Desalavanca-me toda, querido!

A personagem de Jamie Lee Curtis, de Um Peixe Chamado Wanda, tinha a particularidade de ficar excitada sempre que ouvia qualquer língua que não a inglesa. Pergunto-me se a mesma personagem resistiria aos encantos do economês de Carlos Costa, o governador do Banco de Portugal. Como pode uma mulher não gemer quando ouve um homem dizer coisas como “A desalavancagem tem de se fazer através de ‘stocks’, alienação de ativos, de modo a não prejudicar a economia”? Como poderia ela sufocar um grito rouco quando ouvisse sussurrar “O processo de desalavancagem de fluxos sacrifica o financiamento da economia e o crescimento e, logo, o balanço dos bancos pela qualidade. Nessa altura, entra pela janela o que tinha saído pela porta.”?

No que me diz respeito, já ficaria contente se, um dia, um economista com responsabilidades de qualquer tipo de governação fizesse previsões acertadas. A esse, mesmo preso dentro deste corpo heterossexual, dar-lhe-ia ouvidos.

Comments


  1. Essa realmente é engraçada. É que se forem ao online translator do google, encontraram os seguintes exemplos (*leverage = influência* mas *deleverage=desalavancagem*). Será que não podiam traduzir deleverage como “perca de influência”? Quanto a mim, a única razão para não o fazerem é a palavra “perca”…É que em economês tudo deve soar positivo, mesmo que não o seja, aliás por aí se vê a “reputabilidade” (também tenho direito a inventar palavras, ou pensavam que era só em Wall Street?) dessa ciência baseada somente em ganância.


  2. Caro António Nabais,
    O governador do BdP, na esteia da maioria dos economistas mediáticos, adoptou, de facto, o ‘economês’ como língua eleita para (des)comunicar.
    A desalavancagem corresponde à correcção da situação que os bancos criaram, concedendo empréstimos de valores excessivos. Para o fazer, desrespeitaram a regra conservadora de emprestar dinheiro dentro de limites baseados nos seus capitais próprios e nos montantes dos depositados pelos clientes. Ao exceder esses limites, aumentaram a capacidade financeira, sobretudo com o recurso a empréstimos externos. Isto é, fizeram uma alavancagem, o que explica várias situações:
    1) Ficaram com uma estrutura de capitais muito debilitada, uma vez que os bancos que assim procederam (toda a banca portuguesa, por exemplo) ficaram com dívidas pesadas no País e no exterior e, portanto, muito vulneráveis a crises financeiras;
    2) Adicionaram à dívida externa total do país parcelas muito elevadas e, por isso, a dívida externa privada é de longe superior à dívida externa pública – fenómeno pouco divulgado.
    3) Com o agravamento das condições de mercado (crédito mal parado em relação a empresas e particulares), e para cumprimento do memorando da famigerada ‘troika’, é recomendável que vendam activos, aumentem os capitais próprios no sentido de diminuirem a alavancagem – realizarem a desalavancagem – feita com financiamentos externos, melhorando, assim, a autonomia financeira.
    Bom permiti-me esta explicação; não digo em bom português – desse sabes tu e muito – mas evitando usar o eloquente ‘economês’.
    Realmente Carlos Costa, à semelhança de Vítor Gaspar e de outros, exprime-se numa linguagem tão hermética que nada comunicam. Limitam-se a falar para os jornais da especialidade:):):)
    Um abraço,
    CF


    • Ressalvo:
      montantes depositados e ‘não montante dos depositados’

    • António Fernando Nabais says:

      Caro Carlos
      Só te posso agradecer a clarividência e a paciência. Até eu, ignorante, fiquei a perceber. Proponho-te a criação de um dicionário economês-português. Fazes falta, homem!


      • Caro António Nabais,
        Não tens que agradecer.
        Para o dicionário, faremos nós uma PPP – Parceria Pirato-Privada. Os piratas estão em alta.
        Um abraço,
        CF

      • A. Pedro says:

        Junto as minhas às tuas palavras, Fernando. A falta que o homem faz!
        -Homem, Carlos, fazes falta, pá.

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