Educação sempre a rimar com confusão: NO chegam ao Superior

A formação inicial dos professores corresponde, em termos simplistas, ao curso superior que confere a um indivíduo a necessária habilitação para poder dar aulas. Com o controlo que a mentalidade eduquesa vem exercendo, há vários anos, sobre as políticas educativas, a componente científica da formação inicial foi-se tornando cada vez mais irrelevante: o professor é, na realidade, visto como alguém que pode leccionar qualquer matéria, independentemente da especialização científica, como se pode confirmar no projecto de prolongar a monodocência até ao 6º ano.

aqui tive oportunidade de dar a minha opinião: a monodocência, mesmo no primeiro ciclo, é um disparate. Veja-se, por exemplo, o plano de estudos da licenciatura em Educação Básica da Escola Superior de Educação do Porto, curso esse que, complementado com o Mestrado em Ensino do 1º e 2º Ciclo do Ensino Básico, permite a formação de professores “para a docência generalista, no 1.º e 2.º Ciclo do Ensino Básico.”. Assim, as almas que inventaram este plano acreditam que um jovem mestre, ao fim de cinco anos, está preparado para leccionar Matemática, Língua Portuguesa ou outra coisa qualquer a alunos do 1º ao 6º ano.

No Público de hoje, ficamos a saber que o Ministério da Educação pretende que as Escolas Superiores de Educação possam, também, formar professores para o Ensino Secundário. É claro que se trata de uma nova oportunidade de negócio que as ESE não quererão enjeitar, aproveitando as habituais frestas da legislação produzida: a formação de professores do Secundário só pode ser feita através de licenciatura, grau que, desde 1997, pode ser concedido, também pelas Escolas Superiores de Educação. Estranha-se que tenham levado tanto tempo a descobrir esta abertura, mas a necessidade aguça o engenho.

A propósito desta possibilidade, o presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática, e citando o Público em papel, “lembra que uma das causas identificadas para as dificuldades dos alunos nesta disciplina se prende com as aprendizagens iniciais, precisamente a cargo de docentes formados pelas ESE”. Esta constatação pode aplicar-se, também, ao ensino da língua portuguesa, facto que passa ao lado de Edviges Ferreira, da Associação de Professores de Português, que, lembrando o óbvio, afirma, em defesa das ESE: “Não há um ensino de primeira e outro de segunda.”

Não vejo aqui, sequer, uma competição entre Universidades e ESEs. Para lá de problemas comuns a ambas, há uma diferença abissal nos conteúdos dos planos de estudos, que, de acordo com as tendências eduquesas, tenderão para a simplificação e, consequentemente, constituirão um golpe fatal na qualidade da formação inicial dos professores. As instituições que queiram manter rigor e exigência tenderão a facilitar, pressionadas pela concorrência, temendo a diminuição do número de alunos.

Vítimas de um sistema facilista que os afecta no básico e no secundário, arriscamo-nos a que os futuros professores sejam operários docentes, impreparados cientificamente, cheios de flores pedagógicas e prontos para manter a Escola Pública em estado comatoso.

Esta situação é da responsabilidade de quem vai poluindo o sistema educativo, não de quem lá trabalha. Desta maneira, antecipo, sem grandes ilusões, a resposta àqueles que queiram indignar-se, afirmando que estou a insultar professores e alunos do Ensino Superior.

Comments


  1. isto e um porcaria

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