A saúde, a educação e segurança social, a defesa, a justica e o MAI gastam sem nenhum rigor e distribuindo milhões aos amigos em pareceres, assessorias e grupos de trabalho. A segurança social da era socratica gasta dez vezes mais que na era Santana. Chegias ronda as 2000. Centros de emprego que deveriam chamar-se de desemprego já são 98. È preciso leis organicas para todos os ministerios, juntar vários e organizar serviços. Contrariamente sou de opinião de que se devem manter os governos civis, como delegados do Governo atribuindo-lhe as competencias que lhe foram retiradas e devm ser reduzidos para 100 os concelhos e para 1000 freguesias no máximo. Acabar com os projectos PIN que mais não são do que disturção da concorrencia e cria sentimento de desigualdade nos investidores. Acabar com todas as empresas polis e passa-las para as autarquias. Acabar com a empresas para alugar meios para combate aos incendios, pois é antro de boys e nada mais. Acabar com todas as lojas do cidadão e negociar o valor das rendas monstruosas. Criar leis gerais e abstratas para obrigar as concessioárias de bombas de combustiveis a colocar carregadores para carros electricos. Só reduzindo este monstro podemos reduzir impostos e a corru~pção e captar investimento estrangeiro.

    • nightwishpt says:

      Tem noção que nem Passos Coelho, nem Seguro, nem Paulo Portas têm intenções de algum dia fazer alguma coisa disso, muito pelo contrário?

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  1. […] que nos governam confundam o governo de um país com a gestão de uma empresa, mas esse é o paradigma em que vivemos, com prejuízos para a maioria dos cidadãos e lucros para os que pagam aos […]

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