Crónicas dos tempos de crise: o PCP, o BE e a Troika

Uma das recorrentes limitações da política portuguesa é a tentativa de tapar o sol com uma peneira. Outra, é passar incólume entre os pingos da chuva. Foi o que fizeram BE e PCP com a troika que por cá anda. No caso concreto, tentaram tapar o sol com as cartilhas que, coitadas, nem tapam o sol nem resistem à chuva.

Não é por não ser recebida por estes partidos que a troika se vai embora e é por não se quererem comprometer (por mero taticismo de imagem, vulgo marketing) que PC e BE não desempenham o papel político que deviam.

Muito mais pragmáticos, realistas, empenhados e positivos foram os sindicatos ou, por exemplo, o Observatório Permanente da Justiça do insuspeito (em relação às suas simpatias pelo FMI) Boaventura Sousa Santos. Dos primeiros espera-se pragmatismo terra-a-terra e que lutem pelos direitos dos trabalhadores que representam, a começar pelos ordenados no final da cada mês. Ora, estando a situação no ponto em que está, não estando nem estes garantidos (a começar pelo funcionalismo público) nada como ir “negociar” com os negociadores e vincar que existem linhas que não podem ser ultrapassadas. Do segundo, como intelectual reconhecido que é, espera-se visão , sentido de antecipação e marcação de terreno. Demonstrou-as, ainda que os resultados possam ser nulos.

Os partidos que dizem representar os trabalhadores, as classes operárias e desfavorecidas, as juventudes urbanas, etc., etc., decidiram não representar coisa nenhuma -o BE com o argumento estapafúrdio de que o outro lado não negoceia coisa alguma, que se trata apenas de uma farsa. E como não negoceia, o BE faz birra e nada tem a dizer.

Partindo do princípio que os banqueiros, as classes possidentes, os mais fortes, os aparelhistas e os mais bem instalados têm quem os represente afanosamente -e até com excesso de zelo-, por representar ficam os outros, os mais expostos à crise, os que mais têm a perder em direitos e garantias. PCP e BE, preocupados com o seu umbigo, cortaram-lhes o pio.

Comments

  1. jorge fliscorno says:

    Então e a arma de arremesso “nós nem com eles falámos” a usar quando isto azedar? Mas não, os partidos do habitual arco governativo, e só eles, é que gerem o país em função dos seus interesses partidários.

  2. A. Pedro says:

    O BE diz que tem alternativas, Jorge, vai apresentar uma por dia. A quem? A quem vota, porque com quem tem a faca e o queijo não falam. Fazem lembrar o Sócrates, também andam em fase de negação. O cantinho começa mesmo a parecer um manicómio em ponto grande.


  3. Acreditar que existe alguma negociação, que essa gente ouviria um partido de esquerda, é obra. Nem os de direita ouvem. A única negociação está feita: chama-se PEC IV e foi feita pelo governo. O resto é areia para os olhos.

  4. Pedro M says:

    O BE e o PCP não faltaram a nenhuma negociação, porque não é uma negociação aquilo que está a decorrer, mas um “diálogo” teatral para apaziguar os nativos, dando-lhes uma falsa noção de que têm algum controlo sobre a situação.

    Pelos vistos está a resultar.

Trackbacks


  1. […] o BE decidiu não “falar” com a troika disse aqui que era um erro. Lembro-me de, nessa altura, haver quem me garantisse estar eu errado e não o BE e […]

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