As crianças crescem

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(texto em quatro andamentos, escrito velozmente ao som de Tchaikowsky)

Para o meu primo consanguíneo Pablo Morales Redondo, falecido anteontem

Pequena introdução

Éramos 21 primos consanguíneos, filhos de cinco imãs e de um único irmão. As nossas férias ou eram na nossa quinta de Laguna Verde, sempre juntos, ou nas várias fazendas da família. Sempre juntos, agrupados apenas por grupos de idades. Pablo era o rei dos primos, o mais velho, o mais elegante, o mais sábio. Sabia partilhar a sua sã alegria com os seus pais e as suas irmãs. Ironias do destino: nasceu num primeiro de

Maio, mas nunca parou de trabalhar nos seus estudos, nas suas práticas, na sua indústria, na sua fazenda do Peru. Era Engenheiro Comercial, a nossa ideologia era diferente, mas, por estudarmos na mesma Universidade, A Pontifícia Católica de Valparaiso, a Universidade em que toda a família estudou, disse-me um dia: sei que levas uma grande obra como membro da Associação de Estudantes, mandas em nós, tratas dos mais desvalidos da população com os teus colaboradores e és o estudante mais famoso e reconhecido da Universidade. As nossas ideias são diferentes: não gosto de rotos (descosidos em luso português), mas tu até moras com eles. És muito cristão e nada liberal, és dos partidos da esquerda que nos fazem mal, a nós, os ricos, e tu não te importas. No entanto, sempre voto por ti, porque somos família, quase irmãos.

Palavra que nunca esqueci e prometi não contar a ninguém. Agora que não está, já posso falar. Em todas as minhas corridas a presidência, não apenas votava em mim, mas estendia-se aos seus colegas liberais. Sempre ganhei, até com a sua colaboração e a do seu grupo liberal, aos que eu proferia conferências, ganhando sempre os debates. Nos verões, eu levava ao meu grupo para a área rural para alfabetizar e organizar sindicatos, ele ia a cidade de Chiclayo, no Peru, como parte da sua formação. Em Lima conheceu uma linda rapariga Sara Maria, caiu como o seu apelido, e o meu, Redondo de enamorado. Casaram, filhos, netos e bisnetos. Foi visitar-me a Cambridge, apenas falou de doutoramento, não quis falar de política nem sabe porque estávamos ai. Como toda a família que nos visitava.

Era elegante, sabia falar bem várias línguas, esguio, louro, profundamente católico, fiel, casto, muito rico em terras, indústria. Dois irmãos primos, um liberal, ou outro socialista, mas que se entendiam bem. As minhas visitas ao Chile eram coroadas pelas suas visitas com a sua mulher. Sabíamos o que era necessário saber para nos entendermos.

Faleceu. A única irmã sobrevivente das nossas mães, falou comigo ontem a noite, calma e tranquila, dizendo: finalmente, descansou…

Este texto é para o primo irmão….enquanto vai a enterrar….funeral marcado para ser íntimo e não como o dos nossos pais, em que o trânsito parou… por causa da fama…o dinheiro permite ser calmo e conhecido. Há funerais como o do Pablo privados, apenas com cartões de convite, outros, como o dos nossos pais, impossíveis, tão grande é a fama…  e a bonomia.

Não sou homem de fé, mas os encomendo as suas divindades, em companhia das suas irmãs, da sua mulher e toda a sua larga descendência…As crianças nascem, crescem multiplicam-se e falecem. Mas é a lei da vida a qual ninguém pode escapar.

1º ANDAMENTO 

É o crescimento das crianças, que tenho observado ao longo do tempo. Também das minhas, mas não só. As minhas são as mais importantes. Feitas por mim, em conjunto com a pessoa da minha paixão. Mas, há mais crianças que se dedicam à ciência observam e com as quais aprendem. E que acabamos por não incluir nos nossos estudos. Porque para um observador das ideias com as quais as pessoas transformam a materialidade da vida para a sua continuidade na histórica, voir, a sua reprodução, a criança acaba por ser um dado inexistente.

A Ciência tende a ver a criança como a pequenada que está aí sem mexer nem dizer nada. Só se cala e observa e serve para ser mandada ou para aliviar a trabalheira do que o adulto faz.

Atitude diferente tiveram através dos tempos, John Locke ( 1693 ), Jean Jacques Rousseau ( 1762 ), Bronislaw Malinowski ( 1922 ), os etnólogos portugueses como Teófilo Braga ( 1914-1915 ), Adolfo Coelho ( 1882-1916 ), Maria Rosa Colaço ( s´d ), Maria Emília Traça (1992), e toda a equipa que tem comigo trabalhado nas duas ultimas décadas em Portugal, Espanha, França, Holanda, África, América Latina. Philippe Ariés (1960-1972) soube caracterizar muito bem essa atitude diferente, ao longo do tempo.

É com esse respeito de aprender com as crianças que a minha querida equipa tem trabalhado em vários Países e Continentes. Equipa de que fazem parte Luiza Cortesão, Stephen Stoer, Helena Costa, Telmo Caria, Ricardo Vieira, Filipe Reis, Amélia Frazão, Darlinda Moreira, Ângela Nunes, Paulo Raposo, Luís Souta, Henrique Gomes de Araújo, Rosa Melo, Eduardo Costa, Alexandre Silva, Elvira Lobo, José Maria Cardesin, José Maria Valcuende, Marie-Elisabeth Handmann, Paula Iturra, Blanca Iturra, entre outros. Outro, porque não é minha intenção aborrecer o leitor com uma longa lista de estudiosos do comportamento infantil.

Quero só dizer que todos nós, como equipa, temos tido a preocupação de andar de papel e lápis na mão, a brincar, a recolher histórias da memória social do grupo no qual a criança vive.

O problema é que a Ciência da Educação fecha-se na instituição escolar e a Psicologia no problema da relação da criança com o adulto e deste com a criança ou na questão da violência intrafamiliar. Tchaikowsky ( 1877 ) e Schumann ( 1838 ) souberam ver o poema da pequenada nas suas músicas, as que me acompanham nesta escrita veloz para que o texto chegue a tempo à editora do jornal.

Acabo de regressar da América do Sul. Aí, em Pencahue, Chile, no dia do aniversário do Libertador Bernardo OíHiggins, em 20 de Agosto de 1779. Parei o trabalho de pesquisa que estava a realizar com um grupo de crianças para redigir o texto publicado antes neste sítio de debate. Debate entre autores, sobre esse trabalho que realizei com as crianças, fica para Novembro. Hoje, quero referir-me às crianças que conheci e estudei, faz agora 25 anos, na minha aldeia galega ó antiga camponesa ó de Vilatuxe. Aldeia onde morei e trabalhei há 25 anos e onde voltei a morar e a trabalhar há oito meses. 

2º ANDAMENTO 

Estamos habituados a ver as crianças. Aí estão, choram, têm fome, são queridos enquanto exploram os mundos que mal conhecem. E com esforço e atenção concentrada, ouvem, vem e calam. Nessa Vilatuxe galega do começo dos anos setenta, Berta e Pedro Tomé brincavam com os porcos e andavam a cavalo sobre os mesmos. Os adultos riam e deixavam. Até porque no seu imaginário tinham baptizado os animais com os nomes dos antigos príncipes, hoje Reis depois da morte do Ditador. E era assim que esses pequenos, como a vizinha Beatriz Ramos, exprimiam o que em casa era sentido mas não falado, o descontentamento das pessoas com o sistema político.

Esse sistema político que não permitia que as pessoas exprimissem o que pensavam e desejavam dizer. Pequenos que sentiam o sentir do adulto e punham palavras ai onde as meias frases segredavam o que os adultos pensavam do poder político. Neruda (adulto que escrevia com a dor do adulto, para os pequenos) tinha dito nos anos vinte – por que no enseñan a sacar miel del sol a Los helicópteros ? Como esse outro Prémio Nobel Chileno, Gabriela Mistral, que pelos mesmos anos 20 tinha dito: Piececitos de niños, azulosos de frio, como os vem y no os cubren, Dios mio...Diferente do saltitar de Berta, Pedro, Beatriz e Paula, por cima das lombadas dos porcos exprimindo a proibida crítica política ao ditador da Espanha, morto santamente anos depois. E com o consentimento dos adultos, que não mandavam calar, era uma verdadeira forma de protesto contra a construção do mundo adulto que a criança percebia mas não sabia explicar. Só sabia sentir o que o adulto sentia e não o podia dizer. Nenhum deles, nem o pai da Paula, observador silencioso dos factos com que analisava os comportamentos. Mas, foi aí que esses quatro e muitos outros que refiro num livro maior, para este periódico, o aprenderam a dizer, depois de sentir e pensar e elaborar, por pura afectividade, o que os seus adultos calavam.

O protesto democrático pela liberdade que Rousseau tanto procurou para o pequeno e para o adulto, de exílio em exílio, só podia ser dito pelo pequeno. E era a criança, como é agora, que condicionava a conduta do adulto. Porque no segredo da casa, tudo se falava, mas tudo dito para não ser repetido lá fora. Excepto, nas brincadeiras que a pequenada imaginava a partir do que ouvia e sentia dos grandes que amava. E que esses grandes sabiam dizer de forma tangencial, para não serem tão abertos que viessem a aparecer palavras comprometedoras para a segurança do grupo doméstico que amavam.

A brincadeira, saiba a pequenada ou não, é política e como política, liberta a opressão dos adultos responsáveis pelas crianças. Foi assim em Portugal, como foi em 1848 na Comuna de Paris que abalou o mundo e fez entrar a Prússia em França. Como no Chile de hoje, onde as crianças utilizam a fala oficial frente aos seus mestres e nas suas brincadeiras utilizam os palavrões que revelam os silêncios das pessoas grandes.

3º ANDAMENTO

 A conduta do pequeno condiciona a conduta do adulto. É um facto observado por mim e pelos meus companheiros de pesquisa em vários Continentes e Países. Nem digo os pequenos mortos em Ruanda, que Paula Iturra em Amesterdão trata analiticamente para os pais fazerem o luto. A conduta dos pequenos condiciona mais a dos adultos que o contrário. É verdade que as palavras vêm do adulto, bem como as ideias. Como é também verdade que a realidade a ser aprendida pela criançada, é a verdade exprimida pelo sentimento do mais velho. Esse que nem repara que o gesto da cara, o protesto da palavra, a poupança nos ingressos raros, o comentário com a vizinhança em presença do puto e em voz calada, mostra aos mais novos a contradição entre a lição dita oralmente e com punição, caso for repetida, e o riso forte Das Auroras e Pepes Tomé Fernández, dos Pepes Ramos, riso profundo,  forte e honesto dos mesmos perante a ironia dos inventos dos príncipes porcos, hoje Reis respeitados ou distantes.

O adulto vê condicionada a sua conduta, conscientemente ou não, pelo temor de ouvir as suas palavras serem repetidas pela pequenada. Sem reparar que a pequenada é fiel quando há, como nos casos supracitados, amor, cuidado, histórias que se contam, agasalho, comida quente, passeios quando possível.

O adulto quer manter a sua vida como se não houvesse entendimentos diferenciados, horários diferenciados entre as duas gerações, ou às vezes três. Quando o adulto não repara que os horários e hábitos de interacção social limitam a liberdade assim denominada, que o adulto tem. Porque esse grandão já não pode, por um tempo, fazer só o que quer: tem de tomar conta de fraldas, de perguntas, de não substituir iniciativas, de sugerir ideais alternativas quando os pequenos podem ofender os mais velhos com as suas brincadeiras. Ou, pôr em aperto os outros, com as suas opiniões espontâneas, nascidas da diferença do que vêm no seu lar e do que observa no lar dos outros. Aí nasce a crítica feita dentro de casa, quando o adulto manda calar o mais novo, sem reparar que o mais novo está a construir uma lógica que virá a reger a sua vida mais tarde.

Eu diria que o adulto não cresce. Porque para crescer, deve separar em debate com o novo, o que sente e pensa, do que o mais novo observa.

Beatriz disse-me há meses, 25 anos depois da sua infância: “a tua sogra, Raul, bebia e fumava até não poder mais”. O que acontecia é que ela era uma dama que não trabalhava e que, de visita à sua família na aldeia durante as suas férias, tomava o seu aperitivo e fumava o seu cigarro depois do jantar. Ora isto, contemplado pelo hábito da mulher que só trabalhava e tinha hábitos diferentes do homem, era uma perversão para uma pequena e para o seu lar. Lar que nunca usou o método comparativo para explicar que o mundo não é etnocêntrico, é relativo.

4º ANDAMENTO

Relativismo que, com crianças crescidas, a pequenada passa a conhecer e não só não critica, como aprende e prática de forma parcimoniosa. Vinte e cinco anos depois, quando o matrimónio acontece, e ao par se junta, a profissão, o cálculo, a liberdade para utilizar o imaginário no cálculo e já não a brincar aos príncipes com os porcos.

Crianças monárquicas por hábito, para assegurar a democracia hoje vivida em tanto País por onde tenho andado. Criança que nem o adulto anterior, acaba por entender. Porque os Pedros desenhadores arquitectos, sem voltarem à aldeia, as Bertas mestras, as Beatrizes proprietárias e comerciantes, as Paulas psicanalistas, tratam os seus adultos com a distância que lhes dá o saber da Ciência que praticam. Uma Ciência que acham diferente dos seus adultos e os levam a tratar os mesmos como se fossem seus clientes. Tudo isto agravado pelo novo ideal da autonomia e do individualismo, não vividos pelo adulto maduro. A geração anterior está muito perto em idade, por assim dizer, mas entende de forma muito diferente o real.

A criança cresce agora numa família restrita, de pares sucessivos, procurando a emotividade da família alargada. Mas, com o objectivo de serem autónomos, individualistas, de pares de vida celibatária, heterogénea, com acordares novos para a afectividade. As crianças crescem e fazem ficar o adulto anterior, pequeno. Porque o adulto anterior guarda a afectividade e comemorava o sucesso da mudança de vida, em silêncio, sem entender muito o conteúdo das conversas. Num curto espaço de tempo, as duas culturas, a adulta e a da infância que tenho observado durante décadas, têm ganho distância no entender, no saber, e na prática.

Ali, onde faz 25 anos, encontrei um conjunto de seres com um modo de vida rural a tratar do campo, encontro agora um passado que desaparece para dar passo a raros empresários rurais, e uma multidão de profissionais que fazem da vida anterior, quotidiana, um eventual fim-de-semana. Com correcção dos mais adultos. As crianças crescem com a ética desses adultos, transformada pela entrada nos Países das ideias semeadas no Séc. XVIII e tendo hoje o lucro como principal objectivo. Objectivo que, há 25 anos, nem era percebido pelos mais novos, nem estava nos cálculos dos mais velhos.

Porem, a criança precisa de ser estudada no seu contexto conjuntural, transitório, mutável. E reiterativo como o tempo, todos os quarenta anos…Como vamos voltar a explicar depois. Orgulhosamente à la Rousseau, como defendem Stoer e Magalhães (1998). E todos nós.

Como Pablo, o meu primo, que vivia com tudo isto, sem saber o dia e a hora do seu derradeiro adeus. Esse Pablo que, enquanto escrevo, vai a enterrar, que criou e procriou, um Pablo com uma Sara Maria, e a descendência órfã de pai, a partir deste dia. Mas com lições calmas que soube importar, sereno como era quando o vi pela primeira vez, faz setenta anos antes e reparei que existia….

Do teu primo consanguíneo

Pollo

Raul Iturra

Parede, 30 de Agosto de 2011

 

Comments


  1. Parabenizo o maravilhoso texto que acabo de ler e reler.
    João Massapina

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