A Europa das grandes ilusões

A situação parece adensar-se a cada dia que passa. Notícias da Grécia que já a ninguém surpreendem, manobras de diversão como o caso dos pepinos (não) envenenados e um país, este em que vivemos, onde todos os agentes políticos continuam numa normalíssima campanha eleitoral, como se nada de extraordinário se passasse.

Uma notícia quase despercebida, será um indício muito claro de um subterrâneo movimento de pânico que vai alastrando, mesmo naqueles países que exemplarmente geridos, em princípio escapariam aos tortuosos processos de aclimatização aos novos tempos de penúria. A Dinamarca é o exemplo mais recente e os seus ricos habitantes, tomaram a iniciativa de cortar o consumo, na esteira dos cortes operados pelo executivo. Outra situação inédita deste os tempos da II Guerra Mundial, consiste na actual situação grega, com uma rápida tomada de posição comunitária, pretendendo assumir a cobrança de impostos e o plano de privatizações dos activos do Estado helénico, sem descurar o previsível contratempo da reestruturação da dívida grega. Como bem diz Camilo Lourenço, o patamar parece já ser outro, pois se a condição de “Protectorado” parecia ter sido aceite tacitamente, hoje já podemos assumir uma nova forma de colonização. A U.E., ou melhor, a Alemanha, paga e assim pode exigir aquela implementação de reformas que reconduzam o todo europeu ao chumbado caminho do federalismo à medida alemã. Este é o verdadeiro cerne da questão, um antigo projecto que vem dos tempos do senhor na foto que abre este texto, o Kaiser Guilherme II, que numa carta escrita  em 1940 à sua irmã Margarida, dizia: …”a mão de Deus está a criar um novo mundo e a produzir milagres. Estamos a tornar-nos nos Estados Unidos da Europa sob a liderança alemã, um continente europeu unificado”. O mesmo tipo de pensamento era partilhado por Hermann Göring que muito a sério previa uma Europa a duas velocidades, mas infalivelmente unida sob a égide de Berlim. Importante nota de rodapé, “com ou sem a vitória” militar do III Reich.

Tal como o irlandês – na forja – ou o grego, o caso português será tratado de igual forma, até porque ainda não estamos bem conscientes daquilo que representará o não cumprimento do Memorando que o governo assinou com a Troika-Regente. Oportunas tiradas mediáticas aparte, Portugal não é a Grécia. Portugal possui um património histórico vivo e incomparavelmente superior ao da maioria dos Estados membros da União Europeia, não podendo sequer dar-se ao luxo de o desdenhar. Os gregos de Sócrates e de Péricles, foram substituídos por dois milénios de romanos, bárbaros e otomanos e a Grécia vive dessa saudade que a circunscreve às estreitas fronteiras físicas do território e pouco mais. No caso português, quem hoje abra um mapa-mundi e se dedique a visualizar o espaço de influência cultural portuguesa, vigorosamente plasmada por Estados muito recentes, apenas poderá concluir acerca do enorme esforço que urge impor aos medíocres e estouvados dirigentes do nosso regime.

Por aqui, há quem muito duvide da viabilidade de uma extensão institucional ao estilo da já formalmente dissolvida Treuhandanstalt, criada para enfrentar os problemas decorrentes da anexação da RDA. Talvez seja aplicável aos países satélites mais próximos do núcleo do projecto federalista, precisamente aqueles Estados que integraram o Eixo de 1940-45.

Tudo dependendo daquilo que nos nossos gabinetes de decisão se passar nos próximos seis meses, o regime poderá enfrentar um novo 1º de Dezembro que como o pretérito, chegará sem aviso.  Depois, logo se verá.

Comments


  1. A Alemanha paga é uma mistificação

    “Em número absolutos é verdade que é a Alemanha quem paga mais. É uma questão de tamanho da economia a da população. A Alemanha representa 30% a economia da eurozona e com 80 milhões de habitantes é o país com maior população. Por isso o depósito em dinheiro no mecanismo de estabilidade do euro (21.700 milhões) e as suas garantias (168.300 milhões) são as maiores.”

    Já no que respeita à contribuição segundo a percentagem do PIB e a população, a Alemanha surge em sexto lugar atrás de Malta, Portugal, Eslovénia, Itália e Espanha. Isto demonstra que o maior esforço proporcional de contribuição para o FEEF não é o da Alemanha como nos querem fazer crer e aos próprios alemães.

    Fonte: La vanguardia

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