Eurobonds

-Imagine o estimado leitor, este cenário perfeitamente comum. Um prédio com 10 fracções, todas elas hipotecadas a diversos Bancos, cada um com o seu empréstimo particular, livremente negociado, o que implica diferentes prazos de pagamento, spread e taxa de juro, esta normalmente indexada à Euribor, mas ainda assim a 3, 6 meses ou 1 ano, eventualmente alguém poderá ter optado por taxa fixa. Formam um condomínio, que os une. Vamos admitir que alguém se lembraria de reunir todas as dívidas numa única, uniformizando as taxas de juro. Em prol da harmonia e boa vizinhança, a ideia poderia ser muito bonita, mas na prática, implicaria aumentar a prestação dos que pagam menos, porque deram uma entrada maior, garantias bancárias que mereceram uma melhor avaliação ou auferem um maior rendimento, mesmo que tenham 2 empregos ou trabalhem até à exaustão. Por sua vez, os que têm menos rendimentos, seja por estarem menos qualificados, terem estudado menos ou trabalharem o mínimo, veriam recompensado o seu menor esforço. Acredita o leitor ser possível, colocar esta ideia em prática? O princípio é equivalente aos eurobonds, emissão de dívida pública europeia, que permitiriam descer a taxa de juro a países como Portugal, aumentando por exemplo à Alemanha… Eu confesso que a ideia não me desagradaria, tenho é dúvidas que os alemães alinhem, e admito que até os percebo…

Comments

  1. Nightwish says:

    O problema é que os inquilinos ganham dinheiro a trocar bens e serviços todos entre eles e entrando 2 em bancarrota os primeiros não vêm o dinheiro. Podem é andar mais uns anos a fazer de conta e a baralhar dinheiro de um lado para o outro, mas não é por quererem e por fazerem os outros produzirem menos que vão receber o que querem. Durante esses anos, arriscam-se a ficar sem a moeda e sem condomínio porque mostram que cada um deve pensar é em si, esse é que é o caminho.


  2. Existem 2 caminhos possíveis, aprofundar a integração, implica cedência de soberania, rumo ao federalismo, mas depois não nos poderemos queixar que somos governados a partir do exterior. Ou tentar resolver agora o problema da dívida e mais tarde sair do Euro, de forma negociada, evitando uma desvalorização brutal em poucos dias, que teria consequências catastróficas. Obviamente que Portugal e principalmente a Grécia, jamais deveriam ter entrado, mas entraram, quanto a isso nada a fazer agora, os problemas não se resolvem lamentando o passado.

  3. Rodrigo Costa says:

    O problema, António, não foi terem entrado; foi terem tido, desde a adesão e enquanto o dinheiro jorrou, comportamentos inadequados.

    O que aconteceu a Portugal —com os problemas da Grécia, Portugal pode bem, apesar dos efeitos colaterais— é o que acontece com aqueles filhos de pais que lhes fracilitam tudo, que lhes dão tudo, sem que necessitem de mexer uma palha. A ordem é regabofe, regabofe, regabofe… Até ao dia em que o pai, contas analisadas, chega a acasa e chega à conclusão de que é necessário arrepiar caminho… É o cabo dos trabalhos, porque, entretanto, já ninguém sabe nem consegue viver sem gastar, gastar, gastar; nunca houve quem os avisasse sobre a contenção, como consequência de se perceber que há uma coluna de prioridades; e, mais, os oportunistas concluiram que estavam criadas as condições para fazer fortuna, bastando que criassem e vendessem vícios.

    Ao contrário de se concluir que, a médio-longo prazo, o negócio faliria, decidiu-se reconhecer, na esperteza, o olho para o negócio, a capacidade empreendedora.

    Então, eu, que sempre fui contrário ao associativismo, salvo se se associam pessoas do mesmo nível e com os mesmos objectivos —esta é a razão por que a democracia não funciona; porque se pretende fundir “materiais” que não se ligam—, continuo assim; porque, sendo verdade que o colectivo pode e deve moldar o indivíduo, é o indivíduo, por si mesmo, que deve valorizar-se e, como que sem querer, naturalmente, valorizar o colectivo —o casamento pode mudar, para melhor, as pessoas, mas haverá mais hipópteses de o casamento ter eficácia, nesse sentido, se as pessoas, cada uma por si, já forem boas.

    Vem isto a propósito, já agora, da tertúlia sobre Sá Carneiro, pessoa que não teve tempo de confirmar ou desmentir muitas das qualidades que lhe eram e são atribuídas, na medida em que só se sabe se o rei é bom rei, depois que começa a reinar. E quer-me parecer que Sá Carneiro “beneficiou” do desaparecimento extemporâneo, tornamdo-se mito; uma espécie de amor-perfeito, por nunca ser vivido. Culpa dele?….

    Seria injusto —mas a esperança tola é assim!— depositar nos ombros de uma pessoa ou de um grupo de pessoas a tarefa de modificar uma sociedade; de a modificar profundamente, tanto quanto ela necessita ser modificada, sem que as partes, os indivíduos, eles próprios, colaborem, transformamdo-se eles mesmos. E a verdade é que se continua a olhar ou esperar os políticos como medicamento de cura, sem que, da parte das pessoas, apareçam as medidas profilácticas. No fundo, como esperar que sejam remédio pessoas que, em média, nunca cultivaram a profilaxia, uma vez contidas e saídas da mesma sociedade?…

    Para que alguém pudesse ser remédio, teria que aparecer munido de conhecimento e de experiência de vida, sendo capaz da aplicação de medidas ditatoriais, porque o estado a que se chegou deve-se, exactamente, ao excesso de parlamentarismo; pior, à permissão da palavra a pessoas que a não poderiam ter —salvo em proveito próprio—, por falta de preparação que lhes permitisse a argumentação equidistante.

    Então, como sempre disse, desde o principio de uma crise que se adivinhava, aquilo a que assistimos não é uma crise económica, mas uma crise de princípios, com carácter afectivo e com reflexos económicos.

    Não vale a pena culpar a Alemanha, porque, na pior das hipóteses, os alemães praticam o mesmo modelo que praticam as intituições de crédito Portuguesas: emprestar e ganhar com o que emprestam; tendo lucro com as necessidades das pessoas. Cabe às pessoas e aos países perceberem e separarem o essencial do acessório, para que ninguém lucre, pelo menos, com as suas falsas necessidades —dinheiro para férias, para carros, para farras, porque não estamos a falar, propriamente, de investimento, mas de gastos. Cada qual, já toda a gente sabe, colhe o que semeia, e deve responsabilizar-se pela colheita. E se é verdade que os vampiros existem e se alimentam de sangue, também é verdade que é necessário que haja sangue; e somos nós, muitas vezes, que, por masoquismo, nos cortamos e deixamos que o cheiro lhes chegue.

  4. Mário Patrício says:

    O exemplo é mal escolhido porque num prédio as casas ou são todas iguais (a mesma permilagem), ou se forem diferentes o pagamento das despesas é feito conforme a área ocupada.
    No edifício Europa, existem inquilinos com um T0 (Portugal e Grécia, por exemplo), T1 até ao T5 (casos da França e da Alemanha). Isto quer dizer, que Portugal teria que pagar muito menos que a Alemanha. De facto acontece isso no que troca às contribuições para UE.
    Mas a Europa não é um prédio, é um negócio, porque não chega a ser um federalismo (a Alemanha e a França nunca o deixaram).
    A união Europeia foi formada pelas regiões mais importantes e geradoras de dinheiro da Europa continental: Itália, Alemanha, França, Holanda, Bélgica e Luxemburgo. E, apesar de terem uma produtividade sem precedentes viram-se com a dificuldade de escoar os produtos que produziam.
    E inventaram a união europeia e deixaram outros países, mais pobres, ou não tão capazes, de entrar neste grande clube. “Não tens dinheiro, não faz mal que eu pago-te a quota”. E emprestaram dinheiro, com o objectivo politico de ajudar os países europeus em desenvolvimento a chegar aos patamares dos grandes países europeus. Mas o objectivo financeiro, aquele que realmente acerta o nosso dia-a-dia, foi os países pequenos terem dinheiro para comprarem os produtos feitos por esses grandes europeus.
    Acabámos com a agricultura, a europa produzia mais e melhor na França, Alemanha, Bélgica e Espanha, acabámos com a Indústria, como competir com a França e com a Alemanha.
    Vamos para o Algarve e vemos Renaults, Citroens, Audis, Mercedes, BMW. Comprávamos Phillips (agora é Sony).

    Em relação à entrada no Euro. A Inglaterra não entrou porque achou que a perda da soberania sobre a sua moeda, nas condições em que estava a ser feito os negócios, era negativa para o Reino Unido.

    A partir do momento em que ficou tudo acordado, os países grandes deviam ter visto que o negócio corria para os dois lados. Para o lado da receita e para o lado da despesa. Não aceito ser europeu quando dá jeito… aos outros. Se o Euro é de todos, todos tem que assumir as receitas e as despesas e os problemas que advêm dos desequilíbrios, que já eram conhecidos, nas contas publicas dos países. Não vamos agora assobiar para o lado e eles que se enterrem.

    Em relação à Alemanha e à França. Deixaram a bola de neve crescer, a Itália e a Espanha irão na enxurrada e, juntamente com os outros PIIGS, representam 25% do PIB europeu. Se estes países se afundarem, o Euro desvaloriza mais de 50%, ficando, outra vez, na zona do 0.8$… O que para os bancos alemães e franceses é um desastre… É quando se chega à beira do precipício…

    Interrogo-me se, caso o comunismo não tem capitulado, este problema tinha acontecido… Julgo que não. O capital não deixaria mostrar que era melhor que os comunistas… Afinal, em termos de modelo económico, podem conviver na mesma lixeira…

    • Rodrigo Costa says:

      Ora, como o Mário acaba de esclarecer —perfeitamente—, a questão é simples; e, parece-me, os extremos ameaçam tocar-se, porque todos começam a perder com o negócio, apesar de, aparentemente, a Alemanha estar a ganhar —muitas derrotas começam por vitórias.


      • A Alemanha terá que se preocupar com a Rússia, uma potência cada vez mais emergente e que se tornará incontornável durante este século. No entanto, ao contrário do que o Mário afirma, o exemplo não está mal escolhido, pois um T0 pode perfeitamente ter uma taxa de empréstimo mais baixa que o T3, varia sim, partindo do princípio que estamos no mesmo prédio, o capital em dívida…

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